“O místico sem fé: Cioran for dummies” (Rafael Guedes)

Cansado de ler tantas besteiras sobre o filósofo, apresento um pequeno manual introdutório ao seu pensamento.

Revista Amálgama, 11/03/2018

Quando se trata de abordar a obra do filósofo franco-romeno Emil Cioran (1911-1995), muitos críticos renunciam a todo o cuidado de que normalmente se valem para julgar o trabalho de autores com quem dividem simpatias políticas, éticas ou estéticas. Para analisar um autor querido, toda prudência é pouca, toda objetividade não basta, todas as nuances são insuficientes. O crítico se dá ao trabalho – ou melhor, entrega-se ao prazer – de ler quase tudo que saiu da pena de seu objeto de estudo e um bom tanto do que foi escrito de positivo (mais) e negativo (menos) sobre ele. Já para se avaliar a obra de Cioran, bastam um ou dois de seus livros mais famosos e um ou dois ensaios contra ele para se fabricar um juízo flexível como os Dez Mandamentos. Armado mais de paixão do que de ciência, o crítico então deposita na mesa da História o seu veredicto e sai confiante de ter adicionado um tijolinho a mais na restauração da Cultura Ocidental.

No mundo civilizado, porém, qualquer leitor sabe que somente pessoas de caráter duvidoso analisam uma questão tomando por base as obras ou indivíduos que a representam da forma menos perfeita, ainda que seja a mais popular. Ninguém que conheça a literatura de Hemingway, por exemplo, pode respeitar um crítico que emita um parecer sobre ela baseado apenas em livros populares, mas inferiores, como O velho e o mar e Paris é uma festa, quando a obra que condensa todo o talento do americano é  Adeus às armas. O problema é que, a exemplo do que aconteceu com muitos outros escritores e filósofos, Cioran teve o azar de ficar conhecido por um de seus trabalhos mais medíocres, Silogismos da amargura (Syllogyismes de l’amertume, de 1952), marcado por um pessimismo fácil e inconsequente que caiu nas graças dos jovens franceses e se tornou alvo fácil na mão de críticos acomodados e irresponsáveis.

Mas, para se conhecer as ideias do filósofo em toda a sua extensão e inigualável beleza estilística, é imprescindível fazer a lição de casa e ler, pelo menos, os seguintes livros: Nos cumes do desespero (Sur les cimes du désespoir, de 1934), De lágrimas e santos (Des larmes et des saints, de 1937), Breviário de decomposição (Bréviaire des vaincus, de 1944), A tentação de existir (La Tentation d’exister, de 1956), História e utopia (Histoire et utopie, de 1960), Do inconveniente de ter nascido (De l’inconvénient d’être né, de 1973) e Exercícios de admiração (Exercices d’admiration, de 1986), nesta ordem. Considerando que só um deles é inédito em português – De lágrimas e santos –, é lícito imaginar que quem julgue o pensamento de Cioran com base em um ou dois de seus livros mais ruins proceda assim por ignorância ou má vontade.

Cansado de ler tantas besteiras a respeito do filósofo nascido na Romênia, apresento a seguir um pequeno manual introdutório ao seu pensamento, na injustificada esperança de que seus futuros leitores tenham a competência de abordá-lo com um espírito mais sério e generoso. Como este ensaio não tem a pretensão de ser acadêmico e, portanto, respeitar os cânones técnicos desse estilo, limitar-me-ei a apontar alguns motivos pelos quais a obra de Cioran vale a pena de ser lida. Há muitos temas que merecem atenção em seus livros. Entre eles… [+]