“Em teu nada espero encontrar teu tudo” (Jean Starobinski)

Nos confins do silêncio, no sopro mais fraco, a melancolia murmura: “Tudo está vazio! Tudo é vaidade!”. O mundo é inanimado, atacado de morte, aspirado pelo nada. O que foi possuído se perdeu. O que foi esperado não ocorreu. O espaço está despovoado. Por todo lado estende-se o deserto infecundo. E se um espírito paira acima dessa extensão, é o espírito da constatação desolada, a negra nuvem da esterilidade, de onde jamais brotará o raio de um fiat lux. Do que a consciência contivera, o que resta? Apenas algumas sombras. E talvez o vestígio dos limites que faziam da consciência um receptáculo, um continente — como a muralha extinta de uma cidade devastada. Mas para o melancólico a vastidão, nascida da devastação, é por sua vez abolida. E o vazio torna-se mais exíguo que a mais estreita masmorra.

Enquanto a melancolia enfrenta o vazio e não soçobra no estupor sem substância, uma memória agrava o vazio: a memória dos poderes perdidos, o fantasma do vigor que não tornará a nascer. A melancolia é uma viuvez: viduitas. Sem dúvida o cenotáfio é o emblema mais exato da melancolia: pois ali não subsiste nenhum vestígio material de um ser desaparecido que disputamos ao esquecimento. De um olhar, de uma órbita, dizemos que eles são vazios, porque contiveram a visão e a perderam. Para expressá-lo, Baudelaire — o especialista supremo em melancolia (que deliberadamente empregou em seus poemas todas as rimas francesas convocadas pela palavra “vazio”) — recorre aos termos marcados pelos prefixos da negação: irreparável, irremediável, irremissível… Em “O irreparável”, Baudelaire compara seu coração com um palco vazio: “Mas meu coração, que o êxtase jamais visita,/ É um teatro onde se espera/ Sempre, sempre em vão, o Ser de asas de gaze!”.

Mas se existe, como aqui, uma espera, ainda que frustrada, então a melancolia não ganhou por completo. Que um futuro, ainda que nele nada deva se produzir, permaneça aberto diante da consciência, e então o vazio muda de significado. Uma plenitude volta a ser possível. Na espera do que poderia preenchê-lo, o vazio não é mais um fim do mundo: não é mais o luto, e sim a acolhida virtual que marca a qualidade do vazio. Nos versos que acabamos de ler, Baudelaire reformula em termos modernizados, trivializados, uma antiquíssima imagem da teologia negativa, uma figura incansavelmente repetida pelos místicos: a alma deve ficar vacante para receber Deus. A ascese deve consumir, destruir, evacuar todos os pensamentos, todos os desejos da criatura. A alma deve atingir a perfeição do vazio, a fim de ser perfeitamente habitada pela luz e o amor divinos que descerão nela. Dizer que a alma é capaz de Deus — capax Dei — é dizer que deve abolir em si mesma tudo o que não está conforme a vontade de Deus. Os hereges dirão até mesmo: tudo o que não é essa presença atual de Deus, que faz de nós uma parcela de sua essência. Tão radical é o aniquilamento ascético, que foi possível confundi-lo com o aniquilamento melancólico, sem ver que entre esses dois aniquilamentos a diferença é a que separa o desespero da esperança. E os perigos também são grandes: pois a esperança de participar da divindade é um ato de orgulho, e nada garante que, no vazio perfeito onde se preparam as núpcias, o visitante não será o Demônio, a concupiscência carnal sob a aparência do Anjo, a trupe dos monstros… E talvez também o Eu, substituto de um Deus que não consente cruzar a distância que O separa da criatura. Com o Eu, a partir daí, a literatura e a arte, em sua visão moderna, entrarão também em cena.

Aí reside, parece-me, o grande interesse dos Ensaios de Montaigne. Eles nos propõem duas versões do vazio e do seu complemento. De uma versão à outra marca-se uma guinada da mais alta importância. A primeira versão é a da teologia, na versão fideísta exposta em “Apologia de Raymond Sebond”. O pirronismo cristão, declara Montaigne, “apresenta o homem nu e vazio, reconhecendo sua fraqueza natural, própria a receber do alto alguma força alheia, desprovida de ciência humana, e mais apta ainda a louvar em si a divina, aniquilando seu julgamento para dar mais espaço à fé […]. É uma carta branca preparada para o dedo de Deus tomar as formas que aí lhe aprouver gravar”. A outra versão do vazio é a que, a partir de uma melancolia ainda acessível aos remédios, se oferece a irrupção de “quimeras e monstros fantásticos” e, de modo menos desordenado, a entrada em cena do eu. Lembremo-nos da frase famosa: “E depois, encontrando-me inteiramente desprovido e vazio de qualquer outra matéria a tratar, apresentei eu mesmo a mim como argumento e como assunto”: Montaigne se desculpa, mas não se arrepende. Vai se expor assim à crítica dos autores religiosos: Pascal, seu principal adversário, será aquele que declarará que o “coração do homem é vazio e cheio de imundície”. Montaigne, a seu ver, só apelou para a vaidade, isto é, para o vazio das palavras, para o vazio do amor-próprio: apenas agravou o vazio do coração, ficou cativo da inanidade.

Se seguimos de perto, ao menos nas letras francesas, a temática do vazio, chama-nos atenção a ambiguidade persistente. O sentimento do vazio não para de ser interpretado como uma espera de Deus; mas se torna cada vez mais o momento preliminar em que se exibe o espaço que caberá à imaginação povoar. Foi por causa do vazio de seu coração que Rousseau, como nos diz em suas Confissões, se lançou no país das quimeras, inventou “sociedades de elite” e jogou sobre o papel as cartas que se tornaram A nova Heloísa. Mas a obra romanesca é suficiente para preencher o vazio? Numa carta a Malesherbes, Rousseau garante que sentia o nada de suas quimeras, e que essa ideia vinha “às vezes contristá-lo de repente”. Renasce então “um vazio inexplicável que nada poderia ter preenchido”. E o vazio se torna deleitável: “Mesmo isso era gozo, já que eu estava penetrado por um sentimento muito profundo e uma tristeza atraente que não gostaria de não ter”. O ímpeto recomeçará, mas rumo ao “infinito”, rumo ao “grande ser”. O sentimento, que não consegue encontrar o repouso no vazio, ultrapassa a região das ficções consoladoras para buscar, mais adiante, um êxtase que transmuda o vazio em Ser absoluto. A via de uma mística “selvagem” se substitui à ficção romanesca, não menos literariamente.

“O espírito tem horror ao vazio […], e é feito disso.” Esse é o paradoxo, do qual Paul Valéry tinha plena consciência. Ele não gostava da ideia de inspiração, que não deixa de ter relação com a noção de um vazio prévio. Mas o “poder do vazio” lhe parecia dever ser saudado: “Muitas vezes ouvi Mallarmé falar do poder da página em branco — poder gerador, sentamo-nos diante do vazio papel. E alguma coisa é escrita, é feita — etc.”. Portanto, há uma “criação pelo vazio”. Esclareçamos: “Há um certo vazio que demanda — apela —, esse vazio pode ser mais ou menos determinado — pode ser um certo ritmo — uma figura-contorno —, uma pergunta —, um estado —, um tempo diante de mim, uma ferramenta, uma página em branco, uma superfície mural, um terreno ou um local”. Só haverá forma e ornamento numa relação incansável com o vazio. Poderemos então prestar homenagem ao “vazio como sensação positiva”, como “negra e boa terra em que uma ideia vinda pode germinar e florescer o melhor possível”. É a parte de Mefistófeles.

No Segundo Fausto, de Goethe, antes de descer ao reino das Mães, Fausto se justifica perante Mefistófeles: “Não devia eu me misturar ao mundo? Aprender o vazio, ensinar o vazio? — Razoavelmente, eu dizia o que havia observado; a contradição ressoava duas vezes mais ruidosamente”. A experiência foi decepcionante. Que fazer? Aprofundar o vazio. Fausto declara ao príncipe da negação: “Em teu nada, espero encontrar o Tudo”. Cioran, um moralista, faz eco a isso, não porque se lembra de Goethe ou de Valéry, mas porque pensa, em mais de uma ocasião, de acordo com as mesmas categorias: “Achar que falta fundamento a tudo e não acabar com isso, essa inconsequência não é uma inconsequência: levada ao extremo, a percepção do vazio coincide com a percepção do tudo, com a entrada no tudo”.

Estranha virtude do vazio! Falaram dele abundantemente. Não pude evitar lembrar-me disso. O excesso da citação é sua figuração invertida. Em rigorosa filosofia, o vazio é um conceito perigoso. Ele provoca, com seu contrário, uma oscilação interminável. Lembremo-nos de que esse balanço já está na raiz verbal vacare: é a um só tempo “estar vazio” e ter o tempo de realizar uma determinada ação. Nos excessos de nossa imaginação, dependendo se utilizamos a via da negação ou a da afirmação, fizemos de Deus ao mesmo tempo, ou alternadamente, o grande Vazio e o grande Operário.

STAROBINSKI, Jean. A tinta da melancolia: uma história cultural da tristeza. Trad. de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 429-32.