“Existência e escritura em Cioran” (Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes)

Existência e escritura em Cioran
Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes
Texto de apresentação de defesa de doutorado
PUC-SP, 07/03/2015

Banca julgadora:

Profª Jeanne-Marie Gagnebin (orientadora, PUC-SP)
Prof.Franklin Leopoldo  e Silva (USP)
Prof. Paulo Jonas de Lima Piva (UFABC)
Prof. Flamarion Caldeira Ramos (UFABC)
Profª Yolanda Gloria Gamboa Muñoz (PUC-SP)

Existência e escritura designa uma dupla temática e uma dupla abordagem da obra de Cioran: antes que escritor, como será conhecido e comemorado por seus livros franceses, trata-se de um pensador – e, de forma heterodoxa, e extemporânea, também um filósofo (de formação, se não por vocação). Um pensador existencial, o que não significa existencialista; um pensador marginal e solitário no contexto definitivo em que se insere, a França da segunda metade do século XX. Pouca, ou nenhuma, relação entre o pensamento existencial de Cioran e o existencialismo, digamos, de um Sartre. O que é que os distingue? Basicamente, se para Sartre “o existencialismo é um humanismo”, sendo este humanismo um ateísmo resoluto, o pensamento de Cioran, se pode ser dito um humanismo, não o é no sentido de um ateísmo resoluto; é mais propriamente um espiritualismo (de viés trágico-agonístico), de onde a presença da mística em sua obra – uma mística sem absoluto, “das raízes imanentes da vida” (Nos cumes do desespero).

Cioran é não apenas um pensador existencial “privado” (um Privat Denker, como se definiu em alemão), mas também um pensador religioso – heterodoxo – e um metafísico. Por mais que as duas categorias se interseccionem, elas não coincidem: o religioso em Cioran não tem nada a ver com a fé, prescindindo dela; é preciso distinguir entre religiosidade e sentimento religioso da existência: “Não gostaria de viver em um mundo esvaziado de todo sentimento religioso. Não me refiro à fé, mas a essa vibração interior que vos projeta em Deus e, às vezes, para além dele.” (Écartèlement). Em pleno século XX, Cioran é um pensador de aspiração metafísica, ainda que a sua metafísica não se configure de modo tradicional; trata-se de uma metafísica negativa, dualista e não dialética, de viés gnóstico-maniqueu. Uma meontologia, com efeito: uma teoria do nada ou do não-ser. O pensamento cioraniano pode ser dito mais propriamente uma metafísica existencial, buscando pensar o essencial da condição humana a partir da intuição originária de uma Queda no tempo (título de um de seus livros franceses, La chute dans le temps).

Os pontos de ligação entre o religioso e o metafísico são (I) a consciência como enfermidade, resultado da Queda no tempo (na individuação, na consciência da individuação); e (II) a intuição do Mal como realidade ontológica subsistente e inerradicável da existência, coextensivo ao existente e ao princípio mesmo do existente (em chave teísta-bíblica, a Criação e o próprio Criador). De onde a filosofia do mal subjacente ao seu pensamento existencial. Ainda que possa ser dito cético e, em certo sentido, ateísta (um ateísmo religioso!), Cioran não dispensa a ideia do pecado original, como hipótese puramente antropológica (empírico-intuitiva), destituída de toda conotação religiosa: só importa a consciência da Queda, a consciência do mal.

Como ele mesmo o afirmou a respeito de Nietzsche, o seu pensamento pode ser dito uma “soma de atitudes” sem nenhuma preocupação de unidade. Pessimismo, ceticismo, niilismo, cinismo, misticismo – tudo isso concorre na “soma de atitudes” que conforma o seu pensamento. Trata-se de um pessimista em matéria de pensamento existencial-metafísico, porém, não exatamente na linha de um Schopenhauer, e isto por duas razões: (I) o seu pessimismo não é dogmático nem sistemático, mas intuitivo e experimental, estando livre para contradizer-se a bel-prazer; (II) não se trata de um pessimismo que tenha na Vontade como essência, a exemplo de Schopenhauer, o fundamento do Mundo como representação, sendo um pessimismo elaborado no interior de um quadro teísta do mundo concebido como a Criação fracassada de um mauvais démiurge (“mau demiurgo”), segundo a crença popular dos romenos de viés gnóstico – mais especificamente bogomilo, heresia cristã historicamente misturada ao cristianismo ortodoxo nacional.

Por falar em niilismo, não seria o caso de interpretar Cioran pelo filtro de Nietzsche, filósofo ao qual ele viraria as costas, uma vez exilado; seria demasiado fácil, e reducionista, classificá-lo como um “niilista passivo”, perdendo de vista o elemento criativo-afirmativo de sua vida e obra. Cioran é muito mais do que um pós-nietzschieano (em certo sentido, um pós-anti-nietzschiano). Aí onde Nietzsche fala “niilismo”, Cioran falaria “mística”, sendo que “é um erro supor que a mística deriva de um enfraquecimento dos instintos, de uma seiva comprometida. […] Longe de serem claudicantes”, os místicos “lutaram por sua fé, atacaram Deus de frente, se apropriaram do céu” (Le commerce des mystiques).

Cioran não é um autor de língua francesa que nasceu na Romênia; é antes um autor romeno que se expatriou na França e adotou o francês como língua de expressão. Irredutivelmente, ele é – e isso não pode ser subestimado – um espírito romeno, mais especificamente transilvano. Compreender Cioran, inclusive em sua expressão francesa, implica compreender a sua complicada – e trágica – romenidade: a língua, a cultura, a história, o espírito do seu país de origem. Pouco se sabe sobre a Romênia entre nós, e a barreira que se interpõe entre o meu contexto de recepção e o contexto romeno original do autor foi sem dúvida um dos maiores obstáculos enfrentados em minha pesquisa.

Dito isso, um estudo sobre este autor exige um trabalho intensivo de contextualização. Decidi delimitar meu objeto de investigação prioritariamente sobre a produção francesa de Cioran, a partir de seu livro de estreia no idioma emprestado, o Breviário de decomposição (oque não significa que os precedentes romenos de sua obra francesa tenham sido deixados de lado). A razão do recorte é que a obra francesa de Cioran, marcada por um corte incisivo em relação à sua produção romena anterior, representa a culminação do seu pensamento conforme maturado e depurado ao longo dos anos, mediante o exílio e a mudança de idioma. É sua écriture que me interessa, sobretudo. A contextualização também implicou um levantamento da constelação de autores, cenários, tradições e tendências de pensamento que concorrem na formação do pensamento de Cioran. De Heráclito a Nietzsche, da antiga gnose à mística católica, do hinduísmo ao taoísmo e ao budismo; do cirenaico Egésia a Schopenhauer e Mainländer, de Pascal a Baudelaire, do Romantismo inglês a Dostoiévski e os espiritualistas russos (Chestov, Merejkovski, Berdiaev), de Pirro a Wittgenstein, do Cinismo de Diógenes ao niilismo moderno – ou, nas palavras do próprio Cioran, “de Teógnis a Beckett”.

Ainda no tocante à contextualização: cumpre sublinhar a relação estreita – e visceral – entre a vida e a obra do autor, relação sobre a qual ele sempre insistiu. “Não inventei nada, tenho sido sempre apenas o secretário de minhas sensações.” Cumpre enfatizar, neste sentido, duas experiências biográficas que incidem diretamente sobre a obra – romena e francesa – de Cioran. A primeira delas é a insônia, enfrentada desde a juventude até os primeiros anos na França, e da qual se desdobrará a lucidez – lucidez que é, a meu ver, a palavra-chave que resumiria o seu pensamento. A segunda corresponde a suas experimentações políticas de juventude, que resultariam em decepção e trauma em relação ao destino histórico da Romênia e ao próprio destino enquanto romeno. As marcas desse passado político inglório ecoarão, de maneira subterrânea, em sua obra francesa, a partir do Breviário de decomposição. De onde o apolitismo radical de Cioran no exílio – e a figura do “exilado metafísico” que ele assumirá para definir-se.

Se Kierkegaard fala da formação pela angústia, Cioran falará da formação pelo desespero, consequência direta da insônia; este, em vez de conduzir a Deus mediante um “salto da fé”, resultará em uma segunda queda, ainda mais grave que a primeira: ele cairá do tempo, em direção a uma “eternidade negativa”. O que caracteriza a lucidez em Cioran é que ela é incompatível com a vida, tornando a existência uma façanha impraticável, se não impossível. Dito isso, se há uma questão a partir da qual se desenvolverá o discurso cioraniano, notadamente em sua expressão francesa, é a seguinte: como suportar a vida? E, sobretudo, como suportar-se a si mesmo? “Eis”, segundo ele, “a pergunta à qual ninguém pode nos dar uma resposta” (Écartèlement).

A segunda e conclusiva temática que exploro é a escritura (écriture) de Cioran, conforme distinta de sua escrita – referindo-se esta à sua obra romena pré-exilio. Destarte, o que as distingue, singularizando a écriture, é o principio de estilo, não sem relação com a noção de “grande estilo” exaltado por Nietzsche. Cioran tornar-se-ia conhecido como um escritor e um estilista de língua francesa. De onde o valor literário de sua écriture. Se isso se deve em grande medida à sua própria démarche intelectual no exílio, não deixa de ser um equívoco e um reducionismo que tento problematizar e esclarecer tanto quanto possível. Para tanto, faço referência a Schopenhauer e a Barthes. Em Parerga e Paralipomena, o filósofo alemão afirma: “há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever”. Dir-se-ia, paradoxalmente, que Cioran escreve tanto em função do assunto quanto escreve por escrever. “Não se escreve porque se tem algo a dizer, mas porque se tem ganas de dizer algo”, afirma ele ironicamente em Écartèlement. Recorro, por outro lado, à distinção de Barthes entre o “escrevente” (écrivant) e o “escritor” (écrivain), para afirmar que Cioran combina, em sua fase francesa, traços de ambas as figuras. Um “escritor”, pois a sua é uma escritura intransitiva, cuja finalidade não se encontra para além da atividade mesma de escrever, e ao mesmo tempo um “escrevente”, pois, além – e antes – de ser um escritor, ele é um pensador preocupado em entreter ideias e questões filosóficas. “Nunca inventei nada; tenho sido apenas o secretário de minhas sensações”, afirma ele (Écartèlement), o que me leva a caracterizá-lo como um “escrevente de si mesmo”. Por fim, o fato de Cioran ter se tornado conhecido como um estilista da língua francesa denota justamente essa bivalência: pensador e escritor, escritor e escrevente.

Concluirei mencionando a importância de certas formas literárias mais ou menos inconvencionais que são entretidas pelo discurso cioraniano em sua expressão francesa. Além da prosa, que talvez seja, genericamente, a principal delas, especificamente o aforismo, o fragmento e o ensaio. Todas estas formas correspondem, em suas respectivas naturezas discursivas que se interpenetram, a uma mesma função atribuída pelo autor tanto à escrita quanto à escritura: uma forma de terapêutica criativa cujo propósito é ajudá-lo a suportar a vida e a si mesmo. Escrever como uma condição de possibilidade de seguir existindo, de perseverar na vida entendida como um “estado de não-suicídio.” O sentido religioso do pensamento de Cioran converge com o princípio terapêutico de sua escritura: “Tudo o que é verdadeiramente intenso”, escreveu, “participa do paraíso e do inferno”, o sentimento religioso da existência se definindo puramente pela intensidade do vivido. O estilo de Cioran é um estilo caluniador: sua obra, enquanto produto da escritura como terapêutica, resume-se em uma série de calúnias e blasfêmias lançadas ao Criador e à sua “Criação sabotada”. De onde a quase onipresença de “Deus”, confrontado com “esse maldito eu”, em seus escritos.

Cético? Ateu? Pessimista? Niilista? Místico? Tudo isso combinado numa polifonia infernal, de modo que nenhuma destas categorias subsiste como definição suficiente da “soma de atitudes” que é o seu pensamento. Trata-se de um autor para o qual o estilo é ao mesmo tempo “uma confissão e uma máscara”, para o qual o profundo coincide – paradoxalmente – com o superficial, e que está mais interessado em deixar uma imagem incompleta de si e em multiplicar os mal-entendidos sobre si mesmo, do que em explicar-se e facilitar a tarefa do leitor. Termino citando-o:

Escrever é uma provocação, uma visão felizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, algumas vezes odiosa. Nada mais miserável do que a palavra e, no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade! […] Quando nos dedicamos a um assunto, qualquer que ele seja, experimentamos um sentimento de plenitude acompanhado de uma ponta de arrogância. Fenômeno mais estranho ainda: essa sensação de superioridade quando evocamos um personagem que admiramos. No meio de uma frase, com que facilidade nos consideramos o centro do mundo! Escrever e venerar não andam juntos: quer se queira ou não, falar de Deus é olhá-lo do alto. A escrita é a desforra da criatura e sua resposta a uma Criação sabotada. (Exercícios de admiração).

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