“O comandante do cômico e seu ativo segundo” (Clément Rosset)

Cahier l'Herne

« Le commandant du comique et son actif second », in : TACOU, Laurence; PIEDNOIR, Vincent (orgs.), Cahier de l’Herne Cioran. Paris : Éditions de l’Herne, 2009, p. 372-3.

“Um dia eu lhe disse: ‘Sabe, Cioran, eu penso exatamente o contrário do que você pensa. E, no entanto, não há sequer uma de suas frases com as quais eu não esteja inteiramente de acordo.” ‘Evidentemente’, respondeu ele, com um tom consternado que embelezava o seu sotaque romeno: ‘É a verrrdade!'” (C. ROSSET)

Foi Georges Roditi quem me fez conhecer Cioran pessoalmente, por volta do ano de 1968, se não me falha a memória. Acrescento que, à mesma época, Georges Lambrichs, diretor da Nouvelle Revue Française, tornou-se também meu ardente advogado junto a Cioran. Roditi, que estava comprometido então com a redação de seu Esprit de perfection, que ele corrigia e remanejava durante longos anos, havia sido o diretor literário da editora Plon e estava muito orgulhoso de ter sido o primeiro publicar, não sei em qual revista, um texto de Cioran escrito em francês. Ele acreditava, como Lambrichs, detectar certa convergência de visões entre Cioran (de quem era íntimo) e eu, e nos convidava amiúde para jantar e almoçar em sua casa. Este foi o início da minha relação com Cioran. Então comecei a ir jantar com frequência em sua mansarda na rua l’Odéon, sempre que eu vinha a Paris (naquela época eu trabalha e vivia em Nice).

De sua cortesia e de sua gentileza eu nada direi: todos os que conheceram Cioran sabem delas e não tenho nada a acrescentar ao que se disse ao respeito. Talvez isto: que não é comum encontrar alguém tomado de um profundo sofrimento mas que não tem nenhum motivo para se queixar na frente dos outros.

Por mais estranho que possa parecer aos olhos dos admiradores de Cioran que ignoram a potência cômica tanto do homem quanto da obra, nossas conversas naquelas noites terminavam sempre em loucas risadas. Cioran tinha de reserva toda uma coleção de histórias hilariantes para contar; eu também tinha um bocado delas, as quais tinham a virtude de animá-lo e arrancá-lo por algum tempo de sua melancolia; razão pela qual, aparentemente, ele se apegou rapidamente por mim. “Eu amo rir”, escreveu ele nalgum lugar, “mas não posso rir só.” Esta declaração fornece provavelmente a chave de nossa relação, ao menos a principal. Ele era o comandante do cômico, e eu era o seu ativo segundo. As anedotas que nós nos contávamos referiam-se com frequência a extravagâncias sobrevindas no mês e podiam dizer respeito a amenidades e a loucuras que animavam o mundo recentemente a despeito de personalidades culturais ou políticas. Em suma, nós éramos como essas semi-divindades da mitologia chinesa, os Ho-Ho, que, instalados a meio caminho entre o céu e a terra (um pouco como Evélpido e Pistétero em As aves, de Aristófanes), passam o tempo a se torcer de rir contando umas às outras as últimas imbecilidades humanas.

Simone, a companheira de toda uma vida de Cioran, nos era de um auxílio precioso, por seu humor, sua cultura e seu grande domínio em matéria de culinária. Ela nos servia generosamente um Saint-Émilion primoroso que me deixava de muito bom humor, mas que também irritava Cioran, que, por razões médicas, só tinha direito a um quarto de taça. Retornarei a este vinho, que desempenhou um papel importante no dia do funeral de Cioran. Lembro-me também de ir um dia à casa deles com as mãos empestadas de uma doença de pele (uma psoríase) que acabaram de identificar aquele dia. “Psoríase?” Pergunta-me Cioran, abrindo um grande dicionário de medicina. Após um longo silêncio: “Simone, ele pode ficar, não é contagioso.”

Frequentemente, após o jantar, Cioran me acompanhava a pé até minha casa, em Île Saint-Louis, onde eu ficava alojado na casa de um parente. Todo mundo sabe que Cioran adorava caminhar, principalmente à noite. Nós falávamos então, às vezes, de assuntos mais sérios que giravam em torno da idade e da velhice: Heheu fugaces, Postume, Postume, labuntur anni…  Em todos aqueles anos nós não tínhamos falado nunca de filosofia; não era o que ele esperava de mim; e, de minha parte, eu sabia exatamente o que ele pensava, tendo lido tudo o que ele havia publicado até então. Quanto a isto, eu diria brevemente que era, e sou, um grande admirador de sua escrita límpida, amiúde esmaltada com achados burlescos, como também sempre subscrevi à justeza de suas análises (com a exceção de um único detalhe: eu considerava a vida como um paraíso, ele como um inferno). Lembro-me, contudo, de sua opinião sobre a leitura de Nietzsche por Heidegger, que ele via como uma superstição da maior desonestidade intelectual; o que era, diga-se de passagem, igualmente a minha opinião. Lembro-me também de outra ocasião, e esta foi realmente a única troca filosófica que tivemos. Certa tarde, estávamos sentados de frente um ao outro nos bancos da linha 6 do metrô, que liga l’Étoile a La Nation, passando por Denfert-Rochereau. Nós tínhamos acabado de atravessar o rio Sena e nos dirigíamos à estação Bir-Hakeim. Impossível de lembrar do objetivo de nosso deslocamento; provavelmente não havia nenhum. Nem ele nem eu dava um pio. De repente, tomado de um impulso súbito, abro a boca e lhe digo: “Sabe, Cioran, que eu penso exatamente o contrário do que você pensa. E, no entanto, não há sequer uma de suas frases com as quais eu não esteja inteiramente de acordo.” “Evidentemente”, responde-me ele com um tom consternado que embelezava o seu sotaque romeno, “é a verrrdade!”

Nossos gostos musicais divergiam em tudo, mas eu nunca comentei isso com ele. Ele só era verdadeiramente sensível ao que, ao meu ver, exala o fastio (ennui) e a melancolia, como Brahms, por exemplo. Mas os seus gostos musicais, que me eram alheios, eram completamente eclipsados aos meus olhos pelo seu amor por Johann-Sebastian Bach.

Enterro de Emil Cioran no cemitério de Montparnasse, Paris (1995)

O enterro de Cioran, que aconteceu no cemitério Montparnasse em 1995, foi para mim, que o acompanhei meio de longe, talvez sua obra-prima absoluta, ainda que involuntária. A senhora Ionesco tinha conseguido convencer Simone, bastante reticente, a dar a Cioran as honras fúnebres previstas pelo rito ortodoxo romeno; missa pontuada pelo sermão de um pope que suplicava a Deus para que perdoasse Cioran por seus escritos abomináveis, enterro no cemitério segundo os ritos da Igreja romena que previa, em torno do túmulo ainda vazio, uma teoria de garrafas (cheias do famoso Saint-Émilion de que eu falei anteriormente) e um tal bolo dos mortos do qual todos os presentes deviam comer um pedaço regado de meia taça de vinho. Ora, antes de o comboio fúnebre chegar ao cemitério, os coveiros, que haviam percebido a presença de comes e bebes à beira do túmulo e pensaram que eram destinados a eles, consumiram a metade de tudo antes de levar a outra metade ao abrigo do seu alojamento, enquanto viam as pessoas chegarem. Interrogados, os coveiros se limitaram a agradecer pelo presente, antes que lhes explicassem o equívoco. Iniciaram-se negociações à porta do alojamento, cujo objetivo era chegar a um acordo, que os coveiros, em plena revolta, e influenciados por um líder truculento, não queriam aceitar, considerando que o resto do butim lhes pertencia. Eles devolveriam de bom grado, se lhes fosse exigido, as garrafas ainda cheias e a metade do bolo; mas a humilhação e o “prejuízo” teriam por contrapartida uma outa humilhação: eles não enterrariam Cioran. Greve indeterminada dos funcionários do cemitério de Montparnasse. Demorou para chegarem a um acordo e eu pude crer por um momento que Cioran, que tinha tanta necessidade disso, seria para sempre privado do repouso eterno.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes