“Irracionalismo e pessimismo em Schopenhauer e Cioran” (Ruy de Carvalho)

KALAGATOS Revista de Filosofia, vol. XI, n. 22, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2014.

Resumo: O artigo pretende demonstrar que a leitura das filosofias de de Schopenhauer e Cioran como expressões do pessimismo esquece ou atenua os interesses e compromissos mais profundos de ambos os pensadores: sua posição quanto à natureza e ao alcance da razão no conhecimento e na vida. Dialogando, sobretudo com Rosset, frequenta-se as obras dos autores em questão com outra disposição afetiva e mostra-se que, com isso, ambas aparecem sob um outro humor, que não propriamente o pessimismo: o irracionalismo e, quiçá, o cinismo.
Palavras-chave: Pessimismo, Irracionalismo, Vontade, Razão.

Abstract: The article aims to show that reading the philosophies of Schopenhauer and Cioran as pessimism expressions forget or attenuates the interests and deepest commitments of both thinkers: its position on the nature and scope of reason in knowledge and life. Dialogue, especially with Rosset, attends the works of the authors concerned with other affective disposition and it is shown that, with this, both appear in another mood, which hardly pessimism: irrationalism and perhaps cynicism.
Key-words: Pessimism, Irrationalism, Will, Reason.

Talvez não seja muito educado começar com uma provocação, mesmo quando esta procura apenas lembrar e resgatar um humor que julgamos fundamental para nos aproximarmos das obras de Schopenhauer e Cioran. A provocação: é preciso não ser muito inteligente para simpatizar com estes dois. É que eles não parecem ter tido como maior preocupação a consistência e a coerência sistemáticas. O que solicitam é muito mais uma certa disposição afetiva, uma convicção obscura na inexistência de duplos, uma cegueira que tomam como insuperável: uma certa ascese na lucidez. Pessimistas, sim; esta é a máscara pela qual costuma-se reconhecê-los e cumprimentá-los e, mais frequentemente, para deles desviar o olhar ou dispensá-los com ironia ou sarcasmo. Porém, o pessimismo, neles e deles, é uma máscara: importante, vital, mas não a única, uma vez que existem outras, por trás, ao lado, acima e mesmo dentro desta. A mais importante: o irracionalismo. Comecemos por Schopenhauer!

Nada mais comum do que um Schopenhauer pessimista: “pessimismo metafísico”, “clarividente”, “desencantado”, etc, são os nomes de guerra desta filosofia. O pessimismo é neste caso fruto e, se gera novos frutos, é apenas por transmissão das sementes que traz consigo. O nome pelo qual reconhecemos a árvore: irracionalismo. Defendo que, em Schopenhauer, mas isso igualmente vale para Cioran, o pessimismo é uma das máscaras ou, se preferirem, um dos reflexos do irracionalismo; seria antes o humor ou uma das imagens de Schopenhauer, mais que uma derivação necessária do seu irracionalismo.

A honestidade exige que eu diga que esta intuição, e mesmo que esta tese, é defendida por Clément Rosset, nos Escritos sobre Schopenhauer e em seu Schopenhauer, filósofo do absurdo. A hipótese: em Schopenhauer, o irracionalismo detém o primado; se Schopenhauer se julga um pessimista é porque extraiu esta posição, sem que isso fosse necessário, do irracionalismo manifesto na e pela significação de sua noção de Vontade. Assim, ele teria transitado do irracionalismo da Vontade para o pessimismo metafísico e, portanto, qualquer tentativa de interpretação de sua filosofia como fundamentalmente pessimista, movimentar-se-ia na contramão de sua intuição originária, em uma palavra, de seu pensamento único. O pessimismo, assim, seria antes o esgar medonho de um corpo cujo humor natural seria apenas o suor de uma Vontade cega em seu exercício irracionalista matinal… [Pdf]