“A bicicleta de Cioran” (José Tolentino Mendonça)

Texto publicado em A Revista Expresso | Edição 2276 | 10/06/16

Entre a serenidade e o sangue, é para o sangue que nos inclinamos. As nossas células viciaram-se na vertigem interminável

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Uma das coisas que me apaixona na biografia do filósofo E. M. Cioran (1911-1995) é o seu amor por viagens de bicicleta. Percorreu dessa maneira grande parte de França, Itália e de Espanha. Por Espanha nutria, ainda por cima, uma paixão declarada. Antes que o turismo moldasse as formas da paisagem e da convivência, ele passeou-se pelas estradas regionais, correu quilómetros e quilómetros junto a linhas de água ou perdeu-se no ziguezagueado das pequenas localidades, onde era recebido, em alvoroço, pela miudagem como se fosse um terrestre a aterrar em Marte. Ele tinha trocado a Roménia por Paris graças a uma bolsa do Instituto Francês de Bucareste para que escrevesse uma tese de doutoramento sobre Bergson, projeto que nunca chegou a concluir. O próprio Cioran conta que o seu orientador, que sabia que ele havia já percorrido a França em bicicleta, lhe terá dito que “fazer o tour da França em bicicleta é mais importante que concluir um doutoramento”… [+]