“Cioran e os caminhos do taoísmo”, por Victoria Monteiro

Originalmente publicado em Colunas Tortas

Embora a opção por seguir uma doutrina oriental seja apenas mais uma face de nossa avidez pelo absoluto, Cioran vê, no taoísmo, o ideal de sabedoria e libertação dos sofrimentos que decorrem da lucidez, sem contudo aderir a ele. O autor reconhece: trata-se de um ideal inatingível, já que é contrário à nossa natureza.

Para o pensador, há um tipo de sofrimento insolúvel que tem início com a lucidez, sendo esta entendida como a consciência da consciência, o reconhecimento da farsa de nossa própria subjetividade. Reconhecemos as ilusões que se escondem por trás dos falsos limites de nosso eu e, ainda assim, seguimos executando atividades para reafirmá-lo.

“Todas as verdades estão contra nós. Mas continuamos vivendo porque não as aceitamos em si mesmas, porque nos recusamos a tirar as consequências. Onde existe alguém que tenha traduzido – em sua conduta – uma só conclusão do ensino da astronomia, da biologia, e que tenha decidido não levantar-se mais da cama por revolta ou por humildade face às distâncias siderais ou aos fenômenos naturais? (…) E quem foi bastante audaz para não fazer nada, já que todo ato é ridículo no infinito? As ciências provam o nosso nada. Mas quem tirou disto a última lição? Quem tornou-se herói da preguiça total?” (Breviário de decomposição)

O taoísmo prevê a libertação deste sofrimento por meio “do abandono, da indiferença, da soberania da ausência”, o que exige, em grande medida, ignorar o próprio “eu”, seus atributos e vontades. Para o autor, este é o que mais se aproxima de um ideal libertador, porém seu desprezo pela ação, sua valorização do silêncio e da contemplação passiva são impraticáveis a nível último, pois contradizem a vontade que nos é própria de nos inserirmos na história e que nos leva a agir – trata-se de nossa natureza.

“Que o homem nada ame, e será invulnerável” (Tchuang-tsé). Máxima tão profunda quanto inoperante. Como atingir o apogeu da indiferença quando até nossa apatia é tensão, conflito, agressividade? (A tentação de existir)

Não podemos aderir ao Tao integralmente porque queremos nos inserir no tempo, e seus caminhos se dispõem na direção contrária a isso. O mero fato de estarmos vivos e de sermos proprietários, ainda que em pequena escala, é evidência disso. Neste sentido, surge a figura do mendigo como aquele mais próximo chegou deste cinismo desejado, já que ele verdadeiramente renuncia às coisas, “encarna sua doutrina”. Também a figura do louco como aquele que, de certa forma, refugiou-se de fato na inconsciência,

“renunciou à nossa razão como o mendigo aos nossos bens. Um e outro descobriram o caminho que leva para lá do sofrimento, um e outro resolveram todos os nossos problemas; por isso permanecem como modelos que não podemos seguir, salvadores sem adeptos” (A tentação de existir)

Nossas angústias advêm do mito que se criou, a partir da modernidade, em torno do eu, da necessidade de que este eu aja, e da impossibilidade da inação. É impossível que o sofrimento cesse mesmo na vida contemplativa porque este absoluto, perseguido no tempo, é restrito à eternidade, e portanto inatingível. Quando agimos, estamos nos situando no devir, no que é, para Cioran, nosso próprio mal. Ainda assim,

“o grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade de iniciativas de que nos libertamos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objeto todo objeto”  (A tentação de existir)

Adicionalmente, não nos sendo suficiente a estagnação pressuposta na vida contemplativa, é muitas vezes no extremo oposto do que prega o Tao que nos afirmamos no mundo, que validamos nossa existência. Frequentemente é por meio do próprio sofrimento  que nos sentimos vivos, o que Cioran identifica como sendo, de alguma forma, uma herança do cristianismo. Além disso, o Tao também é impraticável porque, pregando a serenidade, ignora nossa disposição natural ao sangue; à calma, preferimos a revolta.

Se nossa libertação está em abrir mão da consciência e da ação, e essas nos são intrínsecas, a condição humana está presa em um tipo de impasse. Cioran adverte:

“A libertação, se realmente a quisermos, deverá proceder de nós: não devemos procura-la alhures, num sistema já feito ou numa qualquer doutrina oriental […] Não acuso apenas a teosofia e os seus adeptos, mas todos o que se valem de verdades incompatíveis com a sua natureza”  (A tentação de existir)

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