Entrevista: Fernando Klabin e a tradução do romeno

EMCioranbr – Você é um brasileiro fluente em romeno, tradutor juramentado e tudo mais. Isso não é muito comum. Permita-me perguntar: como “chegou” à Romênia, à língua romena. Como se deu esse encontro?

FK – Na verdade, mais correto seria dizer que a Romênia “chegou” até mim, abraçando-me numa espécie de acidente de percurso. Devido a minhas próprias raízes, sempre tive uma curiosidade acentuada pelo Leste Europeu, mas jamais imaginei que um dia despencaria e, mais, permaneceria na Romênia – país que, até minha primeira visita em 1996, só conhecia através da minha coleção de selos. Em seguida, devido a um de certa forma misterioso “parentesco” difícil de explicar entre as mentalidades brasileira e romena, absorver a língua e adentrar na cultura local foi e tem sido um processo tão prazeroso quanto irreprimível.

EMCioranbr – Quanto a Cioran, especificamente, como surgiu a ideia de traduzir “Nos cumes do desespero”? Foi sua a iniciativa? Você tem algum trabalho voltado especificamente à obra de Cioran?

FK – Ainda em São Paulo, minha primeira leitura de Cioran – o “Breviário de Decomposição”, traduzido pelo filósofo José Thomaz Brum e publicado pela Rocco – impressionou-me profundamente. De modo que, tão logo me vi em sua terra natal, apressei-me em ler, no ano 2000, no original romeno, seu primeiro livro, “Nos cumes do desespero”. Meu interesse pelo filósofo aumentou e, à medida em que o conhecimento da língua me permitia, passei à leitura do resto de suas obras escritas em romeno, almejando um dia poder traduzi-las para o português, tendo em vista ademais que, no Brasil, só suas obras francesas têm sido promovidas. Foi há pouco tempo que encontrei na editora Hedra acolhida generosa para publicar “Nos cumes do desespero”, aonde quase literalmente chegamos durante uma difícílima negociação relacionada aos direitos de autor. Tenho muita vontade de traduzir as outras obras romenas de Cioran, embora não haja ainda um sinal concreto de qualquer editora interessada.

EMCioranbr – Paulo Bezerra, que traduziu Dostoievski, disse que o ofício do tradutor envolve muita inventividade, tanto quanto para criar. Você traduziu As seis doenças do espírito contemporâneo, do filósofo e amigo de Cioran, Constantin Noica. “Nos cumes…” parece um livro muito diferente, em forma e conteúdo, daquele de Noica. Como foi traduzir Cioran do romeno para o português? O estilo, o tom, o ritmo, tudo isso é difícil de ser preservado no nosso idioma?

FK – A tradução é sempre, mais ou menos, uma doce traição. E, desde o início, é necessário assumir uma determinada abordagem, que inevitavelmente vai sempre favorecer algo em detrimento de outra coisa. A minha abordagem, no caso de textos filosóficos, é a de procurar interferir o mínimo possível. Quero acreditar que as surpreendentes semelhanças entre o romeno e o português permitam, até certo ponto, essa transposição quase direta em certos trechos. Noica me parece mais apolíneo diante do dionisíaco Cioran, traduzi-los foram experiências muito diferentes entre si, mesmo porque meu domínio da língua e da cultura romenas se aprofundaram nos mais de 10 anos que separam ambas as traduções. Acredito que manter o fraseado e o estilo de Cioran quase que por meio de uma transposição, como se  um espelho brasileiro refletisse o livro romeno, favoreça a manutenção das idéias do autor, ajudando o leitor a apreendê-las – talvez mais cruas e rígidas, porém mais autênticas.

EMCioranbr – O que haveria de especificamente romeno, em termos de linguagem (estilo, construções semânticas, etc.), em “Nos Cumes…”, em contraste com a escritura francesa de Cioran?

FK – O francês é uma língua de elegância e sonoridade tais, que até as imprecações soam como um elogio. Ao meu ver, Cioran fez extremo bom uso da plasticidade da língua francesa, nela revestindo, com ainda mais charme e sedução, sua torrente de idéias. É necessário lembrar que justamente suas primeiras obras foram escritas em romeno e que, mesmo que Cioran continuasse filosofando em romeno, haveria um inevitável contraste entre sua escrita de juventude e sua escrita madura. Suas obras juvenis, de qualquer modo, chamam a atenção, para além dos temas incandescentemente abordados, pelo estilo distinto que a língua romena imprime ao discurso e pela identificação das idéias embrionárias que, mais tarde, Cioran revisitará e desenvolverá, com reconhecida maestria, favorecido pela dimensão artística e mesmo histriônica do idioma francês.

EMCioranbr: Por mais que o livro não permita adivinhar por si só, pelo seu teor introspectivo, “Nos cumes do desespero” é contemporâneo de um drama coletivo e político, a saber, a agonia de uma Romênia entre guerras lutando por sua independência. Mais ou menos na mesma época, o autor de “Nos Cumes…” publicaria um libelo político, Schimbarea la faţǎ a României (“Transfiguração da Romênia”), que se tornaria, para a posteridade, o registro inglório dos excessos e delírios totalitários de um jovem Cioran. É possível traçar paralelos entre Pe Culmile Disperǎrii e Schimbarea la faţǎ a României?

FK – Acredito que o próprio Cioran possa nos oferecer elementos para uma resposta. Num breve prefácio de 1990 à edição romena de “A Transfiguração da Romênia”, o autor diz ter escrito “estas divagações em 1935-36, aos 24 anos, com paixão e orgulho. De tudo o que publiquei em romeno e francês, este texto é talvez o mais apaixonado e ao mesmo tempo o que me é mais alheio. Não me reencontro nele, embora pareça-me evidente a presença da minha histeria de então. Julguei ser minha obrigação suprimir algumas páginas pretensiosas e estúpidas.” Num prefácio à edição francesa de “Nos cumes do desespero”, Cioran confessa ter escapado do suicídio ao escrever aquele livro durante suas noites insones. Pode-se dizer que, embora abordem temas diferentes, ambas as obras se valem do mesmo motor: aquela rebeldia, aquele excesso juvenis que, com o tempo, Cioran contemporiza na elegância da língua francesa e na lucidez de uma ironia impossivelmente ácida – onde a mera provocação transcende para acusar Deus e a humanidade de uma culpa da qual não conseguimos nos livrar.

EMCioranbr –  Uma anotação extraída dos Cahiers traz uma lembrança de vocábulos romenos que teriam guardado, para Cioran, depois de anos, um significado pessoal profundo. Diz ele: “Do meu país eu herdei o niilismo inato, seu traço fundamental, sua única originalidade. Zădărnicie, nimicnicie – essas palavras extraordinárias, não, essas não são palavras, são a realidade do nosso sangue, do meu sangue.” Cioran costuma se referir aos romenos como um povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, cético em relação ao destino… Poderia nos dizer o que significam zădărnicie e nimicnicie? Qual é, de fato, a relevância destes termos no imaginário coletivo romeno? De resto, em que medida essa representação que Cioran faz dos romenos não é uma idealização subjetiva e caricatural que revela mais sobre ele que sobre os romenos de modo geral?

FK – Quero acreditar que, ao evocar esses dois termos, de certo modo eruditos no idioma romeno, e que significam vaidade – no sentido do Eclesiastes – e  insignificância, Cioran faz menção a uma profunda sabedoria que o povo romeno desenvolveu ao longo dos séculos, e que o transformou, como bem diz, num povo fatalista, desenganado, conformista, passivo, cético em relação ao destino. Essa experiência secular foi a de ser invadido ou subjugado pelos mais variados povos. E a reação romena foi resumida num provérbio freqüentemente repetido: cabeça baixa, espada não corta.

EMCioranbr – Por fim, podemos esperar, no futuro, novas traduções de livros romenos de Cioran?

FK – A depender dos meus esforços, sem dúvida que sim. E espero que um mais aprofundado conhecimento de Cioran por parte do leitor brasileiro abra as portas na direção de outros autores romenos tão importantes quanto ele, mas que não gozaram da mesma projeção internacional, sobretudo por terem permanecido na Romênia.

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