Entrevista: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes em diálogo com Ciprian Vălcan

ARCA – Revistă de literatură, eseu, arte vizuale, muzică, no. 1-2-3, 2018.

„Cioran ne retrimite la noi înşine, pentru a înfrunta abisurile şi deşerturile pe care le locuim şi în faţa cărora suntem absolut singuri.” [versão original]
“Cioran nos reenvia a nós mesmos, fazendo-nos encarar os abismos e desertos que nos habitam, e frente aos quais estamos absolutamente sós.”

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Como você veio a conhecer a obra de Cioran?

Foi em 2001 ou 2002, uma feliz casualidade. Em um livro sobre Pascal, bati o olho na epígrafe de um autor cujo nome, de uma grafia a princípio um tanto “exótica” para mim, chamou-me a atenção imediatamente. As seis letras (C-I-O-R-A-N) formavam um nome cuja grafia e sonoridade ficaram gravadas na minha mente. Eu não fazia nenhuma ideia de quem fosse, de onde vinha. Da Romênia eu sabia apenas o nome, não tinha absolutamente nenhum conhecimento sobre ela. A epígrafe, no caso, era uma passagem do prefácio de Cioran à Antologia do retrato, coleção de retratos dos moralistas franceses do século XVIII organizada pelo próprio Cioran, e que ele considerava o seu “adeus ao homem”. Confesso que, naquela ocasião, a passagem em questão não teve sobre mim, naquela época, nenhum impacto significativo. Semanas ou meses depois, estava eu olhando os livros na seção de filosofia de uma livraria quando, para minha surpresa, me deparei com um título daquele mesmo autor cujo nome parecera tão inusitado para mim: CIORAN. Puxei-o da prateleira e li: Breviário de decomposição. Comprei o livro imediatamente e voltei para casa, sem poder imaginar o que me aguardava. A cada página, uma mescla de maravilhamento e assombro, exultação e consternação, entusiasmo e ansiedade. Eu não podia acreditar no que lia. Conforme avançava, me perguntava: como é possível? Não sei se fui eu que descobri Cioran, ou se foi Cioran que me descobriu. Enfim, eu havia encontrado O ESCRITOR.
Após a leitura do Breviário, imediatamente tratei de adquirir tudo o que havia ao meu alcance do mesmo autor. Infelizmente, não encontrei muita coisa; estavam traduzidos e publicados no Brasil apenas Silogismos da amargura (àquela época esgotado), História e utopia, Exercícios de admiração e Antologia do retrato. Todos, à exceção deste último, traduzidos por José Thomaz Brum, responsável pela apresentação de Cioran ao público brasileiro e profundo conhecedor de sua obra. Logo descobri que havia muito mais daquele autor do que o que estava ao meu alcance. Seria preciso aprender o francês e, até que eu alcançasse um nível razoável naquele idioma, recorri às edições espanholas. Para ler Cioran, acabei aprendendo dois idiomas, o espanhol e o francês. Em romeno ainda sou iniciante, infelizmente. É uma língua bastante diferente do português (as declinações, por exemplo), ainda que algumas coisas sejam tão parecidas entre as duas. Como não tenho tanta inclinação a ser auto-didata, e sendo difícil encontrar professores de romeno (e romenos, pura e simplesmente) aqui no Brasil, ainda não pude chegar a dominar o idioma materno de Cioran.

Quais aspectos da obra de Cioran atraíram a sua atenção à uma primeira leitura, e quais você continua a considerar importantes ainda hoje em dia?

O que mais me atraiu num primeiro momento é o mesmo que ainda hoje me atrai. É algo que, no limite, rejeita toda descrição, toda formulação, uma questão de musicalidade, talvez, daquilo que, segundo William James, concerne ao “ouvido musical”, em detrimento da razão discursiva; o ritmo, a intensidade, a vibração, o tom… Essa combinação entre pessimismo inapelável e um estilo irresistivelmente jovial, as revelações da lucidez e o modo de expressá-las… Seria preciso considerar aspectos materiais e formais, o pensamento e a forma de exposição do pensamento, o componente crítico e o componente estético, a função do estilo, que representa muito mais do que apenas um adorno, um acessório…
O caráter indefinível da obra de Cioran é algo que sempre me atraiu. Filosofia? Literatura? Autobiografia? Tudo isso junto? Perguntas impertinentes, que não têm uma razão de ser. Cioran é um filósofo que escreve incrivelmente bem, um pensador que alcançou a excelência estilística escrevendo nessa língua rigorosa que é o francês, e inversamente um escritor que reúne as maiores qualidades do pensador. Por isso é rídiculo pretender reduzir a obra de Cioran ao gênero da literatura, destituindo-a de todo valor filosófico. Sua obra é a expressão de um pensamento movente, cambiante, vivo em suma. O que se encontra aí são “verdades de temperamento”, flutuações de um cético obcecado pelo absoluto, ou, empregando a fórmula de Peter Sloterdijk, as diversas “posições de um homem sem posição”. É por isso que os seus escritos parecem sempre novos, sempre outros, originais a cada vez que retornamos a eles. A originalidade buscada por Cioran não é uma questão de inovação linguística ou malabarismo teórico; consiste, antes de tudo, na renúncia à pretensão de se “original” e à superstição do “novo”. No que concerne ao essencial, àquilo que mais importa, não há, não pode haver, nada de novo, nenhuma originalidade. A morte, por exemplo… a natureza da alma… Excetuando a evidência da morte, a única certeza encontrada por Cioran é de que a dúvida sempre fala mais alto em se tratando das questões fundamentais da existência. Questões que são, a rigor, de ordem eminentemente metafísica, mais do que puramente existenciais. “A morte coloca um problema que substitui todos os outros. Há algo mais funesto para a filosofia, para essa ingênua crença na hierarquia das perplexidades?” Eis o que a obra de Cioran nos comunica.
Gostaria de citá-lo, uma passagem em que critica o racionalismo na exegese dos místicos: “Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. O que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas.” O mesmo aplica-se a Cioran. Confesso que nunca sei ao certo onde me situo em relação a ele. Parece-me que, com o passar do tempo, eu o conheço menos, que há sempre mais a conhecer do que o aparentemente já conhecido. É como se algo escapasse, algo oculto, evanescente, misterioso… Há nele algo inapreensível e inacessível, ao menos para mim. O que pensa Cioran sobre Deus? As coisas mais diversas, algumas delas contraditórias entre si. Não importa. O que importa é essa sede, a necessidade de pensar em Deus, e a impossibilidade de esquecê-lo ou de ignorá-lo. “Deus é o que sobrevive à evidência de que nada merece ser pensado”, como se lê em De l’inconvenient d’être né.
Aprecio Cioran porque é um autor que se recusa a agradar, a oferecer respostas fáceis, sentidos prontos, falsas soluções para o problema da existência, da vida e da morte; porque não é indulgente, é o contrário do demagogo, porque não adula o leitor com mentiras agradáveis que o fazem sentir-se confortável, confirmando nele a imagem angelical que faz de si mesmo. “Um livro deve fustigar, deve criar feridas, um livro deve ser um perigo”: é por isso que não me canso de buscar Cioran. Porque não há um Cioran, o Cioran definitivo. Porque sua obra é polifônica e proteiforme. Ela é como a noção do phármakon: perturbadora e tranquilizadora, inóspita e acolhedora, angustiante e animadora, enfim, terrivelmente bela… Pode-se amá-lo ou odiá-lo, amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo, mas é impossível permanecer indiferente a Cioran. Sua mensagem é de que ninguém pode nos dar as respostas para as nossas interrogações mais profundas. Cioran nos reenvia a nós mesmos, fazendo-nos encarar os abismos e desertos que nos habitam, e frente aos quais estamos absolutamente sós. Estabelece-se uma estranha cumplicidade perante o Insolúvel, uma espécie de comunhão na solidão e na vertigem.

Qual é a sua interpretação da obra de Cioran?

Trata-se, no limite, de uma obra inclassificável, a começar pela impossibilidade de determinar: trata-se de uma obra filosófica? Literária? Cioran é uma “soma de atitudes contraditórias sem nenhuma preocupação de unidade”, descrição que ele faz de Nietzsche, em “O comércio dos místicos”, e que se aplica também ao autor de La tentation d’exister. Penso que sua obra é refratária a toda interpretação rígida, que se pretenda perfeitamente coerente, isenta de contradições. Nos Cahiers, Cioran escreve: “Sobre tudo, tenho pelo menos dois pontos de vista. Daí a minha indecisão teórica e prática.” Indecisão que contagia sobre o leitor e o exegeta. Na busca pela unidade de fundo do pensamento de Cioran, pelo centro, pelo princípio do qual toda sua obra partiria e ao qual ela se remeteria, nos deparamos com uma dualidade intransponível e irredutível. Um intérprete, duas interpretações divergentes, se não contraditórias, sobre Cioran.
Cioran não é apenas um escritor formado em filosofia, é um grande filósofo (a despeito de todo preconceito academicista) se considerarmos que a sua filosofia é uma Weltphilosophie, em oposição à Schulphilosophie. Com a exceção de uma breve experiência como professor de liceu, ainda na juventude, Cioran nunca se interessou pela academia. Desde cedo, compreendeu que o seu caminho deveria ser à margem da universidade e da sociedade. Na “soma de tendências contraditórias” que compõem o seu pensamento, entram ceticismo, pessimismo, tragicismo, fatalismo, niilismo, cinismo, ainda que nenhum destes conceitos esgote a riqueza desta que é uma obra polifônica e polivalente, fragmentária por princípio. A singularidade do pensamento de Cioran não se reduz a nenhum destes conceitos que, mesmo reunidos, não dão conta da complexidade da sua obra. Como ele mesmo a qualifica na carta que servirá de prefácio ao Ensayo sobre Cioran de Fernando Savater: do anti-sistema. Em Cioran, o apofatismo é uma condição sine qua non de pensamento.
Cioran é um pensador existencial e, mais do que isso, um autêntico metafísico. Mas a sua é uma metafísica intuitiva e experimental; diferentemente da filosofia bergsoniana, um intuicionismo negativo, baseado na intuição do pior. Estamos falando de um pensador preocupado com questões muitas vezes consideradas ultrapassadas, deslocadas, despropositadas (remove!), consideradas sinais de “infantilidade”, “alienação”, “ressentimento”, ou mesmo de doença mental. Que questões são estas? Deus para começar… o bem e o mal, a eternidade, o êxtase, a alma e sua suposta (i)mortalidade… Como observou José Thomaz Brum, “a filosofia existencial de Cioran não deve ser confundida com a ‘segunda geração existencial’ (Heidegger, Sartre, Camus), mas sim com os ‘pensadores privados’ (Nietzsche, Dostoiévski, Chestov), que procuram conservar no homem a kierkegaardiana ‘síncope da liberdade’, a angústia que não deve ser resolvida por nenhum ideal sob pena de perdermos a grande riqueza humana: sua recusa a tudo o que busca aplacar o abismo interior por qualquer falso consolo ou transcendência.” (“O amargo saber de Cioran”, O Globo, Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1991).
O pensamento existencial de Cioran não é um ateísmo, como o existencialismo de Sartre. Aliás, discordo radicalmente da leitura de Cioran como um filósofo ateu e puramente cético, sem nenhum apelo à transcendência, sem nenhuma sede de absoluto, sem o pathos místico que me parece tão evidente. Esta é a leitura, ao menos no Brasil, daqueles que buscam reduzi-lo a um autor pós-nietzscheano, um espírito puramente trágico, um cético “ortodoxo”, um ateu materialista na linhagem de Lucrécio a Clément Rosset (com os quais Cioran, sem dúvida, mantém afinidades em termos de pensamento filosófico). Pelo contrário, vejo em Cioran um pensador religioso, mais do que metafísico (conceito carregado de uma conotação demasiado especulativa e abstrata), preocupado não tanto com a teoria, com ideias e conceitos, quanto preocupado com a salvação ou a liberação (délivrance, em vez de salut) em relação ao mundo  e a si mesmo. É a necessidade de desprendimento (détachement) que está em jogo. Salvo Pirro e o Buda, que são seus modelos declarados nos Cahiers, penso que nos últimos dois séculos Chestov, mais do que Nietzsche, é o pensador do qual Cioran está mais próximo.
Cioran é um filósofo existencial e um metafísico. E também um pensador religioso à sua maneira, sem a fé: um “místico sem absoluto” (Bollon) em perpétuo embate com a divindade, atormentado pelo mistério do mal, cuja questão se inverte aquí para tornar-se: Unde bonum? Não há ceticismo que suprima sua sede de absoluto, sua nostalgia do incondicionado, sua obsessão pelo problema (eminentemente teológico) do mal. Cioran é um pessimista sui generis que não faz do pessimismo uma doutrina. O seu pessimismo não é exatamente schopenhaueriano, más, penso eu, de tipo gnóstico. O mesmo se aplica ao seu controverso “niilismo”: como bem observou Franco Volpi, trata-se aqui de um “niilismo” gnóstico que enxerga o mundo como a totalidade do mal, a criação de uma divindade desastrada, se não definitivamente malvada, o “mau demiurgo”. Aliás, minha principal linha de interpretação de Cioran passa pelo gnosticismo, pela gnose, não tanto como doutrina da salvação, mas como forma mentis e “atitude existencial”, seguindo a hermenêutica de Hans Jonas. A hipótese gnóstica me parece bastante forte, perfeitamente plausível, em meio à “soma de atitudes contraditórias” que é o pensamento de Cioran. Penso mesmo que ela tem o mérito de conciliar, tanto quanto possível, todas essas tendências divergentes de pensamento, o ceticismo, o pessimismo, o misticismo, o tragicismo. Contra toda ortodoxia, Cioran buscou fazer uma carreira na heresia.
Enfim, vejo em Cioran um pensador privado que virou as costas à filosofia (a certa filosofia, notadamente acadêmica), em favor do jogo da écriture, assumindo uma postura diletante e frívola em relação à profundidade e ao comércio das ideias. Um pensador que cultiva a beleza no escrever, e ao mesmo tempo um escritor preocupado em comunicar suas intuições, suas interrogações mais profundas. Em francês, ele se descreverá, ironicamente, como um “sofista das Letras”. A écriture é destino. É a conclusão natural de um pensamento que busca avançar a graus cada vez mais elevados de insegurança. E, tratando-se de escrever não tanto para transmitir conteúdos e saberes, mas por escrever, pela necessidade terapêutica de escrever, o estilo é uma confissão. De quê? Da experiência de viver sem fundamento, sem a segurança de uma certeza sequer, de ter como único apoio as palavras, essas sombras de realidade. “Com certezas, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras – sombras de realidade –, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação.”

C.V. – Qual escritor do século XX poderia ser comparado a Cioran no que diz respeito aos temas de reflexão e ao estilo?

Se há originalidade em Cioran, ela reside mais no estilo do que no pensamento em si. Os temas de reflexão, assim como os problemas fundamentais da existência, não são muito passíveis de inovação, sendo tão antigos quanto o homem, os mesmos desde sempre. Mudam apenas os “cenários do saber”. No que concerne ao essencial, ao que mais importa, não há nenhuma evolução, nenhum progresso.
Quanto aos temas de reflexão, cito em primeiro lugar o filósofo ucraniano Lev Chestov (cuja obra Cioran fez editar, na França, pela editora Plon). Também o seu discípulo, Benjamin Fondane (de quem Cioran se tornaria amigo), poeta, filósofo e crítico romeno (ele também judeu, como Chestov, e cujo fim trágico nós sabemos). Na Espanha, Miguel de Unamuno. Há o obscuro Albert Caraco, escritor turco judeu que se suicidou em 1971, autor de um Breviário do caos. Dizem que Caraco e Cioran chegaram a se conhecer em Paris, não tenho certeza. Na França, Beckett, Céline, o próprio Clément Rosset… talvez Bataille, Blanchot, Camus, mesmo Sartre. Kafka, em língua alemã. Na Itália, Guido Ceronetti (ouvi falar também de outro escritor italiano, Giuseppe Rensi, bastante comparado a Cioran, más que ainda não tive a oportunidade de ler). Na Colômbia, Nicolás Gomez Dávila. Nos Estados Unidos, Thomas Ligotti, autor de uma Conspiração contra a raça humana.
Agora, acho difícil fazer comparações entre estilos. Escrever aforismos, cultivar uma escrita fragmentária não é uma questão de estilo, mas uma escolha em função do que se pretende comunicar, e de como se o pretende. Não acho que se possa comparar nenhum estilo ao de Cioran. Não (apenas) porque seja de Cioran, mas antes porque estilos não se comparam. Paul Valéry disse em algum lugar que “a pele é o que há de mais profundo”. O estilo é como a pele: não apenas um envelope, mas um órgão, fazendo a mediação entre o profundo e o superficial, o exterior e o interior, o visível e o invisível. Não há duas peles iguais, o mesmo em relação ao estilo. Cada um possui algo de único, de próprio, de mais si mesmo – um tom,  um acento, um ritmo –, e este algo é o resultado de uma soma infinitesimal de determinações e fatores contextuais diversos. A necessidade combina-se com o acaso. De resto, há algo de heteróclito em Cioran de língua francesa, algo que não encontro  eu nenhum outro escritor bilingue do século XX.

Você considera correta a opinião dos exegetas que enxergam em Cioran o principal continuador de Nietzsche no século XX?

Trata-se de pensar a equívoca filiação Cioran-Nietzsche. Meu primeiro impulso é responder: não. Num segundo momento, fazendo uma concessão dialética, eu diria: não e sim. Depende do que se quer dizer por “ser o continuador de”. É curioso: não se costuma questionar se Cioran é o continuador de outros filósofos como se costuma fazê-lo em relação a Nietzsche. Acho que isto diz menos sobre Cioran do que sobre Nietzsche: um gigante, um monstro que pôs a filosofia e o pensamento ocidental de cabeça para baixo. Em Cartea amăgirilor, o jovem Cioran faz a seguinte declaração: “Nenhum sistema filosófico me deu o sentimento de um mundo independente de tudo o que não é ele. É doloroso, mas é assim: podeis ler todos os filósofos que quereis, nunca sentireis que vos tornastes um outro homem. Naturalmente, dentre os filósofos excluo Nietzsche, que é muito mais do que um filósofo.”
Más há que ter em mente a diferença entre o jovem Cioran, escrevendo ainda em romeno, no complicado contexto do seu país natal, e o Cioran pós-guerra, a partir do Breviário de decomposição. Em sua juventude, Cioran foi profundamente marcado pela obra de Nietzsche. Parece-me justificado empregar para a filiação Cioran-Nietzsche o conceito de “angústia da influência”, de Harold Bloom. Para Cioran, ninguém foi mais longe do que Nietzsche. Nietzsche é o “caso” por excelência, o maior exemplar dessa família de pensadores que, segundo Cioran diz a Savater, se lançam à catástrofe e às vezes além dela. Para o jovem Cioran, Nietzsche era o colosso maior cuja sombra era preciso superar, aquele após o qual parece não haver mais nada a dizer. Lembremos que Cioran adicionava “d.N.” (depois de Nietzsche!) na assinatura de alguns dos seus escritos.
Penso que o pensamento do jovem Cioran, em seus primeiros livros, está marcado por certo nietzscheanismo, o que não exclui, ao mesmo tempo, a influência antitética de Schopenhauer, e apesar de certos caracteres pessoais do autor romeno que o fazem destoar consideravelmente de Nietzsche. O desespero, a tentação da santidade, a necessidade ascética, o imperativo de “estar triste com método”, tudo isso me parece muito pouco “nietzscheano”. Apesar disso tudo, vejo no jovem autor de Nos cumes do desespero e Cartea Amargirilor a vontade de dizer “sim” à existência com tudo o que há de problemático e absurdo nela. O mesmo não se aplica à obra francesa de Cioran, a partir do Breviário. Acho que o resultado da II Guerra é decisivo para a mudança de perspectiva, para o posicionamento de Cioran como um pensador da negação, um pessimista que vê no dizer “sim” ao mundo uma “espécie de baixeza, a qual escapamos graças a nossos orgulhos e a nossos pesares, mas sobretudo graças à melancolia que nos preserva de um deslize para uma afirmação final, arrancada de nossa covardia. Há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo?”
Em uma das Entretiens, Cioran diz que considera Nietzsche um “ingênuo”. E nos Silogismos da amargura há um aforismo (um dos mais longos neste livro) que é crucial para compreender a visão ulterior de Cioran em relação ao seu “ídolo de juventude” (sic). Trata-se de uma “homenagem” bastante irônica, para dizer o mínimo, na qual Nietzsche é retratado como um “delirante”, um “saltimbanco”, um “idólatra da força” imbuído de uma “imagem falsa da vida e da história”. Ingenuidade e delírio à parte, Cioran afirma a necessidade de fazer a travessia da obra de Nietzsche, de experimentar sua “orgia filosófica”, seu “culto da vitalidade”, para, enfim, compreender “as raízes da decepção”. É pelas “virtudes metafísicas do cansaço” e pela “maturidade do cinismo” que Cioran pretende superar Nietzsche, ou antes abandoná-lo. Para o autor de Silogismos da amargura, o Übermensch é uma “mera elocubração”.
Então, de que maneira pode-se considerar Cioran um continuador de Nietzsche? Desde que se trate de uma continuidade pela renegação, pela traição. Cioran dá continuidade a Nietzsche apesar de Nietzsche, contra ele. Cioran alega haver compreendido Nietzsche, ainda que os nietzscheanos acadêmicos digam que Cioran não entendeu nada de Nietzsche. Ora, é uma controvérsia infinita. Certamente, o autoproclamado “antifilósofo” não acolhe o “filósofo do martelo”, e não reconhece sua imensurável importância, pelas mesmas razões pelas quais os seus estudiosos e os seus seguidores o fazem. Se “ser o continuador de Nietzsche” significa desdobrar e aprofundar suas ideias e teses (digamos, Übermensch, Wille zur Macht, Ewige Wiederkunft), então não, Cioran não é um continuador de Nietzsche. Estas ideias não têm lugar no pensamento de Cioran, que, ademais, buscou desenvolver o seu próprio pensamento, na medida do possível, a despeito de toda influência, virando as costas a tudo o que veio antes dele. Neste sentido, Cioran é tão pouco nietzscheano quanto acadêmico.
Agora, se “ser o continuador de Nietzsche” significa fazer jus a certo espírito nietzscheano – pautado pelo ideal do filósofo-artista, o nomadismo, o experimentalismo, a intuição como princípio de grande estilo, a exigência fragmentária –, então pode-se dizer que, sim, Cioran dá continuidade ao projeto nietzscheano. Acho que o essencial da filiação Cioran-Nietzsche pode resumir-se no comentário que se encontra na entrevista a Fernando Savater, em que Cioran diz que Nietzsche foi “sumamente liberador” por haver sabotado o estilo da filosofia acadêmica, por haver atentado contra a ideia de sistema. Após Nietzsche, pode-se dizer qualquer coisa, porque ele, “expondo suas histerias, nos desembaraçou do pudor das nossas; suas misérias nos foram salutares. Ele inaugurou a era dos ‘complexos’”, conforme se lê no mencionado aforismo, em Silogismos da amargura. Dito isto, como interpretar o texto “Odisseia do rancor”, em História e utopia? Mais anti-nietzscheano impossível. Como imaginar Nietzsche lendo esse texto? É um exemplo espantoso de despudor, do excesso de sinceridade levada ao cúmulo da indecência. É o que permite a Peter Sloterdijk eleger Cioran para a posição de “prior da Ordem da Santa Temeridade” imaginada por Nietzsche em sua Genealogia da moral.
O principal continuador de Nietzsche no século XX? Não me parece uma questão pertinente. É, mais do que superestimar a importância de Nietzsche para Cioran, subestimar a importância de outros pensadores, como o dostoievskiano Chestov. E subestimar também o próprio Cioran, que não se contentaria em ser o epígono de Nietzsche ou de qualquer outro. Cioran não é mais nietzscheano do que schopenhaueriano. Ou pascaliano. Na verdade, Cioran não é nada disso: Cioran é cioraniano. Ou nem isso! Vem-me à mente um comentário espirituoso de Ion Vartic: “Pascal? Um Cioran francês. Schopenhauer e Nietzsche? Ciorans alemães!”

Qual é a recepção da obra de Cioran no Brasil atualmente?

Percebo um interesse crescente, dentro e fora da academia, mas é ainda muito incipiente. Há teses sendo feitas sobre ele. Há também livros sendo publicados de vez em quando. Sua obra não está integralmente disponível em edições brasileiras. Nem os livros franceses, nem os romenos. A maior parte da sua obra  permanece inédita aqui. Em 2011 foi publicado Pe culmile disperarii. Em 2014, Cartea amargirilor. São os dois únicos livros romenos de Cioran publicados no Brasil. Em Portugal, estão disponíveis dois outros títulos que permanecem ausentes aqui: A tentação de existir e Do inconveniente de ter nascido. Recentemente, uma editora brasileira sediada na Itália publicou Sobre a França.
Para além de algumas teses acadêmicas, ano sim ano não, a produção acadêmica sobre Cioran ainda é muito escassa. A realização de congressos e colóquios é praticamente nula. Em 2015, participei da organização, na Universidade Federal do ABC, em São Paulo, de um mini-colóquio em homenagem aos 20 anos da morte de Cioran. Fora isso, não tenho conhecimento de nenhum outro evento dedicado ao debate sobre a sua obra. 2 anos antes (2013) eu promovi, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde me graduei e pós-graduei, a apresentação de uma peça de teatro (um monólogo) sobre Cioran, seguida de um debate sobre o autor e uma breve apresentação (feita por Fernando Klabin) da história e da cultura romenas. Aliás, menção seja feita ao teatro: duas peças já foram produzidas em adaptação da obra de Cioran.
Ainda há muita resistência, por parte da academia, em trabalhar um autor como Cioran. Talvez em função da hegemonia de certa tradição francesa, de esquerda, que privilegia autores como Sartre, Foucault e Deleuze. O meu orientador de mestrado, Luiz Felipe Pondé, chegou a dedicar um semestre inteiro do seu curso, no programa de Ciências da Religião, a Cioran. Além dele, José Thomaz Brum, que leciona no Rio de Janeiro, a maior referência brasileira sobre Cioran. Posso mencionar também Paulo Piva e Flamarion Caldeira Ramos, professores de filosofia simpáticos à proposta de trazer Cioran para a academia e de levar a academia até Cioran. Os dois participaram da minha banca de doutorado. São intelectuais com uma produção robusta sobre Cioran em jornais e revistas. Em todo caso, ainda é irrisório o volume de livros, artigos e teses acadêmicas sobre Cioran no Brasil. Eu tento contribuir, tanto quanto possível, publicando artigos e participando de congressos. A propósito, acabo de retornar do X Encuentro Internacional Emil Cioran, realizado em outubro passado na cidade de Pereira, na Colômbia. Acho que ainda falta muito até que tenhamos um evento desses aqui no Brasil. Por fim, tenho o projeto de um livro sobre as influências gnósticas no pensamento de Cioran (tema do meu mestrado). Além disso, mantenho um website (multilingue) sobre Cioran: emcioranbr.org

Tradução do português: Amelia Natalia Bulboacă