“Por uma Musicontologia do Soar” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

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No hay banda. (David Lynch)

Os Gregos antigos inventaram a nossa Filosofia. Nesta área, são — pré-Socráticos, Platão, Aristóteles, Estoicos, todo o Panteão — imbatíveis, inigualáveis. Cioran pensa que só os Gregos foram “fodões”, todo o resto é mera repetição (e expõe suas predileções): “Sem querer buscar modelos, creio que só os Gregos foram verdadeiros filósofos, viveram a sua filosofia. Por isso sempre admirei Diógenes e os Cínicos de modo geral. Essa unidade desapareceu posteriormente. Para mim, a Universidade aniquilou a Filosofia.” (Entretiens)

Cioran não fala muito dos Gregos (Platão, Aristóteles, etc.), não costuma citá-los, comentá-los, revisá-los, diferentemente de seu antecessor, filólogo de formação, Friedrich Nietzsche. Quanto mais distanciados no tempo, mais escassos são os nomes pessoais que aparecem na obra de Cioran. Mas acontece às vezes: Platão é admirado pela virtude poética e composição dramática de seus diálogos; Aristóteles é repudiado por ele (como ademais Hegel) como um “escravizador do espírito”. Para Cioran, os Antigos fazem parte de um contexto, uma cultura, uma forma de vida que não devemos ter a esperança ingênua de reviver. Platão não pertence ao século XX, ou ao XXI. Apesar da aspiração trans-histórica de (quase) toda Filosofia, Platão pertence ao mundinho (província) ateniense que lhe é familiar, mais de 2.000 anos atrás. Platão hoje tomaria Prozac e gastaria fortunas para deitar em divãs de psicanalistas. Toda filosofia é “filha” — ou, no caso da nossa, aborto — de sua própria época.

Vem dos Gregos o nosso paradigma comumente aceito de que o sentido visual, a visão, o olhar, é o correspondente físico mais perfeito do conhecimento puramente intelectivo a que corresponde à Filosofia. A Filosofia herda da cultura grega arcaica a noção correlativa entre ver e saber: Oidé pode significar tanto “eu vi” (testemunho ocular) quanto “eu sei” (um saber não meramente ocular, mas filosófico, epistêmico, “científico”). De oidé deriva tanto eidos (ideia, “vísivel” apenas para o intelecto) quanto, por privação, Hades (“invisível”).

Aristóteles deixa claro, no início da sua Metafísica, que a visão é o sentido mais relevante, em se tratando do saber filosófico, acima de todos os outros sentidos, pois a visão seria o sentido que mais detalhes, riqueza, profundidade, perfeição de dados externos é capaz de perceber; mais do que todos os outros sentidos. Qual a evidência, a necessidade lógica dessa afirmação, se alguma? É muito provável que encontremos, nas quatro partes do mundo, culturas outras que não preconizam necessariamente a visão, o olho, como o sentido supremo em se tratando de Filosofia. Por que não o ouvido, a escuta?

Pelo seu culto do visual, do imagético, do óptico em detrimento de todo outro sentido, não é difícil de entender, ou começar a entender, a razão pela qual os Gregos, tão excelentes na abstração, no conceito, na dialética, e não apenas na Filosofia, mas em tantas outras expressões do gênio criativo humano, inclusive nas Artes, como a escultura, a poesia, etc., são tão nulos em matéria de prática e experiência musical.

Refiro-me não à teoria da música e da harmonia, mas à poiesis concreta e efetiva da Música. Os Gregos tinham a vocação de ver a Musica Universalis, mas não tinham o prazer habitual de entregar-se às composições musicais de fato. Eram demasiado filósofos para serem músicos. Compunham e disputavam muitos discursos escritos ou falados, mas nenhuma composição musical. “Só uma vida examinada é uma vida bem vivida”, dizia Sócrates. Ora, não se pode dizer o mesmo sobre a Música. Examine-a, analise-a, quanto mais o fizer, mais a Música não passará de um fenômeno, um tópico, uma questão filosófica dentre (tantas) outras. E a Música, propriamente dita, como fica? Não fica. Os Gregos não tem ouvidos, apenas olhos; ou, para não soar tão absolutista, têm muita visão (“além do alcance”), mas têm tão pouca audição e vocação de auscultação que são praticamente surdos.

Uma pena. E imaginar uma civilização não da visão, não do logos, não da razão, mas uma civilização fundada na auscultação, no tonus, no complexo do espírito que não é só razão, mas sentimento, afeto, emoção, ouvido, orelha, olho musical…

Seria preciso desaprender muita coisa; e aprender muitas outras, para as quais dificilmente encontraríamos livros ou professores adequados. Aprender a nada ver, a perder de vista os objetos, a cegar-se e estar cego; desaprender a correlacionar todos os objetos, processos, movimentos, acontecimentos interiores da Razão a metáforas visuais, senão auditivas.

Pensar não em termos de (com) palavras, mas com sons, tons, melodias, modelos rítmicos, acordes, notas musicais… Mas esta não é a nossa linguagem ordinária de comunicação pragmática.

Em Dó-Re-Mi-Fa-Sol-Lá-Si-Dó encontra-se, elementar e essencialmente, toda Metafísica necessária e possível…

e a lira parada, no canto, quebrada, empoeirada, silenciosa.