“Uma vanguarda centenária”: entrevista de George Popescu a Marco Lucchesi

Revista Brasileira – Revista da Academia Brasileira de Letras (fase VIII), abril/maio/junho de 2013, ano II, no. 75. [Pdf]

Revista Brasileira – Como o senhor interpreta o quadro atual da literatura romena?

George Popescu – Depois da queda do regime autoritário de Ceauşescu, a literatura romena expôs, junto a toda a sociedade, um momento de grande confusão: um forte sentimento de liberdade que os protagonistas – artistas em geral – haviam sonhado levou, de um lado, a uma negação acrobática das obras e personalidades daquela época e, de outro lado, à chegada de jovens artistas, da década de 1990, em busca de novos estilos literários, em especial na poesia. Criou-se um caso especial em torno da “literatura de gaveta”: esperava-se, ainda nos debates subversivos dos anos 1970-1980, que existissem manuscritos, obras-primas, escritos para uma época ulterior, com a (im)provável queda do regime. Na realidade o fenômeno infelizmente não se confirmou em nível das expectativas, entre poucos nomes e pouca produção, mas há o exemplo de dois livros-documento: um, O diário da felicidade, de Nicolae Steinhardt, e O diário de um diarista sem diário, do meu mestre e amigo Ion Sîrbu.
O interessante é que os dois autores foram vítima do regime autoritário nos anos 1950-1960, e morreram pouco antes do fim da ditadura. Também foram publicados outros livros, testemunhos do que os autores tiveram que enfrentar pela sua liberdade de expressão, embora tenha sido pouco, em relação ao que se esperava: algumas coletâneas de poemas de autores já famosos (como Marin Sorescu, que publicou um livro com o título Poesia escolhida pela censura), e algumas reedições de romances até então considerados “completos”, mas agora com fragmentos, páginas, capítulos etc. que haviam sido excluídos pela censura.

RB – Uma nova literatura e outros desafios?

GP – Não há dúvida. Mas com diversas passagens, como a do escritor Paul Goma, que representou um “verdadeiro caso”, tendo ele sido preso político por quase 20 anos. Depois da tentativa de agregar um movimento de resistência cultural aderindo à Carta de Praga, em 1977, ele se viu obrigado ao exílio em Paris e teve o seu nome proibido; seus livros, escritos na Romênia e depois na França, foram publicados no início da década de 1990. O fato de, embora lido e admirado por alguns, ter sido ignorado pela maior parte da crítica, a meu ver sugere um pouco daquela ambiguidade que marcou, às vezes de modo dramático, a difícil passagem da condição (de escritor) na opressão à plena liberdade. No entanto, o fenômeno mais impactante logo após dezembro de 1989 (o momento da derrota de Ceauşescu) foi um profícuo retorno à literatura do entreguerras, considerada unanimemente como a mais importante de toda a história cultural do país. Assim se refez não apenas uma conexão tão necessária e esperada em cinquenta anos de silêncio e de esquecimento, com gravíssimas consequências para o desenvolvimento normal de uma literatura – e de uma cultura –, que, com a generalização da década de 1930, passou a ser conhecida e apreciada na Europa, na França, na Alemanha e também na Itália. Trata-se da geração de Mircea Eliade, de E. M. Cioran, de Eugène Ionesco, para lembrar apenas de grandes nomes. Mas deve-se acrescentar, ao lado deles, um grande número de intelectuais, filósofos, estetas, poetas, narradores ativos em lugares vários, formados, alguns deles, em Paris ou na Alemanha, como, por exemplo, nos seminários de Heidegger. De resto, a literatura romena de hoje, “condenada à liberdade”, para retomar uma fórmula sartriana, usufrui e sofre do mesmo bem e do mesmo mal que a globalização lhe faz incidir em seu corpo e por toda parte, seja na Europa, na América Latina ou em qualquer lugar.

RB – Como a sua obra se insere nesse panorama?

GP – Quanto a mim, também me reconheço como um “caso”: tendo chegado ainda adolescente às revistas literárias, não fui publicado por uma década, as minhas propostas de poesia não estavam “alinhadas”, como se dizia; minha primeira publicação saiu apenas em 1984. Mas eu a reneguei, não porque não fosse minha, mas por ter feito um pequeno compromisso: rejeitada a maior parte dos poemas, eu me pus a escrever, em uma só noite, cerca de cinquenta poemas em “forma fixa” (era a sugestão da editora: o máximo que ela entendia e aceitava com a sua “cultura” poética). Eu fiz isso um pouco de gozação, mas, penso hoje, a verdadeira motivação havia chegado do grande poeta e amigo Marin Sorescu, que me convenceu a fazer isso para que depois eu tentasse publicar o livro censurado, que foi lançado em 1993, com o título nietzschiano A gaia ciência, e que considero minha verdadeira estreia. Mas em todos aqueles anos eu me ocupei de crítica literária, sobretudo na revista Ramuri, em Craiova, com Marin Sorescu como redator-chefe e onde também fui redator. Deste modo, pouco a pouco, continuei a escrever e publicar poesia e crítica literária.

RB – Sua nova edição de Blaga teve grande recepção dos leitores. Pode nos dizer quanto Blaga atinge a sua obra?

GP – Lucian Blaga é uma das mais discutidas, controversas e espetaculares personalidades da cultura romena do século XX. Poeta e pensador, igual e principalmente estudioso, na década de 1910 em Viena, profundo kantiano e, depois, antikantiano, nietzschiano, entre os primeiros leitores atentos e ao mesmo tempo, distante da exuberância do autor de Aurora, leitor atento de Husserl, Bergson, Dilthey, grande fruidor dos filósofos da arte da Alemanha, envolveu-se desde jovem com um projeto de dimensões e grandeza provocativas, a sistematização de um sistema filosófico (quando não se falava em sistemas), radicado no magma da tradição romena, bastante antiga, aquela de molde etnológico e sempre em confronto com as linhas mestras do pensamento europeu de seu tempo. No meu livro Lucian Blaga no paradigma da cultura europeia busquei confrontar suas ideias com aquelas de Heidegger, em primeiro lugar (cujo pensamento Blaga conhecia indubitavelmente, mesmo que tenha deixado poucas referências), além de outras direções do pensamento posteriores, como Ricoeur, Derrida e Lévy-Strauss. E acima de tudo o pensamento indiano e chinês, nos quais encontrava certa proximidade com a espiritualidade romena.

RB – Em que medida a vanguarda romena se faz presente, como chamada a uma constante saúde criativa? Suas relações com a vanguarda, até que ponto chegam e como se constroem?

GP – Ainda não conhecida em sua substância, a vanguarda histórica romena esconde surpresas, fontes de riqueza com a qual a literatura universal teria o que aprender. E não me refiro tanto aos nomes famosos (Tzara, Fondane, Celan, sem jamais esquecer Brâncuşi, não apenas o artista genial, mas também um exemplo de vida frugal, com um modo de pensar e de representar o mundo e a vida como um camponês romeno, do seu lugar de origem, próximo da minha cidade), mas a tantos outros que permaneceram aqui, na Romênia, e fizeram de seu gesto literário um verdadeiro desafio às convenções da moda. Um caso seria aquele de Urmuz, funcionário legista, de origem humilde e com uma vida anônima, que escreveu, nos primeiros anos do século XX, poucas, mas densas páginas de prosa de um absurdo totalmente ionesquiano e beckettiano. Gosto do forte retorno dos jovens literários, muitos de Craiova, às experiências da vanguarda romena. Descobrem, com espanto, e só agora, que a revolução aconteceu um século atrás. E espero – com certeza – que, com este retorno, se retome nova e merecida chance para a literatura futura do meu país. Penso nisso antes de tudo como uma saudável solução diante da crise de que muito se fala e pouco se sabe.

RB – O senhor escreveu muitas vezes sobre a autenticidade como valor, gesto ou categoria literária. Gostaria de ouvi-lo sobre isso…

GP – Exatamente diante da crise (de valores, temas, estilos, conteúdo etc.) considero que o contexto de autenticidade poderia trazer sugestões para um renascimento da escrita, religando-nos à tradição. Não se pode suprimir a literatura universal como patrimônio íntimo da nossa humanidade; para mim, a autenticidade não significa nem a descrição tal e qual da realidade cotidiana, nem tampouco um jogo derrisório, do vazio existencial, como todo o tédio que se encarna em uma sintaxe verbal. Na tradição romena, a geração de Eliade e Cioran preferiu elaborar uma estética que se reconhecia sob o nome de “trairismo”, do verbo a trai, que significa viver. Para mim, a autenticidade deve ser acrescentada à dimensão da escrita: o reconhecimento do autor no puro ato de escrever, como actante, protagonista, deus-criador que quanto mais se lança na matéria viva, mais se apercebe da instauração do ato de escrever, tomado em si mesmo, como sua forma de estar no mundo.

RB – Com as nossas latinidades tão próximas e distantes, que perspectivas podemos elaborar para uma agenda substancial voltada para o diálogo?

GP – Sempre retomo uma fórmula de Eliade, aquela gravada na fórmula da “centralidade da margem”, neste caso, das margens. Eliade usava esta fórmula para sublinhar que, nas várias religiões, aquilo que se apresenta em certo momento como margem (e marginal) busca tornar-se – e se torna também com o tempo – centro. Depois, Claudio Magris explica, ele também, em seu famoso ensaio sobre o império habsbúrgico, que, enquanto em Viena a libertinagem estava a ponto de arruinar toda a glória do império, nas margens, na Romênia, na Bucovina de Celan, e não apenas lá, como também na Trieste de Svevo, aquilo que podia seguir como verdadeira e válida substância da tradição habsbúrgica continuava bem guardada. Eis por quê, diante de nossas culturas, brasileira e romena, como extremos/margens da latinidade, a essência desta última conserva a melhor chance de ilustrar e restituir o que foi a substância da grande e indispensável tradição da cultura clássica virgiliana e horaciana. É verdade que a distância geográfica não nos ajuda, mas somos chamados a empreendimentos mais corajosos, para um esforço de interconexão, ao menos em nível cultural, que nos leve a um diálogo mais vivo, mais atento, aberto às nossas aventuras culturais e espirituais que não são menos promissoras ou menos importantes do que as outras.