“Pode algum compositor igualar-se a Bach?” (Clemency-Burton Hill)

BBC, 17 de setembro de 2014 (“Can any composer equal Bach?”)

Quase 300 anos após sua morte, Johann Sebastian Bach continua sendo o padrão-ouro da música clássica. Clemency-Burton Hill explora a razão disso.

No programa do café-da-manhã da Rádio BBC 3 nós temos uma seção chamada Bach antes das 7. Toda manhã semanal, antes das 7 da manhã, nós tocamos uma peça de Johann Sebastian Bach – normalmente alguma coisa pedida por nossos ouvintes, que sintonizam a rádio ao redor do mundo. É inconcebível que outro compositor pudesse tomar o lugar de Bach naquele espaço. Nem mesmo Mozart ou Beethoven conseguiriam. E, quanto a outros gigantes do cânone musical, Monteverdi, Brahms, Schubert, Mendelssohn, Wagner, Mahler, Shostakovich, Bartok: esqueça. Ao longo do meu programa, entre as 6:30 e as 9:00, eu certamente tocarei muitos destes e, de fato, dezenas de outros compositores de todos os diferentes períodos e estilos, de Adès a Zemlinsky. Mas é Bach, e somente Bach, que poderia garantir seu próprio espaço diário.

Isto não significa dizer que J. S. Bach seja o compositor favorito de todo mundo – é claro que não. Mas ele é o compositor definitivo. Tentar explicar o porquê é uma tolice: é como a famosa citação atribuída a muitos, de que “escrever sobre música é como dança sobre arquitetura”. É difícil pensar em um cérebro mais refinado que o de Albert Einstein, e foi ele quem proclamou, celebremente: “O que eu tenho a dizer sobre a obra de Bach? Ouvir, tocar, amar, adorar… ficar calado!”

Bom conselho. Só o estou ignorando porque muitas pessoas que eu conheço, de todos os lugares da vida, e que são tocadas por Bach de forma inata e imediata, perguntam-me: o que é que ele tem? Por que a música dele faz isso – e como? Como nos invade, nos transforma? Então, eis algumas razões pelas quais considero que ele é o patrono da música clássica. De toda música.

Humanidade e divindade

A compreensão instintiva de Bach da natureza humana, suas habilidades retóricas e seu talento inato como dramaturgo não ficam atrás de ninguém. Vivendo de 1685 a 1750, ele não tinha escolha senão compor música para a glória de Deus, e, ao mesmo tempo, tudo o que há de mais humano – amar, perder, rir, ser traído, trair, ser quebrado em pequenos pedaços ou sentir-se tão completo que se poderia voar – está presente. Conflito, amizade, desespero, alegria: sua música engloba o que eu só posso descrever como a “totalidade de tudo”. Nem Shakespeare se compara.

John Eliot Gardiner, condutor inigualável de Bach e autor da recente e excelente biografia Music in the Castle of Heaven (“Música no Castelo do Céu”), brinca que Bach é como mergulhar. “Entrar na música de Bach tem esse sentido de alteridade: é outro mundo que se adentra, como intérpretes ou ouvintes”, disse-me ele em uma entrevista recente. “Você coloca sua máscara e descende em direção a um mundo psicodélico com uma miríade de cores.”

Gardiner também faz uma observação convincente sobre a música e a fé de Bach. Porque quando você escuta algo tão lindo, não é difícil imaginar como pode ter sido feito por um mero mortal. Gardiner é um agnóstico, mas admite sentir-se perto de tornar-se um cristão quando toca Bach. “É irresistível em sua persuasão”, admite ele. “Não posso negar que mesmo se minha razão lógica diz ‘não’, meu espírito, minha alma diz: isto só pode vir de alguém que possui um sentido totalmente acreditável da divindade e da futilidade da existência humana; estas são aspirações necessárias para dar sentido a nossas vidas…”

A música de Bach foi feita sobre a fé, mas a transcende. Ele humaniza a teologia luterana de sua época e a torna acessível. Ele a faz comunicar-se às pessoas de todas as crenças, e de nenhuma. Gardiner reconhece que os conflitos de Bach em relação à fé, explorados em sua música, fazem de suas peças sagradas menos didáticas, menos doutrinárias que outras. Considere-se, por exemplo, o “passo campesino da Missa em B menor, em oposição aos anjos tênues de de Handel, que desaparecem no éter.” Este elemento terreno na espiritualidade épica de Bach é “um paradoxo maravilhoso. Há tanta sabedoria. É real.”

Bach sofreu perdas pessoais devastadoras, e sua música, muito embora saturada de lamento, é de alguma maneira sempre consoladora. Isto é particularmente verdadeiro em relação a suas mais de duzentas cantatas, uma suíte surpreendente que forma o centro de seu universo musical.

Como a soprano Nancy Argenta dissera, “Bach pode ser muito confortante. Quando você está se sentido esgotado, você precisa de Bach, não de Beethoven, para te relaxar. Ele tem uma calma que faz as pessoas sentirem que está tudo bem com o mundo, que tudo ficará bem.

O primeiro rockstar?

Helmut Rilling, outro excelente condutor de Bach, pensa que só agora a verdadeira extensão do gênio de Bach está se tornando evidente. Quando indagado pela revista Gramophone “se Bach é o melhor”, ele respondeu: “Bach foi o grande consolidador, sintetizando o melhor do que havia sido feito até então, refinando as melhores ideias de seu próprio tempo.” E não basta simplesmente olhar para as criações de Bach isoladamente. “Ele é o professor por excelência”, afirma Rilling. “Sua música influenciou toda geração posterior de compositores e músicos – uma herança que continua até hoje. Meu amigo Krzysztof Penderecki me disse que, sem Bach, ele nunca teria composto sua Paixão de São Lucas.”

Isso vai muito além de Penderecki e da música clássica de vanguarda: a influência de Bach sobre o jazz, o soul, o hip-hop e praticamente qualquer gênero musical do século XX é tributário dele. Às vezes isso fica evidente, como na faixa “Everything’s gonna be alright”, do grupo de hip-hop Sweetbox, que sampleia diretamente a suíte no. 3 para orquestra; às vezes, é um pouco mais oblíquo, como na aparente apropriação de “Komm, Süsser Tod” pela banda de death metal sueca Dismember, em sua faixa Life, another shape of sorrow”.

Quando eu perguntei ao pianista James Rhodes, recentemente, porque Bach era o maior, ele respondeu muito sucintamente: “Eis um homem que ficou órfão aos 10 anos, que perdeu 11 de seus 20 filhos ainda na infância ou mesmo ao nascimento, cuja primeira esposa, e amor da sua vida, morrera de repente”, ponderou. “Então, lá está Bach, mergulhado em tristeza, indo para a cama com suas admiradoras no mezanino do órgão; um rock star briguento, encrenqueiro e beberrão, com uma ética de trabalho que faria o Obama parecer um vagabundo, e produzindo música que, 300 anos depois, ainda nos inspira, desconcerta e lança a uma quarta dimensão da existência.”

Eu tenho tentado definir meu kit Bach para iniciantes – as peças-chave para a quarta dimensão que enriqueceriam e inspirariam o dia-a-dia de qualquer pessoa. Eu diria, que tal o Concerto para dois violinos, segundo movimento? Mas talvez devesse ser o segundo movimento do Concerto para violino e oboé, em vez disso? Definitivamente, escute a Paixão de São Mateus, pelo menos a abertura; e este coro de São João. E obviamente  o Sanctus da Missa em B menor. Então, você teria de incluir o Chaconne da Partita para violino em D menor; o Prelúdio desta composição e o Andante desta aqui. Oh, e que tal este concerto Brandenburg? Daí precisaríamos, é claro, deste prelúdio e fuga de Cravo bem-temperado. E que tal o fato de que há ao longo das épocas incalculáveis e maravilhosas interpretações destas peças?

Eu desisto. Como Einstein, vou me calar e deixar a música de Bach falar por si só. É sempre um presente divino para a humanidade. Escute, toque, ame, adore – e seja transformado para sempre.

Traduzido por Rodrigo Inácio R. Sá Menezes