Paris, 25 de novembro de 1978

Caro Senhor,

O pensamento freudiano é fundamentalmente “anti-utópico”, você diz. É em virtude da sua visão lúcida do futuro que Freud sempre me interessou. De resto, eu amiúde me pergunto como alguém tão clarividente assim pode ter elaborado uma terapêutica, como sobretudo ele pôde crer em qualquer forma de cura que seja. Os grandes espíritos têm o seu lado ingênuo…

Lendo o seu livro, eu compreendi que a minha juventude, na Europa central após o declínio dos Habsburgo, foi vivida à sombra de Krafft-Ebing, de quem, mesmo agora, eu não me libertei por completo. O caso de Anna é impressionante e a interpretação de Laing, legítima. Afinal de contas, Bodhidarma, o introdutor do budismo na China, ficu parado imóvel diante de uma parede por nove anos. É verdade que a psiquiatria não ainda não fazia estragos. É com ela que começa a nossa decadência.

O choque de que você fala na página 104, eu o experimento cada vez que pego o metrô, que digo? desde que eu assombro o Ocidente; há quarenta anos vendo esses “esquizos apagados” [schizos éteints], tenho a impressão que os leva ao abatedouro, que a sua sorte está selada. E está, devemos reconhecê-lo.

L’Exil intérieur, apesar do ar impessoal, abunda em confissões indiretas. Seu excelente título está, portanto, justificado.

Cordialmente,

E.M. Cioran

JACCARD, Roland. Cioran et compagnie. Paris: PUF, 2005.