“Aos foliões” (Caio Túlio Costa)

Publicado em Folha de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1995

Uma das experiências mais reveladoras é a tentativa de pensar contra si mesmo. No limite, você vai se entender um pouco melhor. Quem sabe sentir-se mais confortável dentro de sua pele —mesmo continuando sem se entender.

Existe um poderoso pensador, nascido em 1911, romeno, radicado em Paris, preocupado em não fazer outra coisa do que pensar contra si próprio, perseguir o bom gosto espiritual, destruir a vulgaridade intelectual, desvendar a substância da existência sob as aparências do cotidiano medíocre —um Nietzsche do século 20. Cheguei a ele via Susan Sontag (ensaísta norte-americana fora de moda) e me deparei então com o verdadeiro aristocrata, o do espírito.

Seu nome é Emil Michel Cioran. Ficou conhecido só por Cioran. Vive dos caraminguás que lhe rendem seus livros e habita um pequeno apartamento em Paris. Deixou a Romênia no final dos anos 30 criando problemas para o pai, padre ortodoxo, porque revelou-se sem fé e reclamou, em livro, que há dois mil anos Jesus de Nazaré desconta em nós “o fato de não ter morrido num sofá”.

Cioran vive, pode-se dizer, miseravelmente. Sempre recusou-se a trabalhar de forma “normal”. Aceitaria, o disse, apenas trabalho físico, como o de varrer ruas. De toda forma, ganhou a vida escrevendo. Seu livro de maior sucesso, “Silogismos da Amargura”, editado em 1952 na França, foi descoberto depois e chegou ao Brasil só em 1991, quando seu êxito entre os fatigados da vida estava garantido. Em 1987 ele havia resolvido parar de escrever e se autodecretou em estado de silêncio. Rompeu a mudez algumas vezes para dar entrevistas e uma delas saiu no Mais! semana passada.

Pois sugiro que se leia e releia esta entrevista. Pode ser lida sem contra-indicação nos momentos de tédio, angústia ou euforia. Ninguém, atento, vai passar reto por uma conversa na qual se sintetiza toda uma vida dedicada à negação da mediocridade, do lugar-comum, das aparências enganadoras. Vida cética, principalmente em relação às formas de governo: “O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos mais graves eles estão perdidos”. Ou então em afirmação feita há muito tempo, em livro: “A aspiração de ‘salvar’ o mundo é um fenômeno mórbido da juventude de um povo”.

Mas, nesta entrevista, Cioran despeja com generosidade detalhes de uma vivência destinada à negação reveladora. O que se segue, sem aspas, enfeixa conceitos seus. O único mundo verdadeiro é o primitivo, onde tudo é possível e nada está atualizado. O segredo da vida está no sono. A insônia mostra que o sono, um breque no cotidiano, é que torna a vida possível. Ela só é suportável por causa da descontinuidade. Se alguém passar a noite toda acordado, quando chega a manhã não começa nada. Dorme-se menos para descansar do que para esquecer e quem levanta de manhã para começar um novo dia tem a ilusão de que alguma coisa começa. A vida só é suportável porque não se vai às últimas consequências. Quem não tem consciência do tempo não se entedia. Suporta-se a vida somente quando inexiste a consciência de cada momento que passa. A experiência do tédio é a consciência de tempo exasperada.

O excesso de lucidez, como se vê, torna a vida insuportável e a experiência da vida é o fracasso. Cioran conclui a entrevista dizendo que, talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos as coisas às quais aderimos sem acreditar.

Num outro recado sutil, dado lá nos anos 50, Cioran atirava: “Ser moderno é remendar no Incurável”.

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