“Verdades de temperamento” (E.M. Cioran)

FRENTE A PENSADORES desprovidos de patético, de caráter e de intensidade, e que se moldam sobre as formas de seu tempo, erguem-se outros nos quais se sente que, em qualquer momento que houvessem aparecido, teriam sido semelhantes a si mesmos, despreocupados de sua época, extraindo seus pensamentos de seu próprio fundo, da eternidade específica de suas taras. Só tomam de seu meio os contornos, algumas particularidades de estilo, alguns aspectos característicos de uma evolução dada. Apaixonados por sua fatalidade, evocam irrupções, fulgores trágicos e solitários, próximos do apocalipse e da psiquiatria. Um Kierkegaard, um Nietzsche, mesmo que houvessem surgido no período mais anódino, não teriam possuído uma inspiração menos fremente, nem menos incendiária. Pereceram em suas chamas; alguns séculos antes teriam perecido nas da fogueira: cara a cara com as verdades gerais, estavam destinados à heresia. Pouco importa que os devore seu próprio fogo ou o que lhes preparam: as verdades de temperamento devem ser pagas de uma maneira ou de outra. As vísceras, o sangue, os mal-estares e os vícios combinam-se para fazê-las nascer. Impregnadas de subjetividade, percebe-se um eu atrás de cada uma delas: tudo se torna confissão: um grito da carne encontra-se na origem da interjeição mais anódina; mesmo uma teoria de aparência impessoal só serve para trair seu autor, seus segredos e seus sofrimentos: não há universalidade que não seja sua máscara: até a lógica, tudo é, para ele, pretexto para a autobiografia; seu “eu” infestou as ideias, sua angústia converteu-se em critério, em única realidade.

CIORAN, E.M., “Verdades de temperamento”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.