A poética da heresia de Héctor Escobar Gutiérrez (1940-2014)

“Tenho um pacto com o Diabo” – Héctor Escobar Gutiérrez

“Que auxílio pode oferecer a religião a
um crente decepcionado por Deus e pelo Diabo?” – Cioran

(n.t.) Revista Literária em Tradução, Número 12°, 1º vol., jun. 2016. ISSN: 2177-5141 [Pdf]
Agradecimentos a Gleiton Lentz

O TEXTO: A Poética da heresia compreende uma seleção de sonetos extraídos de três livros publicados por Héctor Escobar Gutiérrez. Para o poeta colombiano, a poesia não é apenas canto, mas investigação e ascese, combinando magia e ciência para fundir naturezas dissímeis e antagônicas. Seu propósito: produzir espanto – virtude taumatúrgica – e atualizar potências mágico-alquímicas – virtude teúrgica – como um meio de elevação espiritual. “Sacrificar um mundo para polir um verso”, é uma proposição que se aplica bem ao trabalho poético de Héctor.

Textos traduzidos: Escobar Gutiérrez, Héctor. El libro de los cuatro elementos. Pereira: Editorial Gráficas Olímpica, 1991; El punto y la esfera. Pereira: Talleres de Litografia Moderna Digital, 2004; Estetas y heresiarcas. Pereira: UNE Ediciones, 1987.

O AUTOR: Tantrista, hermetista, alquimista, demonologista, Héctor Escobar Gutiérrez (19412014) é um poeta colombiano natural de Pereira. É considerado “obscuro” por seus leitores devido ao caráter místico-esotérico de sua poesia. Foi, em um país fortemente católico, uma suma autoridade em matéria de satanismo, ocultismo e esoterismos (gaya scienza, tarô, demonologia, numerologia, tradição cabalística, alquimia, mitologias diversas). No fundo do seu satanismo – de ascendência baudelairiana e byroniana uma atitude existencial iconoclasta, radicalmente filantrópica e antropocêntrico-humanista, uma sensibilidade poético-melancólica e pessimista face ao mistério da existência, e a busca – teúrgica, de viés luciferino – por atualizar os poderes arcanos pelos quais o iniciado pretende se libertar das cadeias deste mundo. Para além ou aquém de todo (neo)satanismo, o que subsiste de essencial a respeito da obra de Héctor é a intuição heterodoxa de um universo governado por forças do bem e do mal em pé de igualdade, num perpétuo embate de que se originam todas as coisas.

O TRADUTOR: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes é natural de Salvador, Bahia. Para a (n.t.) traduziu ensaios de Emil Cioran.

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“A possibilidade de renovar-se através da heresia
confere ao crente uma nítida superioridade sobre o ateu.”
Cioran, Silogismos da amargura (1952)

Pode-se constatar muito em comum entre o filósofo franco-romeno Emil Cioran (1911-1995) e o poeta colombiano Héctor Escobar Gutiérrez (1940-2014), e ao mesmo tempo muitas diferenças. Afinidades: o espírito iconoclasta e transgressor, o gosto da heresia, a paixão dos abismos e dos cumes, a lucidez luciferina (com o perdão do pleonasmo!), a ironia e o humor corrosivo, a sensibilidade mística, a consciência atormentada pelo mal de existir, o vigor de um verbo pulsante levado ao extremo, às fronteiras entre a vida e a morte, entre o ser e o não-ser, entre a luz e as trevas. Divergências: enquanto Cioran buscou exercitar-se na dúvida cética e na arte da “frivolidade” (princípio ético-estético pautado pela superficialidade diletante), negando toda crença definida e evitando a todo custo aprofundar-se, especializar-se no que quer que fosse, Héctor se fez conhecer, entre aqueles que o frequentaram (e frequentam), por uma profissão de fé satanista incrementada pelas mais diversas doutrinas esotéricas e ocultistas, por ele levadas a sério e minuciosamente estudadas/praticadas. Mas, excentricidades, adesões e escolhas pessoais à parte, não se poderia deixar de apreciar a poesia estrondosa e sublime deste poeta maldito, sua criação poética que vai muito além de toda doutrina determinada e alcança uma universalidade acessível a todo espírito que é sensível à arte profundamente viva das palavras.

Cioran não conheceu esse poeta terrível e delicioso cuja obra perturba ao mesmo tempo em que encanta. Podemos imaginar que impressão se teria gravado no espírito do filósofo romeno a propósito do autoproclamado “Papa Negro”. Héctor, por sua vez, conheceu a obra de Cioran nos anos 1980 graças à autora do ensaio que se segue: a filósofa Maria Liliana Herrera, catedrática do departamento de Filosofia daUniversidad Tecnológica de Pereira (UTP), na Colômbia, e gestora do Encuentro Internacional Emil Cioran, colóquio realizado anualmente na mesma cidade e que, em outubro deste ano (2014), chegou a sua sétima edição. Coincidências do destino: Héctor, leitor assíduo de Cioran, esteve presente na primeira edição do colóquio, do qual participou com uma homenagem poética ao autor romeno; faleceria sete anos depois, no sábado (18/10/2014) que coincidiria com um dos dias de realização do colóquio. Foi cremado no domingo seguinte, num tradicional cemitério de Pereira, com direito a um cortejo fúnebre satânico promovido por seus amigos e apreciadores. Deu muito o que falar na imprensa colombiana, como não poderia deixar de ser. Deixou uma viúva (Soley Salazar) e nenhum filho, como Cioran (que viveu toda sua vida na França em companhia de Simone Boué). Entre seus livros estão Antología inicial(1983); Testimonios malditos (1985); Cosmogonías (1985); Estetas y heresiarcas (1987);El libro de los cuatro elementos (1991), El punto y la esfera (2004), entre outros.

“Não tenho necessidade de arrepender-me pois sempre fiz tudo o que fiz com consciência, e o arrependimento surge quando existe uma contradição entre a forma de ser e a maneira de pensar”, declarou Héctor em uma de suas entrevistas. Seria difícil que Cioran proferisse semelhante frase, ele que afirmava a contradição como indissociável de seu ser. Para Cioran, consciência é sinônimo de fatalidade (Bewusstsein als Verhängnis é o título de um livro de Alfred Seidel que ele muito apreciava), uma enfermidade transcendental em meio à letargia imanente do ser. “A inconsciência”, por outro lado, “é o segredo, o ‘princípio de vida’ da vida… é o único recurso contra o eu, contra o mal de ser indivíduo, contra o efeito debilitante do estado de consciência, estado tão terrível, tão penoso, que deveria ser reservado somente aos atletas. (De l’inconvenient d’être né). Um espírito dilacerado por tendências contraditórias, pela fatalidade de um desacordo interior jamais remediado, pela inaptidão a alcançar uma síntese dos elementos dispersos que constituíam sua existência. Cioran: “Por que não poderia me comparar aos maiores santos? Por acaso gastei menos loucura para salvaguardar minhas contradições do que gastaram eles para superar as suas?” (Silogismos da amargura). Ademais, afirmaria numa de suas entrevistas, “a contradição faz parte de minha natureza e, no fundo, da de todo mundo.” (Entretiens) Portador de uma consciência perpetuamente corroída pela Dúvida, mas ao mesmo tempo dotado de uma paixão orgânica pelo Absoluto (que ele chegou a buscar inclusive em suas formas mais tradicionais, dir-se-ia ortodoxas: Deus, a santidade…), Cioran nunca pôde encontrar em Satã o sentido, o absoluto que Héctor, por sua vez, afirmou ter encontrado. Apesar dessas diferenças, sobressaem-se afinidades eletivas essenciais entre ambos: a escolha por uma vida à margem, por uma liberdade radical e intransigente que bordeia o vazio e aponta para o estatuto do monstro, do réprobo excluído da Humanidade; a recusa de toda celebridade (humilhação implicada no reconhecimento público e no fracasso em que consiste “ser compreendido”); enfim, toda uma vida dedicada à escrita, da qual aquela não se distingue, uma criação artística (poética para um, aforístico-ensaística para o outro) que é, afinal de contas, sua razão comum de ser (e de não ser). Ninguém melhor para apresentar o herege Héctor Escobar Gutiérrez, e suas relações com Cioran, do que Maria Liliana Herrera, que o conheceu pessoalmente. Boa leitura!

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

 

Fonte: Revista (n.t.) nº 12 [Pdf]

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