Duas cervejas, um sanduíche e mil tiradas filósoficas: Clément Rosset por Roland Jaccard

Se a esperança é o pior dos males, se é derrisório pretender mudar a vida, o que resta então? Resposta de Clément Rosset: “Resta, contudo, uma última hipótese: a de uma satisfação total no seio do infinito mesmo, semelhante ao júbilo amoroso descrito por La Fontaine numa célebre fábula (“Seja tudo você mesmo, conte o resto por nada”).

Roland JACCARD

“Clément Rosset, uma pistola estranha” [Clément Rosset, un drôle de pistolet], in JACCARD, Roland, Cioran et compagnie. Paris: PUF, 2005, p. 99-103. Tradução de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

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Era 1970. O acaso, que todo mundo sabe que é o maior romancista do mundo, quis que Clément Rosset tivesse uma reunião na PUF (Presses Universitaires de France) ao mesmo tempo que eu. Ele era então um dos raros filósofos franceses a reverenciar Schopenhauer, razão suficiente para que eu o convidasse para uma taça em Cluny: ele bebeu duas cervejas e comeu um sanduíche.

Ele colaborava com o Nouvel Observateur com o pseudônimo de Roger Crémant. Seus artigos iam na contra-mão da esquerda bem-pensante. Ele me dizia que, por ter destruído Wilhelm Reich, estava recebendo centenas de cartas de insulto. Aquilo o divertia muito: era bem um sobrinho do tio Arthur, um dynamitero da filosofia cujos olhos frios e penetrantes desmentiam o ar de barbudo jovial e descontraído.

Nosso segundo encontro aconteceu no Select, em Montparnasse, em 22 de fevereiro de 1983. Ele bebeu novamente duas cervejas e comeu um sanduíche, perguntando-me se eu também não achava Paris mais sinistra do que nunca enquanto resmungava contra o novo regime socialista. Já fazia tempo que ele não mais escrevia para o Nouvel Observateur. Ele era agora professor na universidade de Nice, sem crer muito nisso, com uma obra abundante na qual ele tampouco acreditava. Sinal dos tempos, em contrapartida, começavam a acreditar nele.

Nós falamos de Cioran, que ele me disse, com sua insolência habitual, que achava agradável, mas seus livros um pouco “scrogneugneu”[1]. “Eu não consigo entender”, acrescentou, “que Cioran possa se comprazer com uma música tão caótica quanto a de Brahms. Seu lado ‘música cigana’  me irrita.” Evocou também o livro que corria para publicar: Alegria – a força maior.[2] Ele pretendia abordar aí, num post-scriptum intitulado “O descontentamento de Cioran”,[3] a questão mais grave colocada, segundo ele, pelo autor dos Silogismos da amargura: há aliança possível entre a alegria e a lucidez?

Meu terceiro encontro com Rosset foi em 24 de outubro de 1983, no Select. Eu havia sido encarregado de entrevistá-lo. Tarefa que ele logo tornou impossível retornando a mim cada uma das minhas perguntas com uma risada sarcástica. Enquanto bebia duas cervejas e comia um sanduiche, eu consegui extorquir dele algumas confidências. Eis aqui, então, duas ou três coisas, aparentemente autênticas, em todo caso verificáveis, a respeito de Clément Rosset.

Ele se gaba de ter sido o último da lista a ser recebido na École normale supérieure e também no departamento de filosofia. Eu suspeito que ele tenha sido, na verdade, o penúltimo. Mas deixa pra lá. Aos dezenove anos, quando estava no khâgne (curso preparatório para ingressar na École normale supérieure), em Louis-le-Grand, ele publicou, seguindo o conselho de Jean Lacroix, seu primeiro ensaio: La philosophie tragique. Agora ele diz que o livro apresentava um tom veemente e impudico e continha tudo o que ele desenvolveria em seguida, mas que ele nunca ousou relê-lo.

Na Normale Sup, mantém-se altaneiramente longe de todos os maestros (Althusser, Derrida, Lacan) e pratica sobretudo autores como Montaigne, Pascal ou Nietzsche, aos quais seus professores não concediam o título de filósofo. “Eu não lia gente carimbada e séria como Kant ou Hegel. Invejavam-me por ser um autor da PUF e, ao mesmo tempo, tratavam-me como um amador meio farsante. Fazer filosofia era para mim uma maneira de escrever discretamente sem comprometer o ‘eu’.”

O espírito de seriedade decididamente não é o ponto forte de Clément Rosset. Ele o levou à derrisão em dois panfletos: a Lettre sur les chimpanzés e Les Matinées structuralistes, que lhe renderiam a pecha de reacionário. Reputação confirmada por sua atitude em relação à política: “Jamais”, diz ele, “eu tive qualquer tipo de engajamento político. Ler um jornal basta. O engajamento político é uma palhaçada (pitrerie). Eu sempre tive um horror sagrado a Sartre, que incarna, na minha visão, neste quesito, a inépcia total.”

O caráter neurótico da esperança política não lhe causa a menor dúvida. Uma neurose tipicamente moderna de resto, de que não se encontra vestígio antes do século XVIII. Ele descreve o homem da esperança como um homem vazio de recursos e argumentos, literalmente esgotado, como o indivíduo retratado por Schopenhauer que “espera encontrar nos remédios das farmácias a saúde e o vigor cuja verdadeira fonte é a força vital mesma.”

À esperança, Rosset prefere a crueldade que é sempre uma “marca de distinção”, precisando que se deve entender por crueldade “não um prazer em entreter o sofrimento, mas uma recusa de complacência em relação ao que quer que seja.”

Se a esperança é o pior dos males, se é derrisório pretender mudar a vida, o que resta então? Resposta de Clément Rosset: “Resta, contudo, uma última hipótese: a de uma satisfação total no seio do infinito mesmo, semelhante ao júbilo amoroso descrito por La Fontaine numa célebre fábula (“Seja tudo você mesmo, conte o resto por nada”).

Essa satisfação total conduz diretamente, na melhor das hipóteses, à embriaguez mental, e à soçobra psíquica na pior. Clément Rosset não escapará nem a uma nem à outra.

1]  Interjeição que expressa uma impressão repentina ou um sentimento profundo, como admiração, surpresa, dor, desconforto, etc. Serve também para invocar o interlocutor, ou como fórmula de cumprimento, despedida, conformidade, etc. https://educalingo.com/pt/dic-fr/scrogneugneu

[2] ROSSET, Clément, Alegria – a força maior. Trad. de Eloísa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Relume Dará, 2000. A tradução (ou ao menos a revisão) é tão ruim que o título do post-scriptum saiu como “O desenvolvimento (sic) de Cioran”, sem contar outros erros igualmente graves.

[3] https://emcioranbr.org/2012/10/26/descontentamento-de-cioran/