FOLHA DE S. PAULO, 8 de junho de 2003

HĂĄ muito poucos filĂłsofos por sĂ©culo; terĂ­amos dificuldade de encontrar mais de 20 desde ParmĂȘnides: no que se refere ao sĂ©culo 20, conheço apenas dois, Bergson e Wittgenstein

1. Nietzsche, sem hesitação. Sem as leituras de Nietzsche, particularmente “O Nascimento da TragĂ©dia”, por volta dos 18 anos, eu talvez nĂŁo tivesse sido filĂłsofo, mas professor de letras ou mĂșsico. Na Ă©poca, eu estava profundamente incomodado com PlatĂŁo e o SĂłcrates platĂŽnico que nos apresentavam na escola como um Ă­cone da sabedoria e do bem; acabei por concluir que eu era o Ășnico ser no mundo a pensar o contrĂĄrio. A leitura da “O Nascimento da TragĂ©dia” foi para mim um violento choque afetivo: eu nĂŁo era o Ășnico no mundo, Ă©ramos pelo menos dois. Devo no entanto atenuar um pouco essa declaração bastante banal (quem hoje nĂŁo invoca o testemunho de Nietzsche?). Parece-me que o Nietzsche no qual me inspirei tem muito pouca relação com aquele que, apĂłs a leitura de Nietzsche por Heidegger (leitura que Ă© para mim um total contra-senso), influenciou e continua a influenciar todos os autores franceses que invocaram o nietzscheĂ­smo, com a notĂĄvel exceção do Gilles Deleuze de “Diferença e Repetição”. Acrescentarei tambĂ©m que esse falso Nietzsche que reina hoje na ideologia francesa nĂŁo merece certamente, em minha opiniĂŁo, obter mais espaço no ensino. Antes de Nietzsche, ainda mais jovem -14 anos em relação ao primeiro, 16 em relação ao segundo-, fiquei muito impressionado pela leitura de trechos de Schopenhauer e pela leitura dos “Pensamentos” [ed. Martins Fontes] de Pascal, dois autores que tambĂ©m contribuĂ­ram muito em minha orientação para a filosofia, assim como, mais tarde, LucrĂ©cio e Espinosa.

2. À questĂŁo que lhe colocavam com frequĂȘncia, “O que sente diante de uma obra de arte?”, DalĂ­ respondia: “Salvador DalĂ­ nunca sentiu absolutamente nada diante de uma obra de arte”. Em meu modesto nĂ­vel, confesso nunca ter-me colocado “interrogaçÔes” filosĂłficas. Interesso-me mais pela verdade ou a falsidade das teses, por sua pertinĂȘncia ou nĂŁo-pertinĂȘncia. Os filĂłsofos que admiro me impuseram mais respostas do que responderam a questĂ”es prĂ©vias de minha parte.

3. Nenhum. HĂĄ muito poucos filĂłsofos por sĂ©culo. TerĂ­amos dificuldade de encontrar mais de 20 desde ParmĂȘnides [sĂ©culo 5Âș a.C.]. No que se refere ao sĂ©culo 20, conheço apenas dois: Bergson e Wittgenstein. NĂŁo incluo Heidegger, que considero antes de tudo um grande escritor e um homem do sĂ©culo 19.


ClĂ©ment Rosset é filĂłsofo francĂȘs, autor de “O PrincĂ­pio da Crueldade” (Relume-DumarĂĄ) e “L’Anti-‘Nature” (A Antinatureza, PUF). Este texto foi publicado originalmente na revista “Nouvel Observateur”. Tradução de Paulo Neves.