“Morre Clément Rosset, filósofo da alegria trágica e amigo de Cioran” (Nicolas Truong)

LE MONDE, 29/03/2018

Rosset articulava sua filosofia em torno de duas ideias: a do trágico e a do duplo. Ele morreu em 28 de março, aos 78 anos.

O filósofo Clément Rosset faleceu em Paris, em 28 de março. Nascido em 12 de outubro de 1939, em Carteret (Manche), autor de uma obra importante e singular na filosofia francesa. Rosset fez toda a sua carreira na universidade de Nice, de 1967 a 1998.

Clément Rosset (1939-2018)

Nutrido pela leitura precoce de Montaigne, Pascal e Nietzsche, ele articula a sua filosofia em torno de duas ideias: a do trágico e a do duplo. Desde La philosophie tragique (Presses Universitaires de France, 1960), ele trabalha com a ideia de que a existência não tem sentido e que “ela se furta a toda tentativa de interpretação”, escreve ele em Lógica do pior[1] (PUF, 1971). Uma intuição de juventude experimentada ao escutar o Bolero de Maurice Ravel, cujo tema retomado e repetido até o esgotamento parece uma metáfora da vida mesma, em que o trágico e a jubilação se confundem; intuição que ele não cessará de desenvolver e à qual dará um de seus mais belos desenvolvimentos em Alegria: a força maior (Minuit, 1983).

A partir de O real e o seu duplo (Gallimard, 1976), Clément Rosset demonstra, com o auxílio da leitura do mito de Édipo ou do fetiche de L’oreille cassée (“A orelha quebrada”), de Hergé (criador do personagem Tintin), da interpretação de As férias do Senhor Hulot, de Jacques Tati, ou de uma leitura de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, que o real não tem duplo, que não há outros mundos e que é vão querer negar a realidade pela moral (a qual diz o que deve ser) ou mesmo pela política, uma vez que é utópica. Para Rosset, é preciso tomar a existência em sua simplicidade, em sua idiotia[2] (Le Réel. Traité de l’idiotie, Minuit, 1977) e sua crueza (O Princípio de crueldade, Minuit, 1988). Uma filosofia que o conduziu a certo desprendimento, inclusive a um desengajamento político, vindo a experimentar uma aversão pela figura clássica ou midiática do intellectuel engagé.

Professor do júbilo e mestre do desencanto

Aluno de Louis Althusser, seu mestre na École Normale Supérieure, próximo a quem aprendeu que o objetivo do materialismo consiste não em fazer a revolução mas em “não mais se contar histórias”, Clément Rosset foi ele mesmo um professor do júbilo e um mestre do desencantamento (En ce temps là. Notes sur Louis Althusser, Minuit, 1992). Um autor de feroz ironia, não hesitando – sob o pseudônimo de Roger Crémant – a zombar do estilo das estrelas do estruturalismo da época, como Foucault, Barthes ou Lacan (Les Matinées structuralistes, suivies d’un Discours sur l’écrithure (sic), R. Laffont, 1969).

Autor de uma obra abundante que trata desde a ética à estética, desde Schopenhauer (Schopenhauer, philosophe de l’absurde, PUF, 1967) à doença pela qual passou (Route de nuit. Episodes cliniques, Gallimard, 1999), e cujos contornos são retraçados nas entrevistas com Santiago Espinosa (Esquisse biographique, Encre marine, 2017), Clément Rosset também marcou apreciadores tão distintos de seus afiados ensaios, como os filósofos Gilles Deleuze, Vincent Descombes e Jacques Bouveresse.

Mas se a sua filosofia trágica convida a se desafazer de todos os ídolos, nem por isso conduz ao desespero ou ao mécontentement (“descontentamento”) do seu amigo Cioran. Muito pelo contrário. A filosofia trágica elaborada por Rosset é o inverso do pessimismo. Pois, dizia ele, “estar alegre é sempre estar alegre apesar de tudo.”

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Livros do filósofo traduzidos ao português e publicados no Brasil:

A anti-natureza: elementos para uma filosofia trágica, Espaço e Tempo, 1989

alegria

Alegria: a força maior, Relume Dumará, 2000

logicapior

Lógica do pior, Espaço e Tempo, 1989

crueldade

O princípio de crueldade, Rocco, 1989

O real e seu duplo: ensaio sobre a ilusão, 2008

[1] ROSSET, Clément, Lógica do pior, trad. de Fernando J. Fagundes e Ivana Bentes, Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 1989.

[2] Conceito-chave no pensamento de Rosset acerca do real e seus “duplos” metafísicos. Cf. ROSSET, Clément, O real e seu duplo: ensaio sobre a ilusão, trad. de José Thomaz Brum, Rio de Janeiro José Olympio, 2008.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes