“A miséria: excitante do espírito” (E.M. Cioran)

Para conservar o espírito desperto, não contamos apenas com o café, a doença, a insônia ou a obsessão da morte; a miséria contribui também em igual ou maior medida: o terror ao dia seguinte, tanto como o da eternidade, os problemas de dinheiro, tanto como os pavores metafísicos, excluem o repouso e o abandono: – Todas as nossas humilhações provêm de que não podemos resolver-nos a morrer de fome. Pagamos caro esta covardia. Viver em função dos homens, sem vocação de mendigo! Rebaixar-se ante esses macacos engravatados, sortudos, enfatuados! Estar à mercê dessas caricaturas indignas até de desprezo! A vergonha de ter que solicitar algo, seja o que seja, excita o desejo de aniquilar este planeta, com suas hierarquias e as degradações que comportam. A sociedade não é um mal, é um desastre: que estúpido milagre que se possa viver nela! Quando a contemplamos, entre a raiva e a indiferença, torna-se inexplicável que ninguém tenha sido capaz de demolir seu edifício, que não tenha havido até agora pessoas de bem, desesperadas e decentes, para arrasá-la e apagar seus vestígios.

Há mais de uma semelhança entre pedir esmolas na cidade e esperar uma resposta do silêncio do universo. A avareza preside os corações e a matéria. Merda de existência miserável!, entesoura as moedas e os mistérios: as bolsas são tão inacessíveis como as profundezas do Desconhecido. Mas, quem sabe?, pode ser que um dia esse Desconhecido se revele e abra seus tesouros; mas nunca, enquanto tenha sangue nas veias, o Rico desenterrará seus denários… Confessará suas vergonhas, seus vícios, seus crimes: mas mentirá sobre sua fortuna; fará todas as confidências, abrirá sua vida: mas não compartilhará seu último segredo, seu segredo pecuniário…

A miséria não é um estado transitório: coincide com a certeza de que, aconteça o que acontecer, nunca terás nada, que nasceste do lado de cá do circuito dos bens, que deves combater para respirar, que é preciso conquistar até o ar, até a esperança, até o sono, e que, mesmo que a sociedade desaparecesse, a natureza não seria menos inclemente nem menos pervertida. Nenhum princípio paterno velou na Criação: por toda parte há tesouros enterrados: eis que surge o Harpagão demiurgo, o Altíssimo avarento e segredista. Foi Ele quem implantou em nós o terror do próximo dia: não devemos espantar-nos que a própria religião seja uma forma deste terror.

Para os indigentes vitalícios, a miséria é como um excitante que tomaram de uma vez por todas, sem possibilidade de anular seu efeito; ou como uma ciência infusa que, antes de qualquer conhecimento da vida, tivesse podido descrever o inferno…

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. São Paulo: Rocco, 2011.