Bendito aquele tempo em que os solitários podiam explorar seus abismos sem parecerem obsessos, dementes. Seu desequilíbrio não estava afetado por um coeficiente negativo, como é o nosso caso. Sacrificavam dez, vinte anos, toda uma vida, por um pressentimento, por um relâmpago de absoluto. A palavra “profundidade” só tem sentido se aplicada às épocas em que o monge era considerado o exemplar humano mais nobre. Que esteja em vias de desaparição, ninguém questionará. Há séculos limita-se a sobreviver. A quem se dirigiria num universo que o tacha de “parasita”? No Tibete, único país em que ainda contava para alguma coisa, foi deixado de lado. Contudo, era uma rara consolação pensar que milhares e milhares de eremitas podiam estar lá meditando, hoje, sobre os temas do Prajñāpāramitā. Mesmo que só tivesse aspectos odiosos, o monacato valeria sempre mais do que qualquer outro ideal. Mais do que nunca, dever-se-ia construir monastérios… para os que creem em tudo e para os que não creem em nada. Aonde fugir? Não existe mais canto algum onde se possa execrar profissionalmente este mundo.

CIORAN, E.M., “Paléontologie”, in Le mauvais démiurge. Paris: Gallimard, 1969.