3 fragmentos de Natal, por Emil Cioran

[1962] Nöel. Il neige. Toute mon enfance afflue à la surface de ma conscience.
Hier, au marché, j’ai entendu ce dialogue : — Il fait froid. — Cela ne fait rien. Pourvu qu’il ne neige pas.
Décidément je ne suis pas d’ici.

Natal. Está nevando. Toda a minha infância emerge à superfície da minha consciência.
Ontem, no mercado, escutei este diálogo: — Está fazendo frio. — Não faz mal. Contanto que não neve.
Decididamente eu não sou daqui.

[1965] Noël. Le bonheur tel que je l’entends: marcher à la campagne et regarder sans plus, m’épuiser dans la pure perception.

Natal. A felicidade tal como eu a entendo: caminhar no campo e observar sem mais, esgotar-me na pura percepção.

[1969] Noël — Silence extraordinaire. Rien que ce fait devrait me rendre heureux au possible. Je connais mon bonheur mais n’ai pas la force de le vivre.
Il est vrai que je ne peux m’empêcher de penser au retour des gens.

Natal — Silêncio extraordinário. Nada além deste fato deveria me fazer feliz da vida. Eu conheço a minha felicidade, mas não tenho a força de vivê-la.
É verdade que não posso me impedir de pensar no retorno das pessoas.

CIORAN, Emil. Cahiers : 1957-1972. Paris : Gallimard, 1997.

Tradução: Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes