“A indigência dos corpos” (Paulo Ferrareze Filho)

JUSTIFICANDO, Carta Capital, 14 de janeiro de 2016

O autoabandono é um exercício de liberdade. Fernando Pessoa no Livro do Desassossego atesta: “se não podes estar só, nasceste escravo”. Mesmo esquecido, o mendigo sabe que alguém tratará de não deixá-lo apodrecendo morto por aí. Enterrar o corpo passa a ser, antes de um ritual sagrado de louvor ao cadáver frio, uma faxina urbana do cotidiano. (Paulo Ferrarezze Filho)

Depois que morrem, os mendigos são levados para o IML, que fuça nas gororobas dos corpos e depois os enterra numa vala coletiva.

Mendigos sofrem e têm um certo prazer em abandonar tudo e todos. O tesão deles é se tornar estrangeiro, outsider. Em geral enchem a cara e dormem em qualquer canto. Não tomam banho e matam a fome quando é possível matar a fome. Tocam punheta atrás dos muros, procurando um canto privado em lugares que, em tese, não são privados.

Um mendigo é mendigo, sobretudo, porque não tem uma família. Não ter uma família, em geral, fode as pessoas. E o mendigo é esse cara que não tem família. Ninguém quer saber dele. É um solitário. Vai vivendo fugitivamente sem deixar rastro. Não quer o passado da família, assim como a família não quer o seu presente. Entre o mendigo e a sua família – ou o que sobrou dela – há um combinado não-dito, um acordo de cavalheiros afiançado por fios de bigode. Um contrato não escrito ungido pela gota pura da boa-fé.

Nietzsche escreveu uma frase avassaladora: “onde encontrei algo vivo, ali encontrei vontade de poder.” Ainda que não se deva confundir vontade de poder com narcisismo ou com individualismo, pode-se dizer que um mendigo, buscando o anonimato a todo custo, é alguém que relativiza sua vontade de poder. A vontade-de-aparecer, como desdobramento da vontade-de-poder nietzschiana, esconde, portanto, um desejo instintivo que se ocupa unicamente com seu fim. Adolf Adler [1] disse que Freud não sabia nada com toda aquela história do Édipo e dos desejos sexuais inconscientes entre pais e filhos. Enquanto Freud olhava para trás, pensando que as ações são condicionadas ao passado familiar, Adler pensou no instinto de poder como conjunto de manobras condicionadas por um fim. Uma teoria dos instintos, pode-se dizer, menos mimada.

Se, por um lado, o mendigo é alguém que nega parte da vontade de poder pelo anonimato, por outro, escolher a indigência pode ser uma manifestação do poder de se tornar aquilo que se deseja. Se o “Torna-te o que tu és”, da Antiguidade até Nietzsche, acerta, é preciso perguntar: qual o exercício de poder que faz o mendigo quando resolve sê-lo?

Primeiro, penso o mendigo como um réptil silencioso, masoquista e interior. E também profundo e vadio, que prefere, antes da luz, a escuridão, e o desaparecer ao mostrar-se. Prefere silenciar, e não dizer. O charme do mendigo é estar nos bastidores. O mendigo é comandado pelo pensamento-de-bastidor: o artista que ocupa o palco não é nada! O artista só acontece porque há uma parafernália que o sustenta. E é a qualidade do background que determina a potência do show.

O mendigo se exercita observando. Nelson Rodrigues também observava. Com o seguinte detalhe charmoso: observava pela fechadura da porta. Nelson era um filho da puta charmoso. É, assim como Warat, uma espécie de mendigo intelectual. O mendigo, além de negar o modo de vida regular (casa-trabalho-sono), nega também os ritos fúnebres da morte. Abre mão do choratel melancólico dos velórios. Assim como também passa batido pelo cortejo de gente que vai levando o caixão dentro do cemitério. (Sobre esse cortejo, uma nota rápida: só acredito em igualdade entre homens e mulheres quando as mulheres se oferecerem para carregar o caixão. Ah, e também quando dividirem a conta do motel, com a condição de que ambos tenham gozado).

Mas, voltando ao mendigo, também é notório que ele não liga para o túmulo, nem em ser enterrado ao lado da falecida mãe. Ele quer uma vala comum. Se, aos olhos de todos, a morte é um coroamento, o mendigo é quem nega a coroa. Quer um apagar de luzes imperceptível. Sai, literalmente, de fininho. Mas afinal, o que rejeita o mendigo quando nega o corpo, com suas necessidades vitais e seu enterro final?

Antígona [2] é um relato mitológico sobre o respeito ao corpo morto e todas as honrarias rituais que o acompanham. Quando Etéocles e Polinices se matam mutuamente, lutando pelo trono de Tebas, Creonte, depois de assumir o poder disputado mortalmente pelos dois irmãos, estipula que o corpo de Etéocles deve receber todos as cerimônias. O de Polinices, no entanto, deve ser abandonado aos abutres, funcionando como aviso aos estrangeiros que tentassem se opor ao seu governo. Ainda que o mote da tragédia não seja especular sobre o desejo de Polinices quanto ao destino do próprio corpo morto, a pergunta sobre o desejo pessoal de cada um sobre o próprio corpo morto ainda não foi bem feita. Não se trata de doar ou não órgãos, ou de ser enterrado ou cremado, mas de querer que o corpo seja tratado com indiferença. Há quem possa abrir mão do velório, da totemização do corpo, da sacralização da cruzada de margens da vida para a morte. O corpo de um mendigo assim como o de Polinices, não quer ibope.

Porque buscava o trono, em nada Polinices pode ser comparado a um mendigo. Senão em relação ao desleixo com o próprio corpo que, depois de morto, ficou entregue às ordens institucionais, que sequer indagaram, nem antes, muito menos depois, sobre a destinação do cadáver, que é de propriedade de cada um que o usa em vida. Polinices é diferente de um mendigo porque não imagina, e talvez nem queira, que seu corpo seja deixado a esmo por aí. Já o mendigo, como se sabe, quer que sua carcaça seja descartada como um celular Motorola dos anos 90.

Antígona crava, na consciência coletiva do ocidente, a necessidade idiota de honrar a morte do corpo. A justiça pretendida por Antígona, que roga pelo direito de enterrar o irmão, é a prova do modelo de negação do corpo que sabota (inclusive) o direito desde a Antiguidade. A tragédia de Antígona, ainda que reforce a ambivalência da natureza humana, resvala ao sacralizar o corpo.

Contra o espírito gregário, o mendigo é alguém que morre sem lenço, sem documento e sem o cd do Caetano. O nome, tido como patrimônio imortal de quase todo mundo, é também negado pelo mendigo. O desejo-de-anonimato é a vontade de poder de unir-se à fantasia do Uno. Na cabeça do mendigo, o anonimato é o passaporte para o céu. O anonimato como meio. A miséria do corpo como destino. E a salvação depositada na conta-corrente no último dia de vida. Por TED, claro! Para que alguém possa ganhar seus 14 reais a mais.

O autoabandono é um exercício de liberdade. Fernando Pessoa no Livro do Desassossego atesta: “se não podes estar só, nasceste escravo”. Mesmo esquecido, o mendigo sabe que alguém tratará de não deixá-lo apodrecendo morto por aí. Enterrar o corpo passa a ser, antes de um ritual sagrado de louvor ao cadáver frio, uma faxina urbana do cotidiano.

O persistente louvor ao corpo é a prova final do capitalismo liberal. O direito, quem faz o curso e quem é jurista, deve(ria) saber que hoje, o direito fica de quatro, como uma puta velha e barata, e acaba enrabado pela economia. Há bons livros sobre esse assunto. O que gostaria de deixar registrado é que, boa parte de uma nova consciência sobre o papel do direito pode ser refeita a partir do momento em que, como mendigo, fica-se mais liberado desse apego ao corpo, esteja ele vivo ou morto.

Emil Cioran tem uma reflexão muito acertada, que diz tudo o que não pude dizer: “Entre tanta mentira e tanta fraude é reconfortante contemplar um mendigo. Ele, pelo menos, não mente nem se engana: sua doutrina, se é que a tem, a encarna ele mesmo; não gosta do trabalho e o prova. Como não deseja possuir nada, cultiva seu desprendimento, condição de sua liberdade. Seu pensamento se resolve em seu ser e seu ser é seu pensamento. Sua preguiça, de uma rara qualidade, faz dele um autêntico ‘liberado’, perdido em um mundo de bobos e enganados. Sobre a renúncia, sabe muito mais que numerosas de vossas obras esotéricas.” [3]

Paulo Ferrareze Filho é Doutorando em Direito (UFSC). Mestre em Direito (UNISINOS/RS), Professor Universitário e Advogado.


REFERÊNCIAS

[1] Conforme JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 22 e seguintes

[2] SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: Martin Claret, 2012.

[3] Vou ficar devendo essa referência bibliográfica. Não me processem, vou alegar inocência até o cadafalso.