“Lágrimas e Santos, versão do diretor” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

A Joan M. Marín

Todo leitor de Cioran sabe que um dos seus livros romenos, após Nos cumes do desespero (1934) e O livro das ilusões (1936) — ambos traduzidos e publicados no Brasil –, é Lacrimi şi Sfinţi [Lágrimas e Santos], cronologicamente o terceiro título no conjunto da obra (publicado na Romênia em 1937).

O que não é muito sabido é que a versão francesa do livro (Des larmes et des saints), traduzido por uma conterrânea e amiga de Cioran, ela também radicada na França, Sanda Stolojan, contém aproximadamente 1/3 do livro original em termos de tamanho.

Imagine assim: Sanda, que conhecia “Lágrimas e Santos” desde a Romênia, um belo dia propôs a Cioran traduzi-lo ao francês. A ideia não o desagradou, muito pelo contrário. Mas havia uma condição: ele participaria de perto e diretamente no processo de tradução, edição, etc. Pobre Sanda, o que não sofreu ela na mão do autor do livro que decidira traduzir…

O resultado final, em francês, foi reduzido a menos da metade do volume original: uma versão fit do livro original, brève comme il faut… Cioran cortou fora longas partes do livro, por razões que ficaremos eternamente curiosos em saber. Recentemente (2017), a editora Hermida, da Espanha, publicou a versão original e integral, sem cortes, de Lacrimi şi Sfinţi, em primorosa tradução de Christian Santacroce, diretamente do romeno.

Então, o que há nesta “versão do diretor” que não consta na edição francesa, e em nenhuma outra tradução (inglesa, italiana, ou mesmo a anterior espanhola)? Muitíssima coisa foi cortada, cumpre repetir, mas a grande incógnita são as razões pelas quais o autor quis eliminá-las.

Duas figuras recorrentes e significativas na versão integral, e que estão ausentes das edições traduzidas de acordo com a vontade do próprio autor, são o místico e poeta sufi Rumi, e a outra é Platão. Ambos os nomes, e suas respectivas obras ou ideias, aparecem recorrentemente na versão original, mas sabe Deus lá porque Cioran decidiu extirpá-los da versão francesa, e consequentemente de todas as outras traduções de Lacrimi şi Sfinţi, menos esta recente edição integral publicada pela Hermida Editores.

Cioran refere-se diversas vezes a Rumi em Lacrimi şi Sfinţi. Na versão francesa, ele não existe. Por exemplo, logo na primeira página: “Jalāl al-Dīn Rūmī: ‘A voz do violino é o ruído que faz a porta do paraíso ao abrir-se’. Com que poderia ser comparado então o suspiro de um anjo?” Ou então:

“Talvez seja que ninguém fez da música ou dança uma via em direção a Deus como o fez Jalāl al-Dīn Rūmī, este santo há tempos canonizado por seus admiradores. Seu encontro com Shams al-Dīn, sábio fantástico, peregrino anônimo, tão insólito e original quanto inculto, possui um estranho encanto. Após se conhecerem, enclausuraram-se por três meses na casa de Jalāl al-Dīn, em Konia, tempo durante o qual não saíram de lá por um instante sequer. Uma certeza irresistível me leva a crer que ali se disse tudo. Naquele tempo, os homens cultivavam os mistérios. Você podia se dirigir quando bem quisesse a um Deus que enterrava os seus suspiros no nada dele. […] A música me deu uma audácia demasiado grande frente a um Deus. É o que me distancia dos místicos orientais…”

O mesmo em relação a Platão. Nenhuma menção ao Filósofo na edição francesa “autocensurada” pelo próprio autor (de fato, uma única, em que o filósofo antigo é coadjuvante ao lado do protagonista Nietzsche). Na versão integral traduzida pela Hermida, temos a surpresa de encontrar amiúde Platão citado e sua filosofia colocada em questão. Cioran cita o diálogo Fedro, nada mais pertinente em se tratando da sua concepção da relação entre filosofia e poesia (trágica sobretudo). Jacques Derrida tem um importante ensaio em que desdobra e problematiza a noção platônica do phármakon, levantando uma série de questões “farmaco-grafológicas” que não poderiam ser mais relevantes em se tratando da obra de Cioran e das razões das quais ela emana.

“Platão lamenta que nenhum poeta cantou ao espaço que se estende mais além do céu, e que ninguém poderá fazê-lo como seria devido. É possível que Platão fosse tão estranho à música? Como sabia, então, que o delírio é uma das grandes bendições do homem? É possível que tal afirmação escapou-lhe sem querer? É muito provável, pois ele mesmo nos diz, no Fedro, que os deuses lhe sussurram.”

Cioran poderia ter escrito o aforismo: “Do pecado de Sócrates (herdado por Platão)” — sobre a tara, o vício, a afetação de ficar se questionando, enquanto canta, enquanto sente a urgência de cantar, a razão do cantar. Por que canto? Por que O Canto? Lembremos da admoestação de “O animal metafísico” (in Breviário): “Repisar o ‘porquê’ e o ‘como’; remontar a todo instante até a causa – e a todas as causas – denota uma desordem das funções e das faculdades, que acaba em ‘delírio metafísico’, caducidade do abismo, degringolada da angústia, última fealdade dos mistérios…” Sócrates, o terrível (deinós) Irônico-Só-Sabe-que-Nada-Sabe, deveria saber que os Cisnes cantam, e apenas isso; não colocam em questão suas razões para cantar, sorte a deles… E Sócrates vai além, transportando para a metáfora zoológica a sua afetação filosófica antropomórfica: os Cisnes, ao aproximar-se a morte, cantam por tristeza ou por felicidade? Eles cantam, oras! Imaginamos o sonho de Sócrates, no qual um Cisne lhe diz: “Canta, porra!”

Entende-se porque a Filosofia pode ser dita uma atividade profanadora de mistérios, uma indiscrição bem-intencionada, uma “impertinência de piolho”. Não surpreende que os Gregos foram campeões em quase tudo: filosofia, poesia, escultura, atletismo, a arte da guerra…  Mas no que concerne à Arte Suprema, pois sumamente imaterial e invisível, não foram mais longe do que isso: são apenas teóricos da Música. Mostre-me um Grego eternizado em nome da Música, e eu retiro o argumento. De Música, os Gregos não entenderam (na prática) nada; talvez porque seja a forma de arte mais próxima do Infinito e do Indeterminado…

Enfim, vê-se que nem só de santidade e mística cristã respira Lacrimi şi Sfinţi, ainda inédito em português (Brasil, Portugal ou qualquer outro país lusófono). O livro trata também da mística oriental (o sufismo de Rūmī), de filosofia clássica (Platão, Aristóteles), de música (Bach, Brahms, Mozart, Beethoven, Händel), literatura (Shakespeare, Dostoiévski), poesia (Baudelaire), pintura (Grünewald, Dürer, Baldung-Grien, Botticelli), sexualidade e erotismo…

E ficamos com o interrogante sobre as razões de Cioran ter suprimido tantas preciosidades de seu livro, ao traduzir-se ao francês. Por que tirar Rūmī, Platão, e tanto mais? Esperamos que tenha uma boa razão. Nunca saberemos. Reprovamo-o por ter-nos privado, durante tanto tempo, dessas obscuras pérolas da alma que só estavam disponíveis em romeno. E agradecemos ao tradutor por essa doce traição...

Post-scriptum: Lacrimi şi Sfinţi é importante, não apenas pelo seu lugar no conjunto da obra, mas também porque apareceu, com muito esforço, no mesmo ano em que Cioran se mandou da Romênia para instalar-se na França. O ediror frouxo decidiu,  de útiima  hora, que não podia publicar aquele livro tão ‘heterodoxo”, tão fora dos padrões. Cioran o publicou por uma editora de fundo de quintal, tão underground, que o livro saiu publicado como Edições Cioran. Blasfemo, demasiado imaginativo, criativo em matéria de ideação místico-religiosa, foi extremamente mal-recebido por todos, desde o pai e a mãe de Cioran (que ficou em maus lençois na associação de senhoras ortodoxas que organizava), até o amigo Mircea Eliade, que — demasiado ortodoxo — não poupou críticas atrozes ao livro. Apenas uma pessoa, uma mulher, Jeni Acterian, amiga e irmã de Arsavir Acterian, ambos de origem armênia, soube entender a sensibilidade e as motivações profundas de Lacrimi şi Sfinţi. Cioran permaneceu perpetuamente reconhecedor da sensibilidade da amiga…