“Fernando Pessoa e a filosofia. Um diálogo com Emil Cioran e John Gray” (João Maurício Barreiros Brás)

Resumo: A revista Orpheu é uma publicação ímpar na história cultural Portuguesa, a sua brevidade é sintomática do nosso modo de estar. É contudo sobre Fernando Pessoa que este texto incide. Defendemos que não é possível uma compreensão ampla de Pessoa sem analisar a importância da Filosofia na sua obra. Para sustentar esta afirmação: «Numa curta comunicação e numa dezena de páginas, não ousarei mais que utilizar uma pequena comparação e apontar alguns fragmentos e apenas de uma das suas obras, O Livro do Desassossego. Convoquei dois filósofos para estabelecer esse diálogo, Cioran e John Gray.»

A revista Orpheu, independentemente da análise especializada do seu conteúdo, muito nos diz sobre hábitos culturais e estruturas de fundo do modo de estar luso. Hoje, a ser possível o exercício, não haveria provavelmente sequer a revista ou a existir, não teria conhecido maior longevidade. Contém todos os ingredientes do que é Portugal. Orpheu foi um projeto inovador, radical, contemporâneo. Conheceu, excetuando um círculo restritivo e citadino, a indiferença e a crítica negativa, com vida breve, fecha devido a alguns desacordos e falta de verbas. Quase tão importante como aquilo que foi, é o que poderia ter sido e os motivos porque não foi. O tema desta reflexão não incide contudo sobre o monumento Orpheu, mas sobre um dos seus principais pilares, Fernando Pessoa.

Um pequeno preâmbulo sobre o universo Pessoano

Fernando Pessoa, este nome ultrapassa há muito qualquer radicação num texto, numa ação, num livro ou mesmo na obra, com todas as vantagens e riscos de tal metamorfose. Podemos falar de Pessoa, ter sobre ele uma opinião e nada conhecer ao certo da sua obra. Algo transcendeu em muito o autor e o seu trabalho. Corremos o risco de quando dele falamos ou o analisamos, referir, não já Pessoa e a sua obra, mas o meu Pessoa, o teu Pessoa, o Pessoa do grupo y ou do grupo x, o Pessoa, por exemplo esotérico, o nacionalista, o da literatura. Faltará ainda um Pessoa da filosofia.

O escritor tem os seus fiéis e verdadeiros intérpretes e exegetas, o que é perigoso, sabemos como os dogmas destroem e chegam mesmo a matar. Nem sei se esta não será uma limitação à leitura do nosso poeta mor. Quando um autor se torna muito estudado deixa com frequência de ser lido/fruído e até vivido. A análise tem algo de esquartejamento e artificialismo. É caso para perguntar, quando falamos de Pessoa, falamos do quê?

Pessoa e tudo o que se seguiu com a sua obra, torna-o também o mais Borgiano dos autores. Basta rearrumar, cortar, juntar, justapor os seus textos, e temos quase tantos Pessoas quantos aqueles que pretendemos. Cada um de nós constrói o seu Pessoa. O que é uma qualidade sem dúvida, mas perturba qualquer compreensão essencial, a não ser que o essencial de uma obra, seja o dar-se a essa possibilidade de cada um construir o seu texto e a sua interpretação.

No caso deste texto, não conseguimos não incorrer no que enunciamos.

*

É redundante afirmar que Pessoa é um mundo, um universo. Mas esse chavão legítimo contribui para que o autor deixe de ser totalmente nítido. O problema é duplo, Pessoa é um mundo e é genial (encarna a literatura, como já mencionamos no sentido Borgiano), e as lentes para o analisar, ler e fruir, geraram todo um universo, que muito também deve, quer à capacidade analítica quer imaginativa dos seus exegetas. Não sabemos até que ponto se tem visto muito mais que aquilo que lá está.

No meu caso, como leitor laico de Pessoa sempre vi nele um autor profundamente filosófico.

A temática central da vida como sonho e da sensação como a única via de acesso à realidade, é mais filosófica que literária. A sua filosofia tem contudo um problema, é principalmente intuitiva, experiêncial e tentativa de sabedoria, e não tanto uma técnica de conhecimento com o respetivo jargão.

A sua capacidade literária e de criador de universos provoca também uma densa cortina sobre o conjunto de ideias e experiências que constituem a sua substância. Pessoa e literatura identificam-se de um modo apenas acessível a um punhado de autores. Pessoa e literatura são sinónimos. Institucionalmente é um escritor, não um filósofo genuíno, mas sem a captação das suas referências e experiências de índole filosófica, ficará bastante empobrecida a análise literária da sua obra.

Numa curta comunicação e numa dezena de páginas, não ousarei mais que utilizar uma pequena comparação e apontar alguns fragmentos e apenas de uma das suas obras, O Livro do Desassossego. Convoquei dois filósofos para estabelecer esse diálogo, Cioran, John Gray.

As citações de Pessoa que utilizo referem-se, portanto, unicamente a esse livro. A minha conceção tem pouca ou nenhuma relevância, mas como amador considero o Livro do Desassossego o seu registo autobiográfico por excelência e que só poderia ser literário. Refira-se que a autobiografia de Pessoa teria que ser algo de essencialmente mental, «sendo a vida essencialmente um estado mental». O Livro do Desassossego é uma autobiografia mental de um escritor.

Atendamos nos seguintes aforismos:

«O conhecimento não é possível, e se apesar de tudo o fosse, não resolveria nada.»

«Só tem convicções quem não aprofundou nada.»

«Dividido entre a violência e o desengano, assemelho-me a um terrorista que ao sair à rua com a intenção de perpetrar algum atentado, se deteve no caminho para consultar o Eclesiastes e Epicteto.»

«A vida só se tornará suportável no seio de uma humanidade a que não reste nenhuma ilusão, uma humanidade completamente desenganada e feliz por o estar.»

«Para aquele que tomou o irritante hábito de desmascarar as aparências, acontecimento e mal-entendido são sinónimos. Ir ao essencial é abandonar a partida e confessar-se vencido.».

«Onde estão as minhas sensações? Desvaneceram-se…em mim, e o que é isso senão a soma dessas sensações?».

«Ser estéril e com tantas sensações. É a perpétua poesia sem palavras.»

Poderiam ser certamente aforismos de Pessoa, e a sua escrita muito tem de aforístico. Estes aforismos e encontraríamos centenas, pertencem a um pensador de fragmentos, Emile Cioran e à obra De l’Inconvénient d’Être Né. Também Pessoa é um filósofo de fragmentos… [+]