“Desmobilizar” (Clément Rosset)

Revista TRÁGICA: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v.9 nº 3, p. 109-113, 2016.

“Démobiliser”. In: Faits Divers: textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: PUF, 2013. p. 161-168.

Publicado originalmente em CRITIQUE, 1978, nº 369, p. 246-250.

Rogério de Almeida
Luiz Antonio Callegari Coppi

É difícil imaginar que a Filosofia, enquanto tal, possa ter exercido influência notável sobre o curso das coisas. Há muitos filósofos maldosos, mas conheço poucos que conseguiram ser verdadeiramente perigosos. A não ser para seus próximos ou colegas, mas trata-se de um mal sem grandes consequências, a não ser para os interessados, e que de todo modo é comum a quem pertence a uma instituição. Mesmo aqueles de quem a história reteve o nome na conta de grandes filósofos: seus pontos de vista aparecem como mais ou menos geniais, mais ou menos penetrantes, mais ou menos promissores ou preocupantes, mas também sempre como mais ou menos inofensivos. Nem Platão, nem Hobbes, nem Hegel tiveram influência notável sobre a estrutura social; tampouco Epicuro, Spinoza ou Nietzsche conseguiram, mesmo hoje em dia, quando todas as homenagens lhes são unanimemente rendidas, transformar em profundidade a natureza do homem.

Então me parece vã a tarefa de defender a filosofia quando se vê ameaçada e questionada pela impossibilidade de demonstrar sua eficiência: mostrar que a filosofia, aparentemente sem interesse em oferecer algum recurso em caso de crise, é contudo capaz de “oportunidades” inesperadas na concretude. Trata-se, no melhor dos casos, de uma falsa promessa; no pior, de prostituição, já que no imediato é assim que a filosofia às vezes consegue se vender, em todos os sentidos do termo: respondendo a questões concretas, a preocupações momentâneas que não são de sua alçada. Sabe-se passar por útil aos olhos de um público semi-cultivado a quem jamais interessará a questão do ser e do nada, mas que se importa em saber se se deve ser a favor ou contra a guerra da Argélia ou do Vietnã, se deve votar ou não pela união da esquerda, confiar ou não sua angústia e sua tristeza aos cuidados de um psicanalista. Tais questões são legítimas e, independente da resposta, ninguém é indiferente a elas. Mas não se trata de questões filosóficas: a essas questões a filosofia, enquanto tal, não tem o que responder. Sem dúvida um filósofo pode ter suas preferências, escolhas políticas, opiniões sobre tal ou qual problema concreto. Da mesma forma, terá seus cineastas preferidos, ideias sobre a psicologia de seus parentes, gostos e desgostos em matéria sexual ou culinária.

Mas não é por isso que ele é filósofo. Mesmo Marx – que provavelmente seja um caso limite, já que parece ter sido o único, é verdade que por intermediários (Engels e Lênin entre os primeiros), a ter uma incidência real sobre o curso das coisas – não é filósofo por ser o autor da esperança revolucionária de um melhor-ser da humanidade (sequer é o autor dessa esperança, que é bem anterior a ele), mas sim por ter sido o primeiro a pensar uma certa relação entre as estruturas sociais e suas manifestações explícitas… [Pdf]