Cioran e True Detective, ou a Grande Ca√ßa

Ora, um psic√≥logo, assim como entende o Sr. Nietzsche, √© um wissenschaftlischer Mensch, cuja voca√ß√£o consiste em produzir, extrair, criar saberes, at√© mesmo ‚Äď e principalmente ‚Äď de seus pr√≥prios estados, saud√°veis e doentios. Sua curiosidade cient√≠fica o impele, como um ca√ßador, a percorrer o inteiro √Ęmbito da alma humana, suas plan√≠cies, culmin√Ęncias e abismos, mesmo dobras mais obscuras, rastreando o vasto campo de experi√™ncias que constitui a hist√≥ria da “alma”, sempre em busca¬†daquilo que Nietzsche denomina “a grande ca√ßa”.

Oswaldo Giacoia Junior, Nietzsche: o humano como memória e como promessa

*

Na pr√°tica, qualquer¬†um pode rivalizar com o diabo; na teoria n√£o ocorre o mesmo. Cometer horrores e¬†conceber o horror s√£o dois atos irredut√≠veis um ao outro: n√£o h√° nada em comum¬†entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato. Desconfiemos dos que aderem a uma¬†filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em √≠dolo; n√£o teriam¬†chegado a isso se, debru√ßados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas¬†profundezas ou seus miasmas; mas aqueles poucos que tiveram a indiscri√ß√£o ou a¬†infelicidade de mergulhar at√© as profundidades de seu ser, conhecem bem o que √© o¬†homem: n√£o poder√£o mais am√°-lo, pois n√£o amam mais a si pr√≥prios, embora¬†continuem ‚Äď e esse √© seu castigo ‚Äď mais apegados a seu eu do que antes…

Cioran, História e Utopia

Por Rodrigo In√°cio Ribeiro S√° Menezes

Nietzsche pertence a essa linhagem de¬†pensadores que, desde os moralistes franceses (pensemos em La Rochefoucald, Chamfort, La Bruy√®re), passando por Schopenhauer, Leopardi, Dostoi√©vski, Chestov, Fondane, Camus e¬†Cioran, t√™m¬†como obsess√£o a persegui√ß√£o¬†implac√°vel das ilus√Ķes e mentiras que operam como verdadeiras traidoras¬†da¬†vida, √† medida que buscam dar-lhe raz√Ķes e sentidos que a vida¬†n√£o saberia comportar: s√£o, todos eles,¬†psic√≥logos no mais amador (diletante) e profundo¬†sentido do termo: o seu “objeto de an√°lise”, que estes pensadores (chamem-nos “tr√°gicos”, “pessimistas”, “niilistas”, ou simplesmente “c√©ticos”)¬†dissecam de maneira cir√ļrgica, n√£o √© outro que¬†a psyk√© (s√£o, todos eles, verdadeiros “anatomistas” da alma¬†humana)¬†‚Äď uma genealogia e uma arqueologia da alma, ou “a grande ca√ßa”.

True-Detective-wallpapers-4

N√£o √© de outra¬†coisa que se trata na s√©rie norte-americana True Detective, na qual o simbolismo psicofilos√≥fico da narrativa j√° se faz sugerir desde o¬†t√≠tulo, mediante o adjetivo que qualifica o detetive ideal ou arquet√≠pico em quest√£o (o que parece ter sido um encontro feliz ¬†entre o t√≠tulo hom√īnimo de uma revista policial do g√™nero da pulp fiction, publicada desde 1924 a 1995, e as inten√ß√Ķes filos√≥ficas do criador). A√≠, as paisagens pitorescas e desoladoras (uma wasteland, “terra devastada”) de um Estados Unidos interiorano, in√≥spito (desertos, p√Ęntanos, bosques, em oposi√ß√£o ao cen√°rio de cidades industriais extremamente desumanas; o contraste Natureza-Cultura), refletem as paisagens da “alma” humana, no¬†sentido apontado por Giacoia a prop√≥sito de Nietzsche. As tramas policiais e os crimes a serem solucionados n√£o passam de pretextos para aquilo que est√°¬†posto em quest√£o de um ponto de vista filos√≥fico (e portanto, em certo sentido, metaf√≠sico, ainda que se trate de uma metaf√≠sica ou ontologia negativa, uma meontologia), e que se¬†d√° a conhecer atrav√©s dos di√°logos entre os diversos personagens¬†(a come√ßar pelos protagonistas-detetives): uma reflex√£o l√ļcida e vertiginosa dos mais delicados¬†– e muitas vezes horr√≠veis – aspectos da exist√™ncia dotada de uma consci√™ncia reflexiva, de um “Eu” que dura e se desdobra no devir, capaz de pensar-se e questionar-se, realizar-se e aniquilar-se, enfim, da condi√ß√£o humana¬†profunda e concreta no mundo, submetida ao tempo e √† finitude, √† conting√™ncia e √†s vicissitudes da vida, ao acaso e √† sorte, ou √† desgra√ßa e ao mal.

8776604_f520
Terra devastada (wasteland): uma geografia vertical

Filosoficamente, quais s√£o as raz√Ķes do pessimismo? A pergunta me¬†vem √† mente a partir de uma cena, na primeira temporada da s√©rie, em que um dos detetives¬†‚Äď Rustin Cohle, um sujeito solit√°rio e taciturno, mas n√£o carente de um enorme¬†senso de humor, muito embora¬†obscuro¬†‚Äď se define, ao ser interpelado pelo seu parceiro (Marty, sujeito tradicional e “dur√£o”, t√≠pico sujeito conservador do interior dos EUA, interpretado por Woody Harrelson), “em termos filos√≥ficos, como um pessimista”. √Ä surpresa confusa de Marty, que o questiona o que isso quer dizer, ele replica: “que eu n√£o levo jeito para festas”. Uma s√ļbita declara√ß√£o de tal natureza, t√£o estranhamente¬†intelectualizada como se insere no contexto da situa√ß√£o, n√£o cai na banalidade nem carece de justifica√ß√£o, justamente pela raz√£o¬†apontada acima:¬†o verdadeiro detetive √© uma met√°fora para a¬†figura do Fil√≥sofo-Psic√≥logo¬†proposta por Nietzsche, talvez mesmo conjugada ao princ√≠pio po√©tico da polifonia, conforme¬†apontada por Bakhtin na literatura de Dostoi√©vski.¬†Estes e os demais¬†personagens da rede de tramas que constitui a totalidade¬†de True Detective, que durou apenas duas temporadas¬†(alguns bastante atormentados, todos de alguma maneira doentes, como acabamos por descobrir, n√£o sem surpresa), s√£o todos figuras bastante complexas e aparentemente t√£o “reais”, no sentido de Unamuno, do “homem de carne e osso, o que nasce, sofre e morre ‚Äď sobretudo morre ‚Äď, o que come e bebe e joga e dorme e pensa e quer; o homem [e a mulher] que se v√™ e a que se escuta, o irm√£o, o verdadeiro irm√£o” (Do sentimento tr√°gico da vida). A¬†impress√£o que se tem √© a de que as suas vidas est√£o todas, pelas mais diversas raz√Ķes, desmoronando, e todo mundo ali parece estar, de alguma maneira, “fodido”. “Cada um sofre em sua pr√≥pria carne esta unidade de desastre que √© o fen√īmeno¬†homem. E o √ļnico sentido do tempo √© multiplicar essas unidades, aumentar¬†indefinidamente esses sofrimentos verticais que se apoiam sobre uma migalha de¬†mat√©ria, sobre o orgulho de um nome pr√≥prio e sobre uma solid√£o inapel√°vel.” (Brevi√°rio de decomposi√ß√£o)¬†Todo o contr√°rio do “Poema em linha reta”: tratar-se-ia, aqui, de uma po√©tica filos√≥fica “em linha torta“; acaba-se descobrindo que todo mundo ali j√° deu ou tomou porrada, e que ningu√©m √© campe√£o em porra nenhuma.

 

True-Detective-Main-Title-Sequence11-640x331
Detetive Rust Cohle

Curioso sobre a identidade do criador¬†(como me acontece sempre que alguma produ√ß√£o da cultura de massa me toca significativamente), fui pesquisar na Internet sobre Nic Pizzolato apenas para descobrir, sem nenhuma surpresa,¬†numa entrevista concedida por ele a The Wall Street Journal (02/02/2014), que entre as suas principais inspira√ß√Ķes filos√≥ficas, enquanto escritor, est√£o Nietzsche e Cioran (o obscuro Thomas Ligotti, autor norte-americano de fic√ß√£o de horror, como The conspiracy against the human race, tamb√©m √© uma refer√™ncia maior). Comentando os “segredos bizarros de True Detective”, ou seja, as suas fontes filos√≥ficas e liter√°rias, ele explica que a filosofia de Rust Cohle (cujo nome, Rustin Cohle, poderia muito bem ser um jogo com¬†a frase¬†Rust in Soul, “Ferrugem na Alma”), o detetive declaradamente pessimista, “√© um tipo de niilismo antinatalista, e que neste sentido todos os gatos deveriam ser tirados¬†de dentro dos sacos [variante inglesa¬†da ideia de que √© preciso desmascarar todas as farsas e mostrar que “o rei est√° nu”, a exemplo da f√°bula de Hans Christian Andersen]. Os mestres da suspeita, os¬†ca√ßadores de ilus√Ķes preferidos de Pizzolatto s√£o os autores de livros como Confessions of an Antinatalist (Jim Crawford), Nihil¬†unbound: enlightment and extinction (Ray Brassier), In the dust of this planet: horror of philosophy (Eugene Thacker), Better to have never been: the harm of coming into existence (David Benatar), Nietzsche e, √© claro, “muito Cioran”:

Eu sabia que, no meu próximo trabalho, eu teria um detetive que fosse (ou pensasse que fosse) um niilista. Eu já vinha lendo Cioran durante anos e considero ele um dos meus all-time favorites, e, estranhamente, um dos autores mais nutritivos [nourishing, que também implica o sentido de espiritualmente importante, gratificante, valioso]. Ninguém se compara a Cioran, talvez apenas Nietzsche, e muitas das suas filosofias são ecoadas por Ligotti. Mas Ligotti é muito mais perturbador do que Cioran, que na verdade é muito engraçado. Explorando essas filosofias, ninguém que eu li expressou tão poderosamente a ideia de humanidade como uma aberração quanto Cioran e Ligotti.

nic-pizzolatto_a300883_jpg_195x289_upscale_q90
Nic Pizzolatto

Mas ele, Nic Pizzolato, deixa claro que ele mesmo n√£o poderia ser menos niilista; talvez esteja familiarizado com¬†a observa√ß√£o de Ernst Junger, de que “o reproche¬†de niilismo¬†conta-se hoje entre os mais populares, e todos o dirigem a¬†bel-prazer contra o seu inimigo. √Č prov√°vel que todos tenham raz√£o” (√úber die¬†Linie).

Respondendo sobre as minhas vis√Ķes pessoais, eu n√£o poderia ser menos niilista, ainda que a minha filosofia pessoal seja,¬†√†s vezes,¬†tida como pessimista. Eu chamaria ela de realista, contudo. Talvez inoportunamente rom√Ęntica. Em todo caso, confrontar abertamente as ideias de artistas como Cioran e Ligotti, sem defesa, √© ser¬†transfixado por sua vis√£o do¬†indiz√≠vel, da aniquila√ß√£o no mais √≠ntimo dos n√≠veis.
E, se estamos falando de detetives ferrados, também, o que poderia ser pior do que a visão de mundo de Ligotti ou Cioran? Eles fazem os mais terríveis dos autores policiais parecerem diletantes.

“Writer Nic Pizzolatto on Thomas Ligotti and the Weird Secrets of True Detective”,¬†entrevista a The Wall Street Journal, 02/02/2014.

Voltando √† s√©rie, s√£o, com efeito, in√ļmeras, e mais ou menos evidentes,¬†as refer√™ncias feitas ‚Äď especialmente pelo personagem de Rustin¬†Cohle ‚Äď a toda uma gama¬†de motivos, tem√°ticas¬†e¬†quest√Ķes presentes na obra de Cioran, a come√ßar pela afirma√ß√£o, de Rustin Cohle, de que “este √© um mundo em que nada se resolve” (refer√™ncia √≥bvia a um dos¬†aforismos de Nos cumes do desespero). R√≥tulos e etiquetas √† parte (sempre limitadores, sempre empobrecedores), o “niilismo antinatalista” de Cohle n√£o √© outra coisa que a express√£o dram√°tica¬†(c√™nica) de um pensamento incans√°vel, catastroficamente l√ļcido, que n√£o descansa enquanto n√£o descobre, conhece, compreende, tudo o que √©¬†mais preciso descobrir, conhecer e compreender ‚Äď se √© que isto n√£o acaba¬†sendo, afinal de contas, que n√£o h√° nada, substancialmente falando, para ser descoberto, conhecido, compreendido. Tudo √© acaso, sorte ou azar, se √© que n√£o parece pairar, suspendida, sobre a hist√≥ria da humanidade, uma fatalidade terr√≠vel, uma necessidade negativa, um fatum abomin√°vel. Pizzolatto, como Cioran e Ligotti, parece profundamente sens√≠vel, intelectual e espiritualmente falando, √†quele que √©¬†originalmente um problema teol√≥gico (no quadro da tradi√ß√£o crist√£, esta por sua vez de ascend√™ncia judaica),¬†e que ser√° herdado, modernamente, de forma secularizada e naturalizante, pela Filosofia da¬†√Čtica¬†(fundamentalmente, um problema filos√≥fico que postula um v√≠nculo indissol√ļvel entre √Čtica e Metaf√≠sica, Psicologia e Teologia): o problema do mal¬†e¬†da maldade, do sofrimento f√≠sico (males naturais) e psicol√≥gico (males morais) dos quais somos, indistintamente, v√≠timas (e, algumas, causa eficiente do segundo tipo, segundo a moderna distin√ß√£o entre males morais e naturais, estes √ļltimos mal merecendo o nome de “males”).¬†A nega√ß√£o, a recusa, a revolta,¬†√†s vezes a ren√ļncia:¬†instrumentos da lucidez da desilus√£o,¬†desse “exerc√≠cio de desfacina√ß√£o” em que consiste¬†o ceticismo, segundo Cioran. O niilismo, enquanto l√≥gica da cat√°strofe inscrita desde os prim√≥rdios da¬†antropog√™nese, inerente √†¬†dura√ß√£o hist√≥rica desse animal “adoecido”¬†de consci√™ncia, “sobrecarregado de vig√≠lias em meio √† sesta dos seres”, “exemplo de anti-natureza” ¬†e “tr√Ęnsfuga do ser” (Cioran); ou,¬†dando voz a Rustin Cohle: I think human consciousness is a tragic misstep in evolution. We became too self-aware. Nature created an aspect of nature separate from itself. [Eu penso que a consci√™ncia humana √© um tr√°gico¬†passo em falso na evolu√ß√£o. N√≥s nos tornamos conscientes demais de n√≥s mesmos. A natureza criou um aspecto da natureza separado dela mesma.]

695b83144a145f8883c638d5f0689cec

O antinatalismo de Cohle √© uma √©tica negativa radical, uma posi√ß√£o filos√≥fica aparentemente absurda face ao absurdo e ao mal inerradic√°vel da experi√™ncia humana na hist√≥ria.¬†Uma postura intelectual e espiritual que se pretende l√ļcida,¬†antes que niilista ou pessimista, pois se recusa a¬†assentir com o esc√Ęndalo de uma realidade¬†humana manchada¬†de mal, atravessada de injusti√ßa, tortura e sofrimento inocente (crian√ßas, mulheres, idosos, animais indefesos, minorias, grupos e indiv√≠duos vulner√°veis) ‚Äď a divisa cioraniana da “felicidade do malvado” (Aveux et anath√®mes), uma¬†constante¬†neste mundo. E Cohle: World needs bad men to keep the other bad men from the door¬†[O mundo precisa de homens maus, para manterem os outros homens maus longe da porta].¬†“Niilismo” como ant√≠doto contra a amea√ßa niilista, “supera√ß√£o” poss√≠vel; niilismo como ph√°rmakon, veneno e¬†rem√©dio, mal e bem, como determina o car√°ter infinitesimalmente¬†ambivalente do referido conceito (ademais,¬†epistemologicamente inst√°vel, impreciso, plural),¬†em conformidade com a “natureza” (na verdade, anti-natureza) profundamente paradoxal (e apor√©tico) do ser humano que a ele est√° destinado¬†em sua aventura hist√≥rica: o fato de que ele n√£o tem¬†nenhuma natureza fixa, determinada (de onde o seu car√°ter antropologicamente enfermo, disfuncional), a conting√™ncia sendo a sua necessidade ‚Äď de onde a liberdade radical √† qual, segundo Sartre, estamos todos condenados. Enfim, o¬†antinatalismo √©¬†uma forma mentis¬†nem um pouco¬†estranha, ali√°s, a muitos dos antigos Gn√≥sticos que tanto interessavam a Cioran, de onde o seu livro de 1969, Le mauvais d√©miurge [O mau¬†demiurgo].¬†De fato, ela encontra-se por toda a parte ao longo da¬†obra de Cioran, como em Brevi√°rio de decomposi√ß√£o, Hist√≥ria e utopia e no pr√≥prio Le mauvais d√©miurge:

Aquele que, havendo gasto seus apetites, aproxima-se de uma forma limite de¬†desapego, j√° n√£o quer perpetuar-se; detesta sobreviver em outro, ao qual de resto¬†n√£o teria mais nada a transmitir; a esp√©cie o apavora; √© um monstro e os monstros¬†n√£o engendram. O ‚Äúamor‚ÄĚ o cativa ainda: aberra√ß√£o entre seus pensamentos. Busca¬†um pretexto para retomar a condi√ß√£o comum; mas o filho lhe parece inconceb√≠vel,¬†como a fam√≠lia, a hereditariedade, as leis da natureza. Sem profiss√£o nem¬†progenitura, cumpre ‚Äď √ļltima hip√≥stase ‚Äď seu pr√≥prio acabamento. Mas por afastado¬†que esteja da fecundidade, um monstro mais audacioso o supera: o santo, exemplar¬†ao mesmo tempo fascinante e repulsivo, em rela√ß√£o ao qual sempre se est√° a meio¬†caminho e em uma posi√ß√£o falsa; a sua, pelo menos, √© clara: j√° n√£o h√° jogo poss√≠vel,¬†nem diletantismo.¬†(“A negativa de procriar”, Brevi√°rio de decomposi√ß√£o)

*

Antigamente, quando o espa√ßo se encontrava menos abarrotado, menos¬†infestado de homens, umas seitas, indubitavelmente inspiradas por uma for√ßa¬†ben√©fica, preconizavam e praticavam a castra√ß√£o; por um paradoxo infernal, elas¬†desapareceram no momento preciso em que sua doutrina teria sido mais oportuna e¬†mais salutar do que nunca. Man√≠acos da procria√ß√£o, b√≠pedes de rostos¬†desvalorizados, perdemos todo atrativo uns para os outros, e somente sobre uma¬†terra semideserta, povoada no m√°ximo de alguns milhares de habitantes, nossas¬†fisionomias poderiam reencontrar seu antigo prest√≠gio. A multiplica√ß√£o de nossos¬†semelhantes beira a imund√≠cie; o dever de am√°-los beira o absurdo. Isto n√£o impede¬†que todos os nossos pensamentos estejam contaminados pela presen√ßa do humano,¬†que exalem o cheiro do humano e que n√£o consigam desembara√ßar-se dele. Que¬†verdade podem atingir, a qual revela√ß√£o podem elevar-se, se esta pestil√™ncia asfixia¬†o esp√≠rito e o torna impr√≥prio para pensar em outra coisa que n√£o seja esse animal¬†pernicioso e f√©tido de cujas emana√ß√Ķes est√° contaminado? Aquele que √© fraco¬†demais para declarar guerra ao homem nunca deveria esquecer, em seus momentos¬†de fervor, de rezar pela vinda de um segundo dil√ļvio, mais radical que o primeiro. (“Odisseia do rancor”, Hist√≥ria e utopia)

*

A carne se estende cada vez mais como uma gangrena na superf√≠cie do globo.¬†N√£o sabe impor-se limites, continua a fazer estrago apesar dos seus revezes, toma¬†as suas derrotas por conquistas, n√£o aprende nunca. Ela¬†pertence antes de tudo ao reino do criador, e foi bem nela que ele projetou os seus instintos malfeitores. Normalmente, ela deveria aterrar menos aqueles que a contemplam do que aqueles que a fazem durar e asseguram a sua progress√£o. Mas n√£o acontece assim, pois eles n√£o sabem de que aberra√ß√£o s√£o c√ļmplices. As mulheres gr√°vidas um dia ser√£o lapidadas, o instinto materno proscrito, a¬†esterilidade aclamada.¬†√Č com raz√£o que¬†nas seitas em que a fecundidade era tida sob suspeita, entre os bogomilos e os c√°taros, condenavam-se o¬†matrim√īnio, institui√ß√£o abomin√°vel que todas as sociedades protegem desde sempre, para o grande desespero daqueles que n√£o cedem √† vertigem comum. (Le¬†mauvais d√©miurge)

Quem √©, afinal, Rust Cohle?¬†Deve-se confiar nele, fugir¬†dele?¬†Puxo a resposta a partir de¬†uma frase de Cioran a prop√≥sito do fil√≥sofo e poeta italiano Guido Ceronetti: “N√£o se deve nunca fugir de um misantropo.” (Exerc√≠cios de admira√ß√£o). O paradoxo do niilismo √© que ele √© a “forma-limite da benevol√™ncia”, nas palavras do jovem Cioran (Amurgul g√Ęndurilor), no esp√≠rito¬†desta estranha¬†‚Äď e paradoxal ‚Äď sabedoria da inc√ļria: “Todas as morais¬†representam um perigo para a bondade; s√≥ a inc√ļria a salva. Por haver escolhido a¬†fleuma de imbecil e a apatia do anjo, exclu√≠-me dos atos e, como a bondade √©¬†incompat√≠vel com a vida, apodreci-me para ser bom.” (Brevi√°rio de decomposi√ß√£o). Rust √© um homem desiludido, mas que nem por isso deixa de lutar por aquilo que considera justo, como o “artista da cria√ß√£o sem futuro” de que fala Camus em O mito de S√≠sifo, e o faz com uma obstina√ß√£o que o leva a ser suspenso da pol√≠cia, tomando a iniciativa de demitir-se em seguida, para continuar investigando por conta pr√≥pria. Ele convence Martin, com muito esfor√ßo, de que¬†havia ainda muito a ser investigado, at√© finalmente descobrir a propor√ß√£o e a extens√£o do mal que estava¬†por detr√°s do¬†assassinato ritual da jovem encontrada nua na floresta no¬†in√≠cio da primeira temporada.

A quest√£o do mal n√£o poderia deixar de remeter ao tema da religi√£o ‚Äď no caso espec√≠fico do nosso universo¬†ocidental, a religi√£o crist√£ (e, cada vez mais, tamb√©m, o isl√£)¬†‚Äď e, neste sentido, √† sua¬†presen√ßa na economia da exist√™ncia humana, a despeito de toda modernidade e de todo secularismo¬†‚Äď √© como se o ser¬†humano se descobrisse mais religioso, de uma maneira invertida, “profana”, quanto mais buscasse suprimir a religi√£o e os seus objetos de culto da¬†efetividade da exist√™ncia humana comum.¬†“Ao divinizar a hist√≥ria para desacreditar Deus, o marxismo s√≥ conseguiu tornar¬†Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a¬†necessidade de absoluto, que sobreviver√° √† destrui√ß√£o dos templos, e mesmo ao¬†desaparecimento da religi√£o sobre a Terra.” (Hist√≥ria e utopia) O tema do fanatismo, religioso ou pol√≠tico,¬†ao qual Cioran dedicaria as p√°ginas iniciais do Brevi√°rio de decomposi√ß√£o (“Genealogia do fanatismo”), tamb√©m ser√° problematizado em True Detective, conforme as pistas obtidas¬†atrav√©s da investiga√ß√£o de um¬†homic√≠dio relacionado a rituais sat√Ęnicos (o sacrif√≠cio de uma jovem) levam os detetives a suspeitar de membros de igrejas locais.¬†Enquanto acompanham um culto religioso neopentecostal,¬†Rust e Marty discutem¬†o sentido da religi√£o e sua necessidade no que se refere a¬†atender, nos mais variados n√≠veis da exist√™ncia, a necessidade metaf√≠sica que seria, segundo Cioran e Schopenhauer, inerente ao ser humano. H√° certa polifonia em jogo;¬†Pizzolatto distribui a ambos os interlocutores argumentos igualmente fortes, ainda que¬†antit√©ticos.

364d992d88737f0878ced831e4c35f9e
“Este mundo √© um v√©u. E o rosto que voc√™ veste n√£o √© seu.”

Rust: Qual você acha que é o QI médio deste grupo, hein?
Martin: Você consegue ver o Texas daí de cima do seu pedestal? O que você sabe sobre estas pessoas?
Rust: Apenas observação e dedução. Vejo uma propensão à obesidade. Pobreza. Um fraco por contos de fadas. Um pessoal colocando um punhado de moedas que eles têm dentro de uma cestinha de vime. Acho que não dá pra dizer que alguém aqui vai estar dividindo os átomos, Marty.
Martin: Tá vendo só? Essa porra dessa sua atitude. Nem todo mundo quer sentar sozinho em um apartamento vazio batendo uma com manuais de homicídio. Algumas pessoas gostam de comunidade. Um bem comum.
Rust: √Č, bem, se o bem comum precisa inventar contos de fadas, ent√£o n√£o √© bom pra ningu√©m.
Martin: Quer dizer, você consegue imaginar se as pessoas não acreditassem, que coisas elas fariam?
Rust: As mesmas coisas que fazem agora. Só que descaradamente.
Martin: Besteira. Seria um show de assassinato e devassidão, e você sabe disso.
Rust:¬†Se a √ļnica coisa que mant√©m uma pessoa decente √© a esperan√ßa de uma recompensa divina, ent√£o, amigo, essa pessoa √© uma merda; e eu gostaria de exp√ī-las o m√°ximo poss√≠vel.

True Detective, temporada 01, episódio 03 (assista aqui)

A Cioran tamb√©m n√£o escapou o mecanismo psicol√≥gico da recompensa, ou da compensa√ß√£o provis√≥ria na aus√™ncia atual da recompensa (por exemplo, a salva√ß√£o ap√≥s a morte), modus operandi do animal metaf√≠sico, tanto em mat√©ria de religi√£o como de qualquer outra coisa, que √© sociologicamente¬†descrito por Rodney Stark de modo l√≥gico-dedutivo: “Os seres humanos buscam ¬†sempre o que percebem ser recompensas e evitam o que percebem ser custos.”; ademais, segundo Stark “independentemente de poder, pessoas e grupos tender√£o a aceitar compensadores religiosos, quando recompensas desejadas n√£o existem.” (Uma teoria da religi√£o) ¬†N√£o √© o que pensa, e o que comprova, virtualmente, por sua exist√™ncia mesma¬†(ainda que seja apenas um produto da fic√ß√£o), o Homem do subsolo de Dostoi√©vski. Ademais, nada √© mais contr√°rio √† lucidez e, em¬†virtude desta, √† t√£o almejada ‚Äď e t√£o dif√≠cil¬†‚Ästliberta√ß√£o (deliverance em ingl√™s, d√©livrance em franc√™s, Erl√∂sung em alem√£o),¬†nada mais claramente indicativo de que se vive mergulhado¬†na ilus√£o, no conforto de “verdades” alegres, do que a necessidade, a paix√£o da recompensa:

Contar seja com o que for, aqui ou alhures, é dar prova de que ainda se arrastam cadeias. O réprobo aspira ao paraíso; e esta aspiração o rebaixa, compromete-o. Ser livre é desembaraçar-se para sempre da ideia de recompensa, é não esperar nada dos homens nem dos deuses, é renunciar não somente a este mundo e a todos os mundos mas à própria salvação, é romper inclusive com a sua ideia, esta cadeia entre as cadeias.

Cioran, Le mauvais démiurge

Em suma, True Detective √© uma li√ß√£o de humanidade¬†e espiritualidade em tudo o que estas palavras possuem de mais verdadeiro,¬†se por verdadeiro¬†tomarmos a defini√ß√£o de Cioran: “aquilo que n√£o permite viver”, que “n√£o condescende em ser nossos c√ļmplices” (√Čcart√©lement); tratam-se, pois, das “verdades negativas”, “irrespir√°veis”, as √ļnicas que merecem o nome de verdades.¬†Podemos at√© imaginar¬†o detetive¬†Cohle, em sua perp√©tua¬†luta contra o mal no mundo e em si mesmo, dizendo: “J√° que todo o que concebeu e se realizou desde Ad√£o √© ou suspeito ou perigoso ou in√ļtil, que fazer? Dessolidarizar-se da esp√©cie? Seria esquecer que nunca se¬†√© t√£o humano quando se lamenta s√™-lo.” (Cioran, La chute dans le temps) Trata-se de retratar¬†a condi√ß√£o¬†humana nua e crua, sem condescend√™ncia¬†nem¬†ilus√£o, em toda a sua mis√©ria e em toda a sua grandeza, em toda a sua riqueza e em toda a sua¬†impureza;¬†trata-se, sobretudo, de retratar a condi√ß√£o humana exposta¬†√† fal√™ncia, ao naufr√°gio,¬†√† queda, ao sofrimento e¬†√† amea√ßa de aniquilamento completo,¬†no mais √≠ntimo dos n√≠veis (Pizzolatto). Como assinalou¬†Cioran, √© por nossas imperfei√ß√Ķes que nos atrapalhamos, mas tamb√©m √© por elas que nos tornamos interessantes, humanos em suma, pois apenas um ser capaz de errar pode ser admirado por acertar.¬†O homem, “ex-animal, mas ainda animal” (√Čcart√®lement), parece defrontar-se¬†sempre, inevitavelmente,¬†com outro ad√°gio latino, t√£o emblem√°tico da nossa condi√ß√£o “humana, demasiado humana”: quod me¬†nutrit me destruit.¬†Termino com uma observa√ß√£o feita por Cioran durante sua entrevista com Sylvie Jaudeau, e que exprime bem uma li√ß√£o de sabedoria que True Detective tamb√©m parece oferecer:

A lucidez extrema √© o √ļltimo grau da consci√™ncia e d√° ao ser a sensa√ß√£o de ter esgotado o universo, de ter sobrevivido a ele. Quem n√£o¬†passou por essa etapa ignora uma variedade especial de decep√ß√£o, portanto o conhecimento. Os entusiastas come√ßam a tornar-se interessante quando¬†confrontados ao fracasso e que a¬†ilus√£o os torna¬†humanos. O bem-sucedido em tudo √© necessariamente superficial. O fracasso √© uma vers√£o moderna do nada. Ao longo da minha¬†vida, estive fascinado pelo fracasso. Um m√≠nimo de desequil√≠brio¬†imp√Ķe-se. Ao ser perfeitamente¬†sadio f√≠sica e espiritualmente falta um saber essencial.. Uma sa√ļde perfeita √© a-espiritual.

Cioran, Entrevistas com Sylvie Jaudeau

An√ļncios