“O Corruptor” (E.M. Cioran)

“Como passaram tuas horas? A lembrança de um gesto, a marca de uma paixão, o fulgor de uma aventura, uma bela e fugaz demência – não há nada disto em teu passado; nenhum delírio leva teu nome, nenhum vício te honra. Passaste sem deixar vestígios; mas qual foi teu sonho?”

– “Queria semear a Dúvida até nas entranhas do globo, impregnar com ela a matéria, fazê-la reinar onde o espírito jamais penetrou e, antes de alcançar a medula dos seres vivos, sacudir a quietude das pedras, introduzir nelas a insegurança e os defeitos do coração. Arquiteto, teria construído um templo à Ruína; predicador, revelado a farsa da oração; rei, hasteado a bandeira da rebelião. Como os homens nutrem um desejo secreto de repudiar-se, teria estimulado em toda parte a infidelidade a si mesmo, mergulhado a inocência no estupor, multiplicado os traidores de si mesmos, impedido multidões de corromperem-se no podredouro das certezas.”

CIORAN, E.M., “O Corruptor”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.