“Maneiras de ignorar Nietzsche” (Clément Rosset)

FOLHA DE S. PAULO, Caderno Mais!, 6 de agosto de 2000

Filósofo comenta os tipos de traição póstuma impostos ao autor de “A Gaia Ciência”

Pode-se dizer dos Estados Unidos da América, não sem maldade nem, sem dúvida, com um pouco de injustiça que eram uma das raras nações do mundo a ter evoluído diretamente da barbárie para a decadência, sem passar pelo estágio da civilização. Poder-se-ia dizer mais ou menos o mesmo de todo grande autor: que ele passa diretamente do desconhecimento a uma celebridade vil, sem jamais conhecer o estágio intermediário em que seria reconhecido e não traído. Impossível, de fato, evitar esse atalho forçado, já que a notoriedade significa a ascensão ao domínio público e a todos os tipos de injúrias que daí necessariamente se seguem -de modo que, entre a obscuridade e o renome, jamais haverá lugar para esse ideal quimérico designado pela expressão “bem reputado”. Blanchot justamente escreveu: “Não, não há saída para os mortos, os que morrem após terem escrito, e eu nunca distingui na mais gloriosa posteridade senão um inferno pretensioso em que os críticos -nós todos- fazemos figuras de pobres diabos”. E, lendo certas páginas que ele consagrou a Nietzsche, fica-se grato a Blanchot, pela lucidez com que ele se conta no número dos críticos importunos (não, aliás, que falte pertinência a essas páginas, mas porque a pertinência delas depende de uma preocupação e de uma fidelidade hegelianas). Lucidez, portanto, louvável em geral, mas importante em terreno nietzschiano, exatamente como a lucidez de Heidegger fustigando com toda razão -mas dessa vez sem qualquer inquietude acerca de seu próprio fato, que se encontra, todavia, bastante ironicamente implicado- a maioria dos intérpretes de Nietzsche: “Não são de modo algum os pensadores, mas seus intérpretes, sempre mais bem informados sobre eles do que eles próprios eram, que, na realidade, não sabem mais o que dizer e dessa maneira dissimulam bem mal sua perplexidade por meio de seu incorrigível pedantismo”. No que concerne a Nietzsche, eu distinguiria, por minha parte, duas grandes ordens de traição póstuma. Do final do século 19 até nossos dias, houve, grosseiramente falando, duas maneiras de ignorar Nietzsche -ponho à parte certas maneiras de o “conhecer”, como a de Heidegger, que testemunha, a meu ver, um desconhecimento mais pernicioso do que qualquer forma de ignorância.

Nem pensou nem escreveu

A primeira, que agora está um pouco fora de época, consiste em reconhecer que Nietzsche pensou e escreveu alguma coisa, mas alguma coisa ruim, falsa, incoerente, imoral e perigosa. A segunda, mais recente, consiste em pretender que Nietzsche, de certo modo, nunca nada pensou nem escreveu, mas nessa lacuna reside, paradoxalmente, o essencial de sua força e de sua fineza, assim como a razão de sua influência atual. Apreciação curiosa, mas atestada e persistente, que faz pensar nos julgamentos da senhorita Anais em matéria de literatura e de artes modernas, em “Le Confort Intellectuel de Marcel Aymé”: “Suas preferências iam, em literatura, para Picasso, e, em pintura, para Jean Paulhan, que, não sendo pintor, o era no entanto e ainda mais”.

Da mesma maneira Nietzsche é hoje de bom grado celebrado como aquele que, não sendo filósofo, o é “no entanto e ainda mais”: grande intérprete, pois, precisamente, nada interpreta, como disse Foucault no colóquio Nietzsche de Royaumont; grande pensador, pois não consegue justamente pensar o que quer que seja, como, diversas vezes Klossowski afirmou. Semelhante asseptização do propósito nietzschiano também está presente nos textos que, por exemplo, Bataille, Blanchot, Derrida lhe consagraram: comentários que, se não chegam a riscar pura e simplesmente o fato de um pensamento nietzschiano, mesmo que fosse para felicitar Nietzsche, apagam contudo sua originalidade e alcance, assimilando o que pensa Nietzsche ao que eles próprios preocupa -isto é, e respectivamente, a teologia do erotismo, o destino moderno do hegelianismo, a sempiterna esquivança (ou “différence”) de verdade. Assimilação natural e até certo ponto legítima, se não fosse a desagradável circunstância de que as preocupações do comentador são em todos esses casos completamente alheias ao que interessa a Nietzsche. Mais ainda: elas o contradizem, caindo elas mesmas sob o golpe da crítica nietzschiana que pretendem ilustrar. Propósitos de antes de Nietzsche que, curiosamente, caem um século após Nietzsche e seu propósito.

Essa maneira moderna de ignorar Nietzsche, por intermédio de um comentário entusiasta, seja do fato que Nietzsche não pensa, seja do fato que ele pensa no rastro de uma modernidade pós-hegeliana, equivale, evidentemente, a uma recusa, análoga a que lhe opunham aqueles que, não há muito, concediam a Nietzsche um pensamento positivo, embora vicioso; ela é apenas uma variante pouco sutil desta. Poder-se-ia, sem dúvida, se interrogar sobre as causas de tal recusa, que persiste há quase um século após a morte de Nietzsche. A razão fundamental dessa rejeição parece residir no fato que todo discurso totalmente afirmador, como é o de Nietzsche ou como são os de Lucrécio e Espinosa, é e sempre foi recebido como totalmente inadmissível. Não somente inadmissível aos olhos da maioria, como insinuava Bataille em seu livro sobre Nietzsche, mas também -e diria, particularmente- aos olhos do pequeno número daqueles que chamamos de os “intelectuais”. Cabe à psicologia, ou talvez à psicopatologia, explicar o laço misterioso que, tão frequentemente, une o exercício do pensamento à experiência da pena, essa estranha “coincidência do pensamento e do sofrimento”, de que se vale Klossowski em sua própria obra sobre Nietzsche. Tal disposição de espírito é, em todo caso, constitucionalmente rebelde a um pensamento de estilo nietzschiano. Pois está pronta a se submeter a todas as provas, exceto a da despreocupação.

Resta que toda a modernidade filosófica e literária apregoa o nome de Nietzsche e que não há, portanto, nada mais estranho a essa modernidade do que o pensamento nietzschiano. Mais exatamente: o que há de moderno em Nietzsche não reside de modo algum em Nietzsche, mas antes de tudo na maneira, totalmente atual, quero dizer, sintomática da atualidade, pela qual ele é aplaudido enquanto outro que ele mesmo. Pois, se há pouca relação entre o pensamento nietzschiano e seus comentadores modernos, em compensação a idéia de que a grandeza de Nietzsche provém de que ele não é justamente um grande pensador pode aparecer como muito característico de nossa modernidade.

Sem dúvida, a fórmula da senhorita Anais, acima citada, dá lugar a isso; mas creio que seria um erro encontrar ali apenas um tique de esnobismo de interesse local e já caduco. Essa fórmula é mais pertinente e mais penetrante do que parece, pois toda nossa modernidade, no fundo, a ela subscreve, de Bataille a Lacan. Dizer que a presença está para sempre ausente ou diferida, que o objeto do desejo não deve ser procurado nele mesmo, mas de preferência em tudo o que não é ele, que, de maneira geral, a realidade não está onde se poderia crer, mas sempre noutro lugar, é o mesmo que repetir, de maneira sábia, o que a senhorita Anais exprimiu bem simplesmente, dizendo que Jean Paulhan é tanto mais pintor quanto não pinta. E é somente nessa perspectiva bufa que advém hoje a Nietzsche ser levado a sério e considerado como moderno: enquanto testemunho do outro e figura do vazio.


Clement Rosset é filósofo francês. O trecho acima faz parte do livro “Alegria – A Força Maior” (tradução de Eloísa de Araújo Ribeiro) que será lançado neste mês pela Editora Relume-Dumará.