“Cioran e o grande estilo” (Stéphane Barsacq)

CIORAN, que não se entrega a mais nada, entregou-se ao francês. “Pensar em francês é apartar-se do caos, de tudo o que ele aporta de riquezas e de surpresas”, escreve ele, lembrando que se refere mais do que tudo à clareza francesa. Ele faz sentir a embriaguez, em que se compraz com o mundo. Apanharam-no. Possuem-no. O seu uso da língua o distingue contudo por um movimento contraditório. Quanto mais escreve, mais ele fragmenta; quanto mais se aperfeiçoa, mais ele é breve. À impossibilidade de um sentido, responde com a rarefação da expressão. Aí onde ele mais nega, excede-se na perfeição. Não lhe agrada empregá-la na duração — mas no silêncio.

Essa tensão não carece de relação com a escolha  de Cioran de escrever no grande estilo — aquele que vincula a Fronda a Joubert –, numa época que o recusa, e que, à lucidez pessoal, prefere muito frequentemente as trapaças coletivas. Os príncipes da época — Louis Aragon, Jean-Paul Sartre — escreviam para uso da massa, para agradá-la e para fazê-la desejá-los. Cioran, que não escrevia para ninguém, escolheu escrever com o jeito de um senhor do Antigo Regime. Para um exilado romeno, era uma provocação em todos os sentidos.

Sabe-se que a Revolução francesa cristalizou certas formas: as formas poéticas, com o respeito dos gêneros, da língua, do ritmo; as formas retóricas, com todo o arsenal da alegoria, da perífrase, da descrição e do didatismo; as formas de pensamento, com a expressão do materialismo e do deísmo. Ao que deve ser acrescentado que a especificidade da literatura após a Revolução francesa deriva do fato de que ela prendeu-se a outra coisa que ela mesma: a política assume a partir de então. “Mongol exterior”, Cioran viu que lhe era necessário ir mais alto, para durar.

Mas, apesar de que detona fazendo um som antiquado — um som que não tem nada da velha França –, Cioran é antes de tudo moderno, em razão mesma dessa démarche. À medida que ela se torna aforística, sua escritura cumpre um inacabamento que assinala a impossibilidade do sentido, o engano de uma reintegração na ordem consumada. O relâmpago de uma entrevisão, Cioran deixa pensar que o mundo poderia ser perfeito: uma esperança apoiada contra o desamparo. Mas a nobreza dos Antigos não pode ser reencontrada; ela nos é interdita. Restam agora o humor, o riso, a dúvida.

BARSACQ, Sthéphane, Éjaculations mystiques. Paris: Seuil, 2011.