“A criatura anômala” (W.H. Auden)

“The anomalous creature”, in The New York Review of Books, 28 de janeiro de 1971. Resenha de The fall into time [La chute dans le temps], traduzido por Richard Howard, com introdução de Charles Newman. Quadrangle Books, 224 pp.

A queda no tempo [The fall into time] pode e, penso eu, deve ser lido simultaneamente de duas maneiras, talvez mais. Pode ser lido como um sermão de Jeremias (não por acaso, certamente, Cioran é filho de um padre ortodoxo) sobre a Queda do Homem, uma denúncia apaixonada da bagunça que ele fez de sua vida, uma condição que, diz o pregador, é melhor descrita pela teologia do que pela biologia.

Escutando um tal sermão, espera-se naturalmente alguma exageração; se devemos ser despertados de nossa indolência e de nossas ilusões lisonjeadoras, o quadro deve ser pintado o mais obscuro possível. O homem, diz este pregador, é “um episódio, uma digressão, uma heresia, um estraga-prazeres, um extravagante, um extraviado que tudo complica.” A consciência é um mal, “a quintessência da decrepitude”. O conhecimento é um mal: “quanto mais somos possuídos pelo desejo de conhecer, marcado de perversidade e corrupção, mais ele nos torna incapazes de permanecer no interior de qualquer realidade que seja.” A linguagem é um mal: “[O homem] jamais se aproximará das fontes invioladas da vida se continuar pactuando com as palavras.”

O pregador, entretanto, está na posição anômala — da qual Cioran, estou seguro, tem consciência — de ser incapaz de praticar o que prega. Para denunciar a consciência, ele precisa apelar para as mentes conscientes do seu público; denunciar o conhecimento significa afirmar que ele sabe que o conhecimento é mau; para denunciar a linguagem, ele precisa das palavras. Chesterton escreveu: “Se não é verdade que um ser divino caiu, pode-se dizer então que um dos animais perdeu completamente a cabeça.” Portanto, para compreender o Homem, os homens precisam compartilhar da sua loucura. E Cioran afirma de um dos seus predecessores, Nietzsche: “Nós devemos o diagnóstico do nosso mal a um insensato, mais afetado, mais acometido do que todos nós, um maníaco comprovado, precursor e modelo dos nossos delírios.

Cioran, ele mesmo, no entanto, é certamente são pelos padrões comuns. Apenas de vez em quando ele diz algo que, para mim, parece maluco. Eu não acredito que ele seja um maniqueu, mas suas observações o fazem ocasionalmente soar como um, como quando ele sugere que Deus caiu quando criou o Universo, ou quando declara: “Ninguém se recupera do mal de nascer, chaga capital dentre todas.” Então ele diz que, enquanto que o desejo secreto de todo mundo é ser elogiado, o que é verdade, nós todos temos vergonha de admiti-lo, o que é, certamente, falso, muito embora, é claro, queiramos ser elogiados pelas razões certas. Então, vinda de um escritor, eu acho esta observação bastante esquisita:

Que escritor que goza de certa notoriedade não termina por sofrer por ela, por experimentar o mal-estar de ser conhecido ou compreendido, de ter um público, por mais restrito que seja? Com inveja dos seus amigos que se refastelam no conforto da obscuridade, ele se esforçará por arrancá-los dela… Escreva! Publique! – ele repete com raiva e despudor.

Um escritor pode sofrer do sentimento de que é admirado ou desprezado pelas razões erradas, mas todo escritor espera ser lido. Se Cioran realmente sofresse como diz, então, ou não publicaria nada, ou publicaria anonimamente. Então, a julgar por mim e pelos escritores que conheço, o n osso desejo secreto e vergonhoso é que pudéssemos ser o único escritor vivo: a última coisa que queremos fazer é estimular a concorrência.

No geral, apesar de tudo, Cioran me leva junto com ele. A respeito da tríade Fé/Crença, Dúvida e Negação, ele tem coisas fascinantes a dizer. Sem crenças de qualquer tipo, não podemos viver, menos ainda agir.

Quem quer que estime o equilíbrio da sua mente se privará de atacar certas superstições essenciais. Esta é uma necessidade vital para o espírito, desdenhada apenas pelo cético, ele que, não tendo nada a preservar, não respeita nem os segredos nem os interditos indispensáveis à duração das certezas.

O ceticismo tem contra si os nossos reflexos, os nossos apetites, os nossos instintos. Por mais que declaremos que o ser mesmo é um preconceito, este preconceito, mais velho que nós, data de antes do homem e da vida, resiste aos nossos ataques, dispensa raciocínios e provas, pois tudo o que existe, se manifesta e dura apoia-se no indemonstrável e no inverificável.

A capacidade de afirmar ou acreditar procede, segundo Cioran, de “um fundo bárbaro que a maioria, a quase totalidade dos homens têm a felicidade de conservar…”

O termo “barbarismo” tem obviamente um valor de choque, mas eu suspeito que haja uma outra razão para o seu emprego. Cioran escreve em francês, e a língua francesa não tem um equivalente ao termo inglês “common sense” (bon sense não é a mesma coisa).

Cioran distingue entre dois tipos de cético, o cético “puro”, ou o Negador, e o Duvidador. O negador não está em busca de verdade, o seu objetivo é a interrogação infinita, e ele raramente coloca em questão o ato da negação. O duvidador, por outro lado, frequentemente coloca em questão a dúvida.

O drama do duvidador é maior que o do negador, pela razão de que viver sem objetivo é mais difícil do que viver por uma má causa.

Apenas o “bárbaro” em nós é capaz de pensamento criativo.

Enquanto seguirmos o movimento espontâneo do espírito e, pela reflexão, nos coloquemos de igual para igual com a vida, não podemos pensar que pensamos; a partir do momento em que o fazemos, nossas ideias se combatem e se neutralizam umas às outras no interior de uma consciência vazia… Produzir, “criar”, é impedir a clarividência, é ter a coragem ou a felicidade de não perceber a mentira da diversidade, o caráter enganoso do múltiplo… Só a ilusão é fértil, apenas ela é origem… Tudo o que resplende na superfície do mundo, tudo o que se qualifica de interessante é frito da embriaguez e da ignorância.

Devo confessar que não vejo porque a diversidade deve ser necessariamente uma mentira, mas acho que entendi a ideia.

Mas enxergar Cioran solenemente como um pregador não é a única maneira de lê-lo. Ele também pode ser lido humoradamente como um mestre da língua que se diverte enormemente manuseando as palavras. Em sua inteligente introdução, Charles Newman fala da tentação de apreender Cioran pelo aforismo, “torna-lo uma espécie de Oscar Wilde galês”. Desde que se saiba que ele não é simplesmente isto, penso que é uma maneira perfeitamente legítima de lê-lo.

Ele disse que todos os seus livros são autobiográficos, mas nenhum autor poderia ser mais “confessional”. Ele nos diz que um homem saudável é sempre decepcionante, mas eu suspeito que a sua própria saúde seja boa. Espero que sim, pelo seu bem, pois, caso contrário, pelo seu próprio julgamento ele é um sádico. Ele diz que se houvesse mais fanfarrões e aduladores por aí, o psiquiatra perderia o emprego, mas estou certo de que ele não se entrega a nenhuma das duas atividades. Ele declara que estaríamos melhor se fôssemos verminosos como os animais e cheirássemos a estábulo, mas eu deveria ficar surpreso em ouvir que ele nunca toma banho. Ele condena a lucidez:

Consciência não é lucidez. A lucidez, monopólio do homem, representa a culminação do processo de ruptura entre o espírito e o mundo; é necessariamente consciência da consciência, e, se nós nos distinguimos dos animais, é a ela que devemos o mérito ou a culpa.

E no entanto a primeira coisa que se nota nestas duas sentenças, ou em quaisquer outras de Cioran, é quão “lúcidas” elas são. Lendo-o, nunca se encontra, como acontece lendo Hegel ou Heidegger, frases que fazem exclamar: “Que diabos isto significa?” Para mim, os dois autores mais interessantes que surgiram desde a guerra escrevendo em francês são E.M. Cioran e M. Malcolm de Chazal, ambos aforistas, um dispositivo literário que sempre me alegra. Quando eu leio, por exemplo, que

quem nunca invejou o vegetal não entendeu o drama humano. Resignar-se da espécie? Seria esquecer que nunca se é tão humano como quando se lamenta sê-lo

isto me faz sentir tudo menos soturno. Eu digo: “Oba! Oba!” Para concluir, devo dizer que a tradução de Richard Howard é magnífica.

Tradução do inglês: Rodrigo Inácio R. S. Menezes