“Alexis, ou do inconveniente de escrever” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

A ignorância é uma bênção.

(In honoris Maurice Blanchot)

Alexis era um jovem tímido e introspectivo. Diziam que ele vivia no “mundo das ideias”, pensava demais. Não tinha muitos amigos, uma vida social ativa. Gostava de passar todo o tempo livre, quando não estava no escritório trabalhando, enfurnado em casa, com seus livros. Aí sentia-se bem, era o paraíso em meio a tantos livros, amontoados nas estantes, espalhados sobre a escrivaninha e no chão, por toda parte. Aí, Alexis se dedicava ao que lhe mais lhe interessava, o que não significa exatamente o que mais lhe dava prazer: o pensamento, a leitura, a escrita. Seus poucos amigos e sua família viviam reclamando de que ele não tinha tempo nem atenção pra mais nada além do seu universozinho mental, ao qual ninguém tinha a senha de acesso. Suspeitavam que Alexis pertencesse, num grau brando, ao espectro do autismo. Chegavam a acusá-lo de egoísta, alguém que só se importa com seus caprichos intelectuais.

Um dia, sua mãe, que ao visitá-lo apanhava-o invariavelmente imerso em suas leituras e naquele trabalho de uma escrita infinita que não parecia levá-lo a nenhum lugar, sequer proporcionar-lhe algum dinheiro, lhe disse:

— Alexis, eu invejo essa sua vocação para a escrita. Vejo você aí o tempo todo, a bunda grudada na cadeira, escrevendo sem parar, sabendo exprimir seus problemas, suas angústias…

Dona Teresa, mãe de filho único, era uma senhora muito sensível, dada a aflições — certo dolorismo católico de matriz portuguesa. Emocionava-se com tudo, chorava por qualquer coisa. A confissão de sua mãe, apesar da beleza na humildade, apesar de sua ágrafa poeticidade, deixou Alexis pensando, encafifado. Envergonhado. Na cabeça dele, Dona Teresa se equivocava ao invejá-lo daquela maneira (“invejinha branca”, claro está), ao cobiçar aquele suposto “talento” que ele tinha. Ela mesma, que o cobrava por não sair do lugar, por não produzir efetivamente nada, por não escrever e publicar livros para ganhar dinheiro, e que no entanto ficava lá, na sua mísera habitação kafkiana, escrevendo o dia todo não se sabe o quê, nem para quê.

Mal sabia Dona Teresa que Alexis não se entregava às leituras e às escritas porque queria, porque havia escolhido livremente essa ocupação tão desocupada. Aquilo representava para ele a última — e única — alternativa quando nada mais — nenhum trabalho, ofício, prazer — satisfazia-o, realizava-o, convencia-o de sua importância. O que ele fazia não era uma questão de vocação, mas um suplício. Uma espécie de castigo autoimposto, misturado com uma incompreensível satisfação. Deu-se conta então da distância infinita entre a percepção que tinham dele aqueles que estavam do lado de fora, e a sua própria autopercepção interior. Ele se esforçava mentalmente para imaginar a si mesmo como sua mãe, Dona Teresa, o enxergava, mas estava fadado a recair novamente em sua própria e incomparável autopercepção.

Alexis era um jovem angustiado e apaixonado, meio depressivo e meio jovial, que amava ler os filósofos existencialistas e os poetas românticos, Baudelaire e Pessoa em primeiro lugar. Kierkegaard e Nietzsche eram os seus pensadores prediletos. Dostoiévski, O ROMANCISTA. Simpatizava mais com o Camus do que com o Sartre. O que tanto fazia Alexis, perdendo tanto tempo útil com palavras ao vento, com teorias e pretextos para esquivar-se da vida e do mundo real, como pensava sua mãe, e não apenas ela? Ele o admitia para si, e aquele dia o admitiu para Dona Teresa:

— Eu odeio tudo isso: os livros, as ideias, as palavras, os sentidos, os não-sentidos, os seres, os nadas, o vazio, as reticências, os pontos e as vírgulas… Eu odeio tudo isso, e no entanto… não consigo me livrar de nada disso, não posso, nem sei, fazer outra coisa. Estou preso. E, estranhamente, não concebo a liberdade de outra maneira.

— Mas filho, por mais que não entre na minha cabeça… Veja bem, pelo lado positivo: você tem a capacidade, o talento de… Pelo que já li dos seus textos, você leva tanto jeito…

Alexis silenciou, enquanto olhava para sua mãe com um olhar desaprovador, porém amoroso. Não queria continuar aquela conversa. As palavras vindas de sua mãe, como as palavras nos livros e nos textos, feriam-no, martelavam na sua caixa craniana como ecos de um inferno verbal. Ele não queria dar-lhes atenção nem importância. Não queria levar a sério nada do que ouvia. Despediu-se então de Dona Teresa, acompanhando-a até o ponto de táxi, com o pretexto de que precisava ir à padaria comprar mais cigarros. Mas era apenas uma desculpa para tornar a ficar sozinho e concentrar-se, enfim, em suas preciosas ninharias intelectuais.

A visita e a rápida conversa, interrompidas pela impaciência e intolerância de Alexis para ouvir o que não estava em conformidade com suas convicções, lhe deixaram pensativo, inquieto. Precisava escrever, mas não sabia o quê. Alguma coisa. Qualquer coisa. Mas logo a necessidade passou. Agora não mais precisava escrever. O que necessitava mesmo era deitar-se, fechar os olhos, tentar dormir e descansar. A insônia estava no auge aqueles tempos. Quando não conseguia pregar os olhos, de nada servia dormir um sono sem nenhuma virtude restauradora. Sentia-se em frangalhos, um bagaço, um esfolado vivo, um “forçado da pena”, como diz o escritor romeno Emil Cioran. E, no entanto, nunca se sentira mais lúcido, mesmo que estivesse bebendo agora mais do que o habitual; mais “criativo”, mais “produtivo”, ainda que disso tudo não saísse nada em particular, nenhum texto, nenhum livro, nenhuma obra. O que ele se obstinava em fazer parecia-se com uma metáfora da sua vida mesma: magistral des-obra, naufrágio existencial entretido pela magia farmacológica das palavras.

Alexis tentava dormir, mas não conseguia. Queria escrever sobre Dona Teresa, mas também não conseguia. Deu-se conta naquele momento de que, apesar de todas suas reivindicações de uma atitude intelectual existencial e orgânica, não era capaz, como supunha, de escrever senão sobre aquilo que lhe era mais distante, indiferente, abstrato, carente de significação vivida, e jamais sobre o que lhe era mais próximo, familiar, sanguíneo, vital. Era o seu limite, o seu interdito, o seu tabu. A divina agrafia de Dona Teresa, o seu intelectualismo decadente. Ele então desejou trocar de lugar com a mãe, tornar-se Dona Teresa e ceder o seu lugar à ela; ocupar sua posição de angústia silenciosa enquanto ela se comprazeria com suas tristes palavras que nada curam, apenas fustigam as feridas.

Alexis não se levantou da cama, não colocou no papel o que tinha para dizer. Felizmente, conseguiu adormecer, por minutos apenas, e ao despertar teve a impressão de sonhar (ele nunca sonhava!) que, no seu leito de morte, alguém lhe entregava um livro escrito por ele antes mesmo de nascer…