“O fragmento é indestrutível” (Jean-Luc Nancy)

Publicado na Revista Polichinello, 06/02/2013

Ele não é um objeto, não é um gênero, não faz obra. (A vontade fragmentária de Friedrich Schlegel é a vontade mesma da Obra, não voltemos a isso. Mas aquilo que Blanchot nomeia de a exigência fragmentária excede a obra, porque isso excede a vontade.)

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Fragmento: o texto é frágil. Ele nada mais é que isso [ça]. Isso quebra, isso não quebra. No mesmo lugar. Onde? Em alguma parte, sempre em alguma parte, uma parte inassinalável, incalculável.

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Está-se, portanto, errado em escrever em fragmentos sobre o fragmento (isso vale também para Blanchot). Mas que fazer de diferente? Escrever sobre uma coisa totalmente outra – ou sobre nada – e deixar se fragmentar.

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 « Isso vale também para Blanchot »: no entanto, foi a publicação de A Escrita do desastre, em julho de 1980, na nrf [Nouvelle revue française], que veio interromper, aqui, a redação de um texto totalmente outro, e aquilo que eu poderia agora, tendo-o abandonado, chamar de uma dialética suplementar do fragmento. A exigência de Blanchot era o seu guia. O texto de Blanchot o interrompeu. Eu o cito:

O fragmento, enquanto fragmentos, tende a dissolver a totalidade que ele supõe e que ele carrega rumo à dissolução de onde ele não se forma (propriamente falando), à qual ele se expõe para, desaparecendo, e, com ele, toda identidade, se manter como energia de desaparecer […]

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Uma dialética suplementar do fragmento estava, portanto, lá também em obra. Talvez não seja equivocado nomeá-la uma dialética negativa, e não se buscarão com erro secretas correspondências entre Blanchot e Adorno. Mas isso quer assim mesmo dizer que a dialética – o discurso – é indestrutível. Noli me frangere, ela ordena em todo texto, e no texto fragmentário também, e no discurso em fragmentos sobre o fragmento. Não me quebres, não me fragmentes.

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Não é somente o efeito de uma vontade de se proteger. Não mais do que o Noli me tangere da Escritura. Não me toques, diz o Cristo ressuscitado, porque tu não o poderias, porque tu não saberias aquilo que tu tocas, e porque tu crerias sabê-lo. Tu não podes nada saber nem nada querer daquilo a que se dá o nome de um corpo glorioso.

Não podemos, sobretudo, acreditar que pudéssemos saber fragmentar. Que pudéssemos conhecer nisso em fragmentos. E que pudéssemos fragmentar. Ninguém fragmenta, senão talvez esse Noli me frangere que toda escritura pronuncia: não me fragmentes, não queiras me fragmentar – isso se fragmenta e isso me fragmenta bastante, não está à medida de tua decisão… [+]