“Odisseia do rancor” (E.M. Cioran)

Não podemos nos exaltar nem desempenhar um papel nesse mundo sem o auxílio de alguma doença, e não existe dinamismo que não seja sinal de miséria fisiológica ou de devastação interior. Quando conhecemos o equilíbrio, não nos apaixonamos por nada, não nos apegamos nem à vida, porque somos a vida; se o equilíbrio se rompe, em vez de identificar-nos com as coisas, só pensamos em subvertê-las ou em modificá-las. O orgulho emana da tensão e da fadiga da consciência, da impossibilidade de existir ingenuamente. Ora, os doentes, nunca ingênuos, substituem o fato pela ideia falsa que fazem dele, de modo que suas percepções, e até seus reflexos, participam de um sistema de obsessões tão imperiosas que não conseguem deixar de codificá-las e infligi-las aos outros, legisladores pérfidos e irascíveis que se dedicam a tornar obrigatórios seus males para atingir aqueles que têm a audácia de não compartilhá-los. Se os homens sãos se mostram mais complacentes, se não têm nenhuma razão para ser intratáveis, é porque ignoram as virtudes explosivas da humilhação. Aquele que a experimentou não a esquecerá jamais, e não descansará até transferi-la para uma obra capaz de perpetuar seus tormentos. Criar é legar seus sofrimentos, é querer que os outros mergulhem neles e os assumam, impregnem-se deles e os revivam. Isso é verdade para um poema e pode ser verdade para o cosmos. Sem a hipótese de um deus febril, obcecado, sujeito a convulsões, embriagado de epilepsia, não poderíamos explicar este universo que em tudo traz as marcas de uma baba original. E adivinhamos a essência desse deus quando nós mesmos experimentamos um tremor semelhante ao que ele deve ter sentido nos momentos em que lutava com o caos. Pensamos nele com tudo o que em nós é contrário à forma ou ao bom-senso, com nossas confusões e nosso delírio; nos aproximamos dele através de súplicas que nos deslocam, pois ele fica próximo de nós toda vez que algo, em nós, se rompe e que, à nossa maneira, também enfrentamos o caos.

CIORAN, E.M., “Odisseia do rancor”, in História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.