Entrevista: Amelia Natalia Bulboacă e a recepção italiana de Cioran, entre duas línguas

Amelia Natalia Bulboacă nasceu na cidade de Brăila, na Romênia. É formada em Ciências Políticas pela Universidade de Milão, com especialização em Ciências Internacionais e Instituições europeias. É mestra em Ciências Antropológicas e Etnológicas pela Università degli Studi di Milano-Bicocca e está em vias de obter outra especialização em Filosofia das Religiões. É colaboradora da revista bilíngue romeno-italiana Orizonturi culturale italo-române. Atualmente, está em processo de traduzir, do romeno ao italiano, textos de/sobre Cioran. Traduziu ao italiano o livro de Marta Petreu An infamous past: E.M. Cioran and the rise of fascism in Romania (Ivan R. Dee, 2005).

EMCioran/Br: Primeiramente, eu gostaria de te agradecer por esta entrevista. Como Cioran, você está familiarizada com a experiência do bilinguismo, pois, como ele, você nasceu na Romênia, e também como ele, se radicou em outro país (no caso, a Itália). Poderia nos contar a respeito do seu itinerário intelectual, e sobre como veio a descobrir a obra de Cioran? Já conhecia Cioran na Romênia? Na sua visão, quais são as vantagens e as desvantagens de escrever numa língua estrangeira?

A.N.B.: Eu é que te agradeço, Rodrigo, por esta entrevista e pela paixão sem limite que caracteriza o seu estudo e o seu contínuo empenho na difusão da obra de Cioran.
É verdade, são tantos fios, visíveis e invisíveis, que me ligam a Cioran. Devo dizer que você tocou num nervo descoberto perguntando-me sobre a situação do desenraizado, do apátrida.  Por ter a dupla cidadania ítalo-romena (pois, diferentemente de Cioran, que nunca solicitou a cidadania francesa, eu e a minha família solicitamos a italiana), sempre me senti uma pessoa sem nenhum pertencimento. Afinal de contas, vivemos numa época líquida em que o pertencimento e a identidade não são tão claros quanto foram outrora; porém, devo admitir que a minha “carreira” como expatriada tem todas as conotações de uma feroz radicalidade – inicialmente, talvez, de forma inconsciente, e então tomada voluntariamente como um fardo que, ao mesmo tempo, tranquiliza.
Nasci na Romênia, em Brăila, uma cidade que tem uma história antiga, uma encruzilhada de muitas culturas, um verdadeiro umbral entre o Oriente e o Ocidente. Da minha varanda eu podia ver a água do Danúbio. Infelizmente, eu sempre me senti presa naquela realidade, ainda que hoje eu não sei o que daria para abrir a janela e poder ver o rio ou o mar. Descobri Cioran no liceu, graças ao meu professor de língua romena, Viorel Mortu, um intelectual muito refinado que frequentemente citava este filósofo tão eclético e tão… contemporâneo: este foi o meu primeiro impacto com o autor, dado que nós, estudantes, estávamos habituados a ouvir falar apenas dos clássicos. Os fragmentos citados imediatamente entraram na minha mente e começaram a escavar pacientemente, até o momento certo de retornarem à superfície para dar voz à sua incubação meticulosa e laboriosa. Quanto isto aconteceu, eu já estava na Itália.
Lembro-me de ter subitamente começado a amar Cioran porque não fazia mistério sobre o imperativo de ir embora da Romênia e nunca mais retornar. Este era também o meu desejo, que depois se cumpriu por uma série de circunstâncias que bem poderiam ser chamadas de destino. Quando eu cheguei à Itália com a minha família, aos 19 anos, me inscrevi imediatamente na Faculdade de Ciências Políticas, escolhendo uma especialização em Relações Internacionais – o sonho da minha avó era que, um dia, eu chegaria ao Parlamento Europeu, o que para mim não seria, obviamente, nada mal. Em seguida, enquanto me confrontava com a dura realidade do meu novo estatuto de extra-comunitaria, a utopia desapareceu como fumaça ao vento e eu comecei a perder a confiança na eficácia das instituições e, em geral, da política. Este foi, para mim, a primeira virada importante, o ponto de não-retorno, a experiência iniciática da alteridade, que eu me deparei tendo que suportar, antes mesmo de poder assumi-la conscientemente. Como consequência natural do meu desencantamento premente, eu me voltei aos estudos de antropologia cultural, a partir dos quais, finalmente, cheguei à filosofia. Quando cheguei na Itália, eu conhecia o italiano simplesmente porque, quando era pequena, eu assistia os canais da TV italiana que eram transmitidos na Romênia. Um dia, um vizinho que viajava o mundo participando de todas as maratonas possiveis e imaginaveis, me deu um presente trazido da sua viagem à Itália: um livro, Il fu Mattia Pascal [O falecido Mattia Pascal], de Pirandello, que eu li sem conhecer direito o italiano. Disse-me também que na Italia havia uma cidade com o mesmo nome que o meu: Amelia (o que me pareceu extraordinário). Como eu disse, nunca estudei o italiano, mas depois de um mês da minha chegada na Itália eu já havia passado no primeiro exame universitário (escrito) com a nota máxima. Sempre nutri uma grande paixão pelas línguas, tanto é verdade que também acabei aprendendo o árabe, ainda que só o italiano tenha se tornado minha segunda língua. O italiano colonizou a minha língua materna até suplantá-la (quase) definitivamente – ao menos na escrita. Você me perguntou sobre as vantagens e desvantagens de escrever numa língua estrangeira. Penso que uma das maiores vantagens seja a aquisição de uma hipersensibilidade no confronto com as palavras, seus significados e etimologia. Sobretudo se tem a ver com uma língua tão intimamente aparentada à materna, como o italiano ou o francês, que são línguas românicas próximas do romeno, do português ou do espanhol. O outro lado da moeda é que se corre o risco de exagerar, de tornar-se um maníaco do estilo, talvez passando dias pensando numa frase ou mesmo numa palavra, retornando mil vezes ao texto e nunca contente com o  resultado obtido – Cioran reescreveu o Breviário de decomposição ao menos duas ou três vezes.

EMCioran/Br: Cioran sempre insistiu na diferença entre a língua romena e a francesa, ressaltando as provações experimentadas com esta última, que ele adotou definitivamente desde que abandonara sua língua materna. Você crê que essa diferença também é grande no caso da relação idiomática Romeno-Italiano? Haveria afinidades profundas e significativas entre estas duas línguas?

A.N.B.: Creio que a diferença entre o italiano e o romeno seja menos notável do que aquela entre o francês e o romeno. A minha experiencia pessoal – mas não só a minha – é que o italiano pode ser aprendido muito facilmente, até mesmo sem o auxílio dos livros de gramática (certamente seria melhor usá-los mas, a meu ver, não é indispensável). O italiano e o romeno são línguas gêmeas, ainda que esta constatação talvez não seja nem um pouco óbvia da perspectiva de um italiano, pois o romeno sofreu influência e empréstimos do turco e da língua eslava. Ainda hoje fico impressionada quando escuto algumas palavras dos dialetos do sul da Itália que são absolutamente idênticos aos termos romenos. Uma outra vantagem do italiano em relação ao francês é, na minha opinião, a sua fácil pronúncia. Cioran conservou durante toda a sua vida, aquele seu típico sotaque valaco, que, em italiano, talvez ficasse menos saliente. Talvez.

EMCioran/Br: Cioran foi diversas vezes à Itália. Na sua visão, o que é que o atraía ao país que em que você reside, além de Leopardi, poeta que ele admirava enormemente (a ponto de pendurar, segundo Renzo Rubinelli, o seu poema L’infinito na parede da sua mansarda)?

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Giacomo Leopardi (1798-1837)

A.N.B.: Cioran tinha um verdadeiro culto por Leopardi, e podemos certamente acreditar no testemunho de Renzo, que teve a imensa sorte, e o privilégio, de visitar Cioran na rue de l’Odéon. Cioran deveria ter ido à Itália com a tão cobiçada bolsa de estudos no estrangeiro. A sua primeira escolha foi, de fato, ir à Itália. Em abril de 1937, ele escreveria estas palavras a Mircea Eliade: “Seja bom, mande-me para a Itália”. Cioran queria obter uma bolsa de estudos junto à Casa romena de Roma, a atual Accademia di Romania – que foi fundada na capital italiana na década de 1920, graças à iniciativa conjunta do historiador Nicolae Iorga e do arqueólogo Vasile Pârvan. Ao amigo Mircea Eliade ele havia confessado também a sua intenção de escrever um livro sobre a Itália. Evidentemente, naquela época Cioran queria de todos os modos, autosugestionar-se – se posso dizê-lo assim – face a face com universo italiano, já que o seu único objetivo naquela época (falo claramente em termos de escolhas para o futuro) era ir embora da Romênia, onde se sentia completamente inútil e sem futuro. Como sabemos, ele finalmente conseguiu uma bolsa concedida pelo Instituto Francês de Bucareste, o que o levaria a Paris ao final de 1937. O fato de que Cioran se tornaria o que se tornaria – um dos maiores estilistas da língua francesa – é devido, portanto, a uma simples casualidade. Não sabemos qual teria sido a sua trajetória destinal se, em vez de ir a Paris, ele tivesse tido a oportunidade de ir para Roma. Não devemos esquecer, contudo, o papel imponderável que desempenhou nesta equação a sua companheira de toda uma vida, a francesa Simone Boué. Muitos são os que pensam que, sem esta mulher providencial ao seu lado, Cioran teria perigado de fracassar completamente. Em todo caso, voltando à sua pergunta, Cioran, como todos os romenos, sentia uma natural e espontânea familiaridade nos confrontos com a Itália, a ponto de considerar os italianos simplesmente como romenos com uma história.

EMCioran/Br: Você escreveu um artigo sobre Cioran (publicado em Cioran, archives paradoxales, tomo II, Éditions Garnier) intitulado “Cioran e a antropologia apocalíptica”. Poderia explicar brevemente como você concebe essa antropologia? Cioran escreveu: “O homem segrega desastre” (Silogismos da amargura); haveria alguma relação entre essa antropologia, tal como você a compreende, e este aforismo?

A.N.B.: Certamente. Com estas quatro palavras pode-se dizer tudo sobre a antropologia negativa ou apocalíptica, como eu a denominei. Já que não nos contentamos com essências e temos o vício de nos embriagarmos com rios de palavras, livros e artigos, também podemos fazer muitas variações sobre o tema. Então eu escrevi o artigo em questão, pois, estudando-se a obra romena de Cioran (a menos conhecida, pelo menos fora da Romênia, mas que eu considero de primária importância), descobre-se que Cioran estava muito interessado em antropologia e em psicologia, esses saberes que se propõem estudar o homem vivo, em carne e osso. Cioran conviveu com essa obsessão por toda a sua vida: “A multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento”, escreveu ele já em Nos cumes do desespero. Não tão longe a ponto de torná-la uma profissão, talvez assumindo o papel do antropólogo misantropo, até porque Cioran não foi feito para ter uma profissão, portanto aquele caminho lhe estava necessariamente interditado. Não obstante, cumpre admitir que Cioran foi um antropólogo sui generis e, ainda que eu presuma que ele não sabia disso, há tantos pontos em comum entre Cioran e Claude Lévi-Strauss, tanto no que concerne à especulação metafísica quanto às suas respectivas biografias. Por exemplo, os dois se formaram em filosofia no mesmo ano (1931). Ambos maturaram a mesma convicção intelectual que os distanciaria radicalmente dos automatismos asfixiantes e anquilosantes da Academia (Cioran se tornará o Privat Denker da mansarda parisiense, enquanto que Lévi-Strauss iria em busca da sua verdade no coração da Floresta Amazônica). Cioran foi à França com uma bolsa de estudos para fazer uma tese de doutorado na Sorbonne (onde Lévi-Strauss, por sua vez, obteria o seu doutorado em 1948), mas sabemos que ele passou todo o tempo sem nem mesmo atravessar a porta da universidade ou fazer contato com os professores para a coordenação da tese. Em sua bicicleta, Cioran percorreria um vasto território e conheceria a França profunda. Sem ter programado isso, terminaria comportando-se como um etnógrafo de bicicleta no interior da França, na qual, neste mesmo período, Lévi-Strauss, no coração da Amazônia, pensava com inefável melancolia (basta ler as suas extraordinárias memórias publicadas sob o título de Tristes trópicos, para -sedar conta dessa interessante coincidência).

Enfim, para não me delongar muito, a antropologia apocalíptica de Cioran (que é perfeitamente reconhecível na entropologia de Lévi-Strauss) reside no fato de que, na sua obra, a imagem do homem é representada como numa fotografia instantânea da queda livre e sem fundo no Irreparável. O homem é uma criatura que “segrega desastre” porque, retomando o tema da antropologia negativa, ele pensa poder criar continuamente novos conteúdos culturais (para não falar da utopia do progresso que nunca, como em nossos dias, revelou o seu exato contrário pela quantidade de guerras, terrorismos e injustiças às quais assistimos). Como mencionei Lévi-Strauss, penso que estas suas linhas significativas podem explicar muito bem o célebre aforismo cioraniano que acabamos de recordar acima: “Desde que começou a respirar e a alimentar-se, até a invenção dos engenhos atômicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e salvo quando se reproduz – o homem nada mais fez do que alegremente dissociar bilhões de estruturas para reduzi-las a um estado em que já não são capazes de integração.” (Tristes trópicos) Desde que começou a respirar, o homem segrega desastre!

EMCioran/Br: Como a lucidez, tal como a compreende Cioran, é compatível com a vida?

A.N.B.: A lucidez de Cioran não deixa escapatória. Penso que Cioran disse tudo o que se poderia dizer sobre o essencial, expurgando com precisão cirúrgica até o mais minúsculo coágulo de ilusões. À primeira vista, a sua pode parecer uma lucidez mortal, intolerável, absolutamente incompatível com a vida, que é feita, sobretudo, de ilusões. Direi que, no fundo, esta é uma questão de gosto, de escolha e de caráter. Alguns preferem viver na ilusão (tantos amantes se comportam desta maneira), mas há também pessoas um pouco mais “radicais” que jamais admitiriam uma bela mentira no lugar de uma verdade dura e dolorosa. Se se pertence a esta última categoria, a lucidez de Cioran não apenas é compatível com a vida como se torna indispensável. Para Cioran, a lucidez significava ter a “paixão do insolúvel”, o que pode levar o homem a excessos inimagináveis (um destes é, na minha visão, a escrita). De qualquer forma, para quem vive nessas alturas vertiginosas, viver ou morrer tornar-se absolutamente irrelevante, como sempre disse Cioran. De fato, viver com essa lucidez esmagadora significa, frequentemente, ter um plus de vida, pois nos tornamos mais conscientes e mais preparados para as inevitáveis desilusões da vida. Significa sermos sobreviventes! Na entrevista a Sylvie Jaudeau, Cioran dirá:

“A lucidez, graças ao vazio que deixa entrever, converte-se em conhecimento. É então mística sem absoluto. A lucidez extrema é o último grau da consciência e dá a sensação de ter esgotado o universo, de ter sobrevivido a ele. Quem não passou por essa etapa, ignora uma variedade especial de decepção, portanto o conhecimento. Os entusiastas começam a tornar-se interessantes quando são confrontados ao fracasso e que a desilusão os torna humanos. O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial.” (Cioran, Entrevistas com Sylvie Jaudeau, p. 18).

EMCioran/Br: Quais são os autores italianos com os quais a obra de Cioran poderia estabelecer uma espécie de diálogo?

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Carlo Michelstaedter (1887 – 1910)

A.N.B.: Os autores italianos que eu aproximaria de Cioran (para não mencionar, obviamente, o imenso Leopardi) são Carlo Michelstaedter e Giuseppe Rensi. Cioran tinha 23 anos quando escreveu Nos cumes do desespero; aos 23 anos, Michelstaedter se suicidou, o dia seguinte de ter concluído a redação de sua tese, La persuasione e la retorica (era o ano de 1910, e Cioran nasceria em 1911). Carlo Michelstaedter levou a cabo o suicídio em torno do qual Cioran rondaria durante toda sua vida. Os dois partilham das mesmas persuasões: o desespero associado ao sofrimento, a necessidade de viver, o inconveniente de ter nascido, as falsas certezas da mediocridade sobre as quais se apoia a retórica nauseabunda da sociedade humana e de seus expoentes internamente encharcados de males, a convicção de que as palavras devem sangrar e provocar feridas profundas, a crítica impiedosa da modernidade e do progresso ilusório.

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Giuseppe Rensi (1871 – 1941)

Giuseppe Rensi é um filósofo italiano muito interessante, um cético radical mal digerido do universo blindado do establishment cultural, um filósofo marginal e de nicho, com uma personalidade irriquieta e atormentada. Ele tem em comum com Cioran o pessimismo existencial e o niilismo místico (é autor de lívros que Cioran teria certamente apreciado, como: La filosofia dell’assurdo, Apologia dell’ateismo, La morale come pazzia, para citar apenas alguns). É também o autor de aforismos marcados por um “radicalismo feroz com a mais bestial veia pessimista” (descrição do projeto de Nos cumes do desespero, em carta de Cioran a Petru Comarnescu, de 21/04/1933), como havia dito Il Nostro.

EMCioran/Br: Cioran, um filósofo? Um escritor, as duas coisas juntas?

A.N.B.: Não me parece difícil considerar Cioran como um filósofo. De fato, a sua é a única forma de filosofia ainda possível num mundo em que a impostura do idealismo sistemático (e de todos os –ismos) tem sido amplmente desmitificada. Cioran é o filósofo do desengajamento, um esteta e um virtuoso do vago, mas, ao mesmo tempo, os seus livros amanam emanam uma força tal e uma solidez granítica, precisamente porque estão ancoradas naquele solido nulla [sólido nada] de formulação leopardiana, no fundo, é a única realidade a que podemos nos agarrar. E não se trata de um paradoxo gratuito.
Se comparada a certas filosofias que, detrás dos muros fechados da Academia, proliferam como tantas outras culturas de bactérias anaeróbicas, na ausência de oxigênio, de fato, a filosofia vivida de Cioran tem toda a potência de um saudável e vivificante.

EMCioran/Br: Cioran em uma palavra?

A.N.B.: Usarei uma palavra desgastada: catártico.

EMCioran/Br: Há algum livro de Cioran que seja o seu preferido? Algum aforismo que venha de cor, ou que lhe ocorra agora?

A.N.B.: Eis aqui, de verdade, a dificuldade da escolha, e temo que não estarei à altura de te dar uma resposta. Não me arrisco a escolher um único livro. Admito que me são muito caros os livros do período da juventude, escritos em romeno. Estes textos emanam um extraordinário lirismo demiúrgico que deriva de um valor estilístico arcaizante de inefável beleza: a melhor combinação entre poesia e filosofia. Para apreciá-lo plenamente, é preciso lê-lo em romeno, a tradução neste caso trai bastante o original.
Um aforismo que me vem à mente praticamente todos os dias ao despertar é este: “Ser é estar encurralado” (Écartèlement). Estejamos todos encurralados: iludidos e desiludidos, enamorados e desamorados, crentes e descrentes. Está encurralado quem quer que ainda cultive algum sonho, algum ideal, ou mesmo algum simples desejo, mas se dá conta de que já não não tem (mais) a força de realizá-lo e de lutar contra forças que o superam; está encurralado quem já não tem mais nenhum desejo porque, no fundo, o seu único, o seu inconfessável desejo é  tornar a desejar e esperar. Quem comete o suicídio acredita, talvez, poder eludir a armadilha, mas, na realidade, não faz nada além de lançar-se à mesma sorte que tocará cada um de nós. Só há uma única saida obrigatória, e a única realização do suicida é a de ter furado a fila. Não nos esqueçamos nunca: “Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?” (Silogismos da amargura).

EMCioran/Br: Para terminar, por que ler Cioran?

A.N.B.: Voltando aos aforismos que citei anteriormente, direi que ler Cioran serve simplesmente para caminar adiante num mundo que, por sua vez, está indo cada vez mais à deriva. E serve também para dar uma saudável e sonora risada de tudo.

EMCioran/Br: Amelia, te agradeço mais uma vez pela entrevista.

A.N.B.: Eu é que agradeço, Rodrigo.

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Novara (Ita) – São Paulo (Bra), agosto de 2016
Tradução do italiano: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

 

 

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