Buda buscou salvação na extinção do self; mas, se não há self, o que existe para ser salvo?

Nirvana é o fim do sofrimento; mas isso promete não mais do que nós todos alcançamos, usualmente sem muito esforço, no próprio curso da natureza. A morte traz a todos a paz que Buda prometeu após vidas de esforços.

Buda buscou a liberação da roda do renascimento. E. M. Cioran escreve:

A busca da salvação só se justifica se acreditarmos na transmigração, na indefinida peregrinação do self, e se aspirarmos a lhe dar um fim. Mas, para aqueles de nos que não acreditam nisso, o que existe para se dar um fim? Essa singular e infinitesimal duração? É, obviamente, breve demais para merecer o empenho de sairmos dela.

Por que outros animais não buscam libertar-se do sofrimento? Será porque ninguém lhes disse que têm que viver novamente? Ou será porque, sem precisar pensar nisso, sabem que não viverão? Cyril Connolly escreveu: “Imagine uma vaca ou um porco que rejeitassem o corpo em troca de um ‘nobre caminho óctuplo de auto-iluminação’. Pensaríamos que as bestas haviam feito um cálculo equivocado.”

O budismo é uma busca da mortalidade. Buda prometeu a seus seguidores a liberdade que vem com não ter que viver de novo. Para aqueles que se sabem mortais, o que Buda buscava está sempre à mão. Já que a salvação está assegurada, por que nos negarmos o prazer da vida?

GRAY, John. Cachorros de palha. Trad. de Maria Lucia de Oliveira. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007, p. 144-5.