“Obsessão do Essencial” (E.M. Cioran)

QUANDO TODA INTERROGAÇÃO parece acidental e periférica, quando o espírito busca problemas sempre mais vastos, acontece que em seu avanço já não tropeça em nenhum objeto, apenas no obstáculo difuso do Vazio. Desde então, o impulso filosófico, exclusivamente voltado para o inacessível, expõe-se à falência. Quando examina as coisas e os pretextos temporais, impõe-se preocupações salutares; mas se indaga por um princípio cada vez mais geral, perde-se e anula-se na imprecisão do Essencial.

Só prosperam em filosofia os que se detêm no momento oportuno, os que aceitam a limitação e o conforto de um grau razoável de inquietude. Todo problema, quando se toca seu fundo, leva à bancarrota e deixa o intelecto a descoberto: não há perguntas nem respostas em um espaço sem horizonte. As interrogações se voltam contra o espírito que as concebeu: ele se torna vítima delas. Tudo lhe é hostil: sua própria solidão, sua própria audácia, o absoluto opaco, os deuses inverificáveis, e o nada manifesto. Infeliz daquele que, chegado a um certo momento do essencial, não se deteve! A história mostra que os pensadores que subiram até o final pela escada das perguntas, que puseram o pé no último degrau, o do absurdo, só legaram à posteridade um exemplo de esterilidade, enquanto que seus colegas, que pararam no meio do caminho, fecundaram o curso do espírito; serviram a seus semelhantes, transmitiram-lhes algum ídolo bem trabalhado, algumas superstições polidas, alguns erros disfarçados de princípios e um sistema de esperanças. Se tivessem abraçado os perigos de um progresso excessivo, esse desdém dos equívocos caridosos os tornaria nocivos aos outros e a si mesmos; teriam escrito seu nome nos confins do universo e do pensamento, investigadores mal-sãos e réprobos áridos, amantes de vertigens infrutíferas, buscadores de sonhos que não é lícito sonhar…

As ideias refratárias ao Essencial são as únicas que têm poder sobre os homens. Que poderiam fazer em uma região do pensamento onde periga mesmo quem aspira a instalar-se nela por inclinação natural ou sede mórbida? Não se pode respirar em um domínio estranho às dúvidas habituais. E se certos espíritos situam-se fora das interrogações convencionais, é que um instinto enraizado nas profundidades da matéria ou um vício produzido por uma enfermidade cósmica apoderou-se deles e os conduziu a uma ordem de reflexões tão exigente e tão vasta, que a própria morte lhes parece sem importância, os elementos do destino tolices e o aparato da metafísica, utilitário e suspeito. Esta obsessão de uma fronteira última, este progresso no vazio acarretam a forma mais perigosa de esterilidade, comparada à qual o nada parece uma promessa de fecundidade. Aquele que é difícil no que faz – em sua tarefa ou em sua aventura – só tem que transplantar sua exigência do acabado ao plano universal para não poder acabar sua obra nem sua vida.

A angústia metafísica provém da condição de um artesão sumamente escrupuloso, cujo objeto não seria outro senão o ser. De tanto analisar, chega à impossibilidade de compor, de terminar uma miniatura do universo. O artista que abandona seu poema, exasperado pela indigência das palavras, prefigura o mal-estar do espírito descontente no conjunto do existente. A incapacidade de alinhar os elementos – tão desprovidos de sentido e de sabor como as palavras que os expressam – leva à revelação do vazio. Por isso o versificador retira-se ao silêncio ou aos artifícios impenetráveis. Ante o universo, o espírito demasiado exigente sofre uma derrota semelhante à de Mallarmé frente à arte. É o pânico ante um objeto que não é mais objeto, que não se pode mais manejar, pois – idealmente – ultrapassaram-se seus limites. Os que não permanecem no interior da realidade que cultivam, os que transcendem o ofício de existir devem ou pactuar com o inessencial, voltar atrás e integrar-se na eterna farsa, ou aceitar todas as consequências de uma condição separada, e que é superabundância ou tragédia, conforme a olhemos ou a soframos.

CIORAN, E.M., “Obsessão do Essencial”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.