“A-caso, o que não é o caso” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Nenhum conceito filosófico mais instável, em sua tradução do grego antigo, do que o “acaso”. Ao menos desde Aristóteles, “acaso” diz-se de duas formas: Τύχη (týke) e αύτόματον (autómaton).

Týke é também o nome de um divindade, especialmente venerada — e temida — no período helenístico (período definido por E.R. Dodds como “uma era de ansiedade”). Autómaton corresponde à figura-título de um dos aforismos de Breviário de Decomposição, de Cioran: “O autômato“.

Estas duas palavras gregas são tão distintas quanto emparentadas. Não é o caso aqui de esgotá-las etimologicamente. Grosso modo, acaso é o contrário de necessidade, em termos filosóficos, lógicos e ontológicos. Se algo é necessário, se se dá por necessidade, é porque está fadado a ser, acontecer, deste ou daquele modo, e não de outro: “é assim tem de ser assim… não pode ser de outro modo…” [É NECESSÁRIO QUE]

Ser por acaso: ser excepcional, extraordinário, exorbitante, inesperado, infundado, inviável, abundante e escasso. SINGULAR. É fugir à regra, à necessidade, se é que a Natureza fala em termos de “regras”…

O sentido filosófico do conceito de necessidade, bem como da categoria do necessário, não é um sentido eminentemente moral. É antes de tudo ontológico (metafísico). Não se trata de dever-fazer-ser isto ou aquilo, e de dever fazê-lo-sê-lo porque isto ou aquilo é justo ou bom. Não se trata da necessidade de roubar um pão por estar passando fome. Trata-se antes de um princípio, de uma determinação, de una condição cósmica, natural e absoluta, estabelecendo o que é, como é, e o que será, como deverá ser; a pedra não se move por si só, a roseira dá rosas, a vaca gera bezerros, o sol nasce todos os dias, o ser humano é um bicho doido…

O acaso é o conceito-chave de toda filosofia trágica; seu oposto, o conceito de necessidade, é — diria Clément Rosset — a garota dos olhos de toda metafísica naturalista e platônica.  Segundo Roland Jaccard, “o acaso é o maior dos romancistas*“. Se não há efetivamente necessidade nenhuma, “natureza” nenhuma, “mundo” nenhum, “ser” nenhum, “sujeito” nenhum, “substância” ou “essência” nenhuma, o que há é o encontro fortuito de elementos ao acaso, o artifício cego da vida, às vezes produzindo resultados inacreditáveis como as façanhas tecnológicas ou artísticas das quais o homem, esse artifício da Natureza, é capaz. O artista não é menos “natural” do que a Natureza; a Natureza não é menos “artificial” do que o artista.

Desde Parmênides pelo menos,  necessidade pressupõe certeza, exatidão, contornos claros, identidade, idiotia; já o acaso é uma questão de inspirada hesitação, lúcida embriaguez; é a temporalidade dos gagos e dos céticos: claro-escuro, fluidez, indeterminação, vai-saber, de-repente…

Em francês, “acaso” diz-se hasard. É o equivalente etimológico do nosso “azar”, mas um falso cognato: acaso pode ser tanto “azar” quanto “sorte” — neste caso, fortuna, júbilo, abundância. Se há uma única coisa que o acaso não representa, é a certeza, a convicção, a fé, a estabilidade, o conforto… mas também não dá espaço para a ansiedade, a preocupação, o desconforto.

Em espanhol, como em francês, é um falso cognato: azar, distinto de desdicha, mala suerte… Dizer al azar, em espanhol, significa dizer “ao acaso” (em francês, au hasard).

Em inglês diz-se chance (by chance, “por acaso”); outro falso cognato evidente, diferentemente do léxico espanhol, que para nós, lusófonos, tem uma conotação negativa: “chance” sugere forçosamente recurso, possibilidade, saida (poros, em grego, sendo a sua negação “aporia”).

Em alemão, diz-se Zufall, não sem relação com Zerfal. O radical “fal” corresponde, em alemão, ao vocábulo inglês fall: “queda”, movimento descensional, degradativo. Lehre vom Zerfal é a tradução alemã do Breviário de decomposição.

Em italiano é il caso (mas o que para nós é o caso, em italiano não é).

“Acaso”, em português, soa especialmente estranho, “desencontrado”, comparado a outras línguas. Como entender que Τύχη ou αύτόματον se tornaram esta palavra ex-cepcional, marcada pelo prefixo privativo: a-caso (a casu*)?

Como a-teísmo: só pode ser porque ela nega tudo o que se pretende verdadeiro, absoluto, consistente, subsistente, eterno (Deus, o Ser, o Mundo, a Natureza, o Eu), enfim, tudo o que não é o caso (para falar como Wittgenstein).