“O pecado de acedia” (Jean Starobinski)

O médico antigo trata da “paixão” do corpo; o filósofo se aplica em curar as “doenças” da alma. As analogias são grandes e justificam as confusões, voluntárias ou não, do vocabulário. De onde quer que venha, a tristeza depressiva exige uma medicação, pela palavra, pela droga, pelo regime diário.

No mundo cristão torna-se infinitamente mais importante distinguir entre a doença da alma e a doença do corpo. A doença da alma, se a vontade consentiu, será considerada um pecado, e exige uma punição divina, ao passo que a doença do corpo, longe de suscitar uma sanção do além, representa uma prova meritória. Nem sempre é fácil saber se estamos lidando com uma ou com outra. E as afecções depressivas constituem um problema especialmente espinhoso. Com muita frequência os Pais da Igreja tiveram de dar sua opinião: trata-se de uma afecção melancólica precisando de tratamento médico? Ou de um pecado de tristeza? Um ataque de acedia? E a própria acedia é um pecado de verdade?

E, primeiro, o que é exatamente uma acedia? É um peso, um torpor, uma ausência de iniciativa, um desespero total diante da salvação. Alguns a descrevem como uma tristeza que deixa mudo, uma afonia espiritual, verdadeira “extinção de voz” da alma. Ela seca em nós o poder de palavra e de oração. O ser inferior se tranca em seu mutismo e se recusa a se comunicar com o exterior. (Kierkegaard falará em hermetismo.) Assim, o diálogo com o outro e com Deus seca, esgota-se em sua própria fonte. Uma mordaça cobre a boca da vítima da acedia. O homem como que engoliu e devorou a própria língua: a linguagem lhe é retirada. Mas, se aceita isso, se sua alma se compraz nisso, se esse peso, imposto talvez pelo corpo, recebe o assentimento da vontade perversa, então é um pecado mortal. Encontraremos os accidiosi no inferno de Dante, na vizinhança dos coléricos, cujo castigo é uma agressão eterna voltada contra eles mesmos. Os accidiosi estão enfiados na lama de um imenso atoleiro e fazem ouvir sons que se limitam a gorgolejos confusos. A palavra deles permanece um borborigmo. A afonia espiritual, a impossibilidade de se expressar, é figurada aqui pela imagem alegórica mais vigorosa: os accidiosi são uns lambões (no sentido literal desse termo familiar) e por conseguinte são prisioneiros da lama. Só o poeta pode perceber o murmúrio disforme que eles fazem ouvir.

Presos no lodo, diziam: “Sempre fomos tristes sob esse ar leve que alegra ao sol, carregando dentro de nós uma pesada fumaça. A essa hora estamos tristes neste negro lamaçal”.

Gorgolejavam esse hino no fundo da garganta, não conseguindo pronunciar uma palavra inteira.

A acedia ataca vítimas escolhidas: anacoretas, reclusos, homens e mulheres que se dedicam à vida monástica e cujos pensamentos deveriam ser todos voltados a esse “bem espiritual” que doravante lhes parece fora de alcance. A ansiedade do coração, segundo Cassiano, assalta-os sobretudo no meio do dia, qual uma febre diária que irromperia em hora fixa. Portanto, esse mal se parece estranhamente com os acessos febris de uma doença puramente somática. Mas Cassiano é propenso a crer que se trata de uma cilada do “demônio do meio-dia”, de quem se fala no Salmo 91. Sua presença se traduz a um só tempo por uma paralisia de todos os movimentos espirituais e por um desejo inquieto de deslocamento e viagem. Quando a acedia assalta a alma de sua vítima, inspira-lhe o horror pelo lugar onde ela se encontra, o desgosto por sua cela, o desprezo por seus companheiros. Qualquer esforço espiritual parece-lhe inútil, pelo menos enquanto permanecer no mesmo lugar. Ela é invadida pelo desejo de partir, de procurar a salvação ao longe, em outros lugares, com outros irmãos. Olha para todos os lados a fim de saber se alguém vai lhe visitar, suspira ao se ver só; entra e sai da cela sem parar, e a todo instante olha o sol como se ele demorasse a descer; assim, por uma confusão insensata do espírito, como se a terra se enchesse de trevas, ela se torna ociosa e vazia de qualquer ato de devoção, esperando como único remédio para tão grande acometida espiritual a visita de um irmão ou o consolo do sono… “Aborreço-me ao extremo”, dirá o porco de santo Antão na obra de Gustave Flaubert. (O porco simboliza os apetites do ser carnal.)

Evidentemente, trata-se aqui de uma forma peculiar de neurose ou de psicose de reclusão, que nada tem em comum com as nossas depressões endógenas. Nisso veríamos uma espécie de descompensação psíquica, ocorrendo em indivíduos que não têm a força necessária para suportar a existência solitária. Pode se juntar a isso uma preocupação exagerada com a salvação e a danação — preocupação que fará a essência da “melancolia religiosa” dos autores do Renascimento e do século XVII. Mas o fato é que, desde a Idade Média, o eremita aparece quase constantemente nas alegorias que representam o “temperamento melancólico” ou, o que dá quase no mesmo, os filhos de Saturno. De um lado, o temperamento melancólico predispõe a uma contemplação e às atividades intelectuais: isso é, antes de mais nada, um privilégio, e não um mal; de outro, o perigo se liga intimamente às influências favoráveis, e o contemplativo é exposto aos malefícios da acedia: a maioria dos artistas medievais fazem figurar os símbolos da acedia no sombrio campo da atrabílis, apesar das distinções teológicas entre pecado e doença corporal.

Volta e meia o eremita é representado na atitude do trabalho manual: trança cestos de palha, por exemplo. Essa imagem não é acidental: revela um fato típico. O trabalho é, na verdade, o grande método que os Pais da Igreja propuseram para lutar contra a melancolia da vida solitária. “Rezem e trabalhem!” Um solitário só deve abandonar a oração para trabalhar com as mãos. É esta, segundo Cassiano, a única terapêutica eficaz para a tristeza e a acedia: resistam com todas as suas forças à tentação de fugir para longe, lutem onde vivem, mantenham-se firmes e imóveis, ocupando e cansando o corpo. Vemos aparecer aqui, como mais tarde em Petrarca, a metáfora da cidadela assediada. A acedia o cerca, o encarcera, na intenção de derrubá-lo e abatê-lo. É inútil querer evitá-la dando-lhe as costas: seria lhe dar a vitória. O verdadeiro “atleta de Cristo” enfrenta-a corajosamente. Cassiano cita com admiração o curioso exemplo de um solitário do Egito que todo ano queimava o produto de seu trabalho, a fim de ter constantemente uma tarefa nova na qual se aplicar. É verdade que, quando a possibilidade se apresenta, os produtos excedentes podem ser distribuídos de forma caritativa aos pobres e aos prisioneiros. Mas mesmo que ainda assim não houvesse nenhum uso a dar ao produto do trabalho, não se deveria ficar ocioso. Portanto não é de jeito nenhum o lucro econômico do trabalho que importa para os Pais da Igreja, mas seu valor terapêutico, e o ganho espiritual que daí retira quem a ele se dedica. O homem laborioso escapa de ser assediado pelo tédio, pela vertigem do tempo vazio; resiste às tentações de uma ociosidade culpada. Pois o que conta não é o que o trabalho produz graças à transformação da natureza: é o que o labor permite repelir. O trabalho é bom não porque modifica o mundo, mas porque é a negação do ócio. Ora, a acedia evolui no círculo vicioso do ócio. Dele procede e o agrava, paralisando qualquer atividade espiritual. É o fascínio por um ócio que se aprofunda e se envisca em si mesmo. Digamos que o trabalho — em relação à contemplação, à prece, ao pensamento na salvação — é uma diversão e uma distração. Mas é também um meio de se agarrar aos lugares que a acedia nos convida a deixar, em troca de longínquos locais, sedutores e enganadores. Na verdade, o trabalho tem como efeito ocupar inteiramente o tempo, que só pode ser dado à oração e aos atos de devoção. A sua função é tapar as brechas por onde o demônio poderia penetrar, e também por onde o pensamento ocioso poderia escapar. Assim, o devaneio, que corria o risco de se tornar vagabundo e culpado, é absorvido e encerrado numa atividade fixa: realiza-se uma implantação salutar. O trabalho orienta numa direção concreta e inocente energias que, sem ele, teriam se dispersado por todos os ventos e todas as tentações. Ele interrompe o vertiginoso diálogo da consciência com o seu próprio vazio, interpõe resistências e obstáculos, e em contato com eles a alma pode esquecer a sua insatisfação; prende-a aqui, ao passo que a acedia teria cantado para ele os louvores de um quimérico além.

“Não sejam solitários, não sejam ociosos”, é a conclusão a que chega Robert Burton, no fim do capítulo sobre o tratamento da melancolia religiosa. Mas, aos meios espirituais, no trabalho acrescenta-se uma longa lista de métodos “físicos” que são, na verdade, de ordem mágica, ou astrológica. Várias precauções valem mais do que uma: se o demônio está na jogada, é preciso fazer de tudo para expulsá-lo. E, mesmo se os sintomas médicos da melancolia estão presentes, não é possível considerar-se livre dos ataques dos espíritos infernais: pois “o diabo opera pela mediação dos humores, e doenças mistas devem ter remédios mistos”. Portanto, não é inoportuno garantir-se simultaneamente contra a atrabílis e contra o Maligno. Melancholia balneum Diaboli. Aceitemos, por conseguinte, os amuletos, as ervas, as pedras recomendadas pelos bons autores: safiras, crisolitas, carbúnculos, arruda, hortelã, angélica, peônia, hipérico — a que se soma a betônica, contanto que tenha crescido num cemitério, esclarece Burton.

“Mas é preciso cultivar o nosso jardim”: o conselho de Candide é apenas a versão secularizada daquele que dava Cassiano. O tédio (ou spleen) tendo substituído a acedia, a medicação permanece a mesma. Swift, que conhecia a sua teologia, evoca essa terapêutica em Viagens de Gulliver. É um Houyhnhnm que o aplica a um Yahoo:

[…] por vezes um Yahoo por Capricho encolhia-se num Canto e lá se deitava a urrar, e gemer, e expulsar todos os que dele se aproximassem, mesmo se fosse jovem e gordo, e não lhe faltasse Comida nem Água; tampouco podiam os Criados imaginar que Mal o estaria a afligir. E o único Remédio que conheciam era obrigá-lo a ocupar-se com algum Trabalho pesado, pois assim em seguida ele infalivelmente voltava a si. Quanto a isso, permaneci em silêncio por Parcialidade em relação a minha própria Espécie; no entanto, aqui me pareceu residirem as verdadeiras Sementes da Melancolia, que só ataca os Preguiçosos, os Voluptuosos e os Ricos; os quais, se fossem obrigados a submeter-se ao mesmo Regime, certamente haveriam de curar-se.

Encontramos aqui a prefiguração de todas as “terapêuticas pelo trabalho”. Mas são trabalhos forçados, aplicados sem piedade. O estado depressivo aparece como consequência, e quase como castigo de uma existência culpada. A doença é a retribuição do pecado (como ainda dirá Heinroth no início do século XIX). A cólera e a ironia de Swift denunciam no spleen o grotesco contragolpe da ociosidade imoral. O remédio é um castigo corretivo.

STAROBINSKI, Jean. A tinta da melancolia: uma história cultural da tristeza. Trad. de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp. 43-47.