QUE NOSSA ALMA MORRA DE ENTUSIASMO; que todos morramos de entusiasmo. Que o ímpeto de viver seja irresistível e que o inflame o desespero. Que nossa missão se acabe em uma última palpitação, na grande palpitação de nosso entusiasmo. Se não morremos de entusiasmo, nenhum de nós terá vivido. Que esse entusiasmo se transforme em intensidades musicais e abraços de eternidade no instante; e o infinito do mundo em um infinito de sensações. E que nosso entusiasmo seja tão grande que nos sintamos nus diante de nós mesmos: choremos por ter podido esperar um tal instante.

Que tudo quanto vivamos sejam preparativos e degraus que conduzam ao entusiasmo supremo. Muitas vezes teremos de morrer de entusiasmo, e durante nossos entusiasmos, para que um último entusiasmo negue a vida chegada a seu apogeu.

Fixemos o olhar no infinito e carreguemos de eternidade nossos pensamentos; que o corpo vibre como uma corda e que todos os órgãos, como tomadas de ocultas harmonias, nos liguem com os grandes mistérios. E morramos de tanto entusiasmo, de modo que nossa morte seja a do mundo.

Que nosso entusiasmo seja tão grande que sua irrupção nos impeça de continuar pensando. Que sua fúria vulcânica vertiginosamente nos atravesse e nos domine para que suas palpitações preencham os vazios onde se deleitam os pensamentos. Pois são nos vazios vitais que nascem os pensamentos, e a falta de entusiasmo provoca sua liberdade. Mas nosso entusiasmo há de ser tão irresistível que, arrastados por seu turbilhão, não seja possível pensar nunca mais. Os arrebatamentos da vida nos são demasiado preciosos para não pisotear tantas ideias claras e estéreis.

E, quando os pensamentos surgirem na periferia de nosso entusiasmo, demos vida a eles na febre e os dissolvamos tumultuosamente no turbilhão chamejante do entusiasmo.

E, se não quereis ver no entusiasmo vossa única riqueza, aprendei então a pensar na febre, a ter pensamentos ardentes, a extrair vapor das ideias. Que a febre seja a condição natural de vossos pensamentos. Vosso entusiasmo nunca os fará descer até o conhecimento, e vossos êxtases os impedirão de buscar fora o que podeis ganhar em vosso interior. Os cansaços do entusiasmo não fazem mais do que torná-los objetivos. E que, no caminho do êxtase, os pensamentos sejam só simples extravios.

Que vossos entusiasmo engula os mundos e, como em um beijo, confunda-os em estreito abraço com o ser e o infinito. Que ocultos desejos explodam em abraços totais e que um mundo fecunde vosso desejo. Que vossos apetites sejam demiúrgicos e vossa paixão, uma sexualidade cósmica. Que a semeadura coroe vosso gesto e que vosso instinto faça florescer e frutificar mundos novos. E, alegres em meio a vossos frenéticos desejos, esqueçais a grande repulsa, a tentação do distanciamento sem saída, da separação sem retorno. Guardai-vos da grande repulsa, dos momentos pútridos, fugi dos momentos que vos fecham os caminhos do ser. Pois a grande repulsa é a amargura que sufoca o êxtase do ser, que nos impede de perder-nos em tudo e de que tudo se perca em nós. Explodi em fecundações, irmãos! Que vossos pensamentos sejam semeados e que, em sua fertilidade, esqueçais as tentações da grande repulsa. Que vosso entusiasmo seja uma fecundação contínua e que, ao gerar novos mundos, por cima das tentações de vosso abismo, abrace toda a natureza para beijá-la ou para tudo.

Não se tornaram mares de lágrimas essas tristezas que hoje são nossas alegrias? Não brilham em nós as tristes claridades de outras vezes? E não nos inundam mares de lágrimas que cobrem com sua preamar a amarga repulsa, a secura de nosso ser? Estamos enfeitiçados por tantas lágrimas que nascem em nós e se estendem como vastas serenidades, estamos encantados por tantos crepúsculos que se tornam auroras. Por acaso não temos lágrimas para tudo, não nos embriagamos de irresistíveis claridades que derramam e gotejam sobre nós com transparente fluidez tantas tristezas que se tornaram alegrias, não estão nossos êxtases cheios de lágrimas e não nos inunda esse avesso do fogo? Onda de lágrimas se levantam dentro de nós, e nós mesmos somos um mar de lágrimas. Em um fluir interminável vamos gotejando nossas tristezas sublimadas, e as lágrimas escorrem para as origens de nossas alegrias. E cada lágrima derramada é uma alegria perdida.

CIORAN, Emil, O livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.