Resenha de livro: Emil Cioran, al di là della filosofia: conversazioni su Benjamin Fondane

DI GENNARO, Antonio (Org.). Cioran, al di là della filosofia: conversazioni su Benjamin Fondane. Milão/Udine: Mimesis Edizioni, 2014.

Sem títuloEste livrinho, publicado em 2014 na Itália (país com uma prolífica produção, acadêmica e extra-acadêmica, em torno do legado de Cioran), reúne as melhores qualidades dos livros do próprio autor a cuja vida e obra é dedicado: a concisão e a densidade prenhe de essencial. Trata-se de uma dupla abordagem complementar: de Cioran através de Fondane, e de Fondane através de Cioran. Os dois, nascidos na Romênia e radicados na França, manteriam uma rica, porém interrompida, amizade. Ambos, herdeiros legítimos do antigo Dácio, arquétipo trágico do homem romeno que serviria de inspiração para o poema “Oração de um Dácio”, do grande poeta nacional, Mihai Eminescu, e a partir deste, do Psalmul leprosului (“Salmo do leproso”), de Fondane, e de diversos textos de Cioran, como por exemplo aquele que encerra o Breviário de decomposição, “Quousque eadem?” (Até quando [as mesmas coisas]?, conforme à questão latina contida na carta XXIV de Sêneca a Lucílio).

O motivo central do livro, organizado por Antonio Di Gennaro, é a amizade tragicamente interrompida entre Cioran e Fondane. Este, romeno e judeu, seria preso pela polícia francesa da ocupação e morreria meses mais tarde em Auschwitz, para a tristeza do amigo, que (como pouco se sabe, afinal, Cioran nunca fez disso um certificado público de sua reputação), interviu e inclusive conseguiu, com a ajuda de Stéphane Lupasco (outro romeno, filósofo da lógica, também radicado na França) e Jean Paulhan, libertar Fondane. Mas não sua irmã, que também havia sido presa. De modo que o poeta e filósofo, que ainda tinha muito a criar e a legar à humanidade em termos de pensamento e de crítica, preferiu seguir junto com a irmã para Auschwitz, nunca se saberá se com a certeza do que os aguardava ou com a esperança de saírem vivos.

O livro é composto de ensaios e entrevistas, à parte a bela introdução (muito mais que introdutória), que fica por conta do próprio organizador. Uma das entrevistas, com Leonard Schwartz (pesquisador e especialista da obra de Fondane), gira em torno basicamente de Fondane, e a outra, com Cioran (feita por Arta Lucescu Boutcher), aborda a relação Cioran-Fondane, suas afinidades e cumplicidades: Jó, Chestov, Baudelaire, a figura do Fracassado (Raté), a “consciência infeliz” (La conscience malheureuse, título de um livro de Fondane)…

O texto de Ricardo Niremberg, “L’uomo Benjamin Fondane”, narra o périplo levaria inicialmente a uma correspondência epistolar, e então ao seu encontro com Cioran, em 1988, do qual resultaria uma entrevista com o autor romeno-francês. Seu contato indireto com Cioran seria a escritora argentina Victoria Ocampo, amiga de Fondane, que o apresentaria a Yves Bonnefoy, que, por sua vez, o apresentaria a Cioran.

Um dos textos mais interessantes, em virtude de seu valor não apenas afetivo e filosófico, mas sobretudo histórico, é a carta de Cioran a Geneviève Fondane, viúva do escritor falecido em Auschwitz. Cioran responde à Sra. Fondane tratando de dar-lhe seu parecer sobre os manuscritos que o amigo não tivera tempo de concluir e publicar, providência para a qual ela havia solicitado a ajuda de Cioran. Trata-se daquele que seria publicado, graças aos auspícios editorais de Cioran e Boris Schoelezer, como Baudelaire et l’expérience du gouffre (“Baudelaire e a experiência do abismo”).

Por fim, o posfácio de Giovanni Rotiroti, “Fondane e Cioran: due scrittori di fronte alla ‘rivoluzione'”, é um belo texto que tem o mérito de pôr em questão e desconstruir, pelo viés da amizade entre Cioran e Fondane e de suas afinidades intelectivas, todo um complexo de estereótipos e preconceitos cristalizados em torno do “caso” Cioran, em seu contexto histórico-cultural da Europa ocidental pós-guerra. O “reacionário” e eterno fascista, o antissemita, o misantropo… Revelando os paralelos improváveis entre as vidas e as obras de ambos os pensadores romenos destinados ao francês como língua de expressão, o ensaio de Rotiroti (o livro como um todo) traz à luz também algumas facetas inauditas, se não surpreendentes, deste autor romeno de expressão francesa, de sua devoção à verdadeira amizade e de sua lealdade incondicional, passando por suas atividades editoriais em Paris, até sua posição nada evidente entre a reação e a revolução.

Sobre Benjamin Fondane (“um homem superior, nobre, fora do comum”), Cioran dedicaria um dos perfis de seus Exercícios de admiração, penúltimo livro escrito, e publicado no Brasil pela Rocco. Enfim, Cioran, al di là della filosofia: conversazioni su Benjamin Fondane é uma leitura tão agradável quanto enriquecedora a respeito da obra de Cioran, tendo em vista suas relações mais ou menos conhecidas com as obras de outros pensadores, como seu amigo Fondane e também seu mestre, Lev Chestov, uma das maiores referências filosóficas do pensamento trágico-existencial de Cioran.

Anúncios