E foi então que na plenitude da vida, em 1879, Nietzsche teve um colapso físico e mental e chegou à beira da morte. Preparou-se para o fim, audaciosamente: “Prometa-me”, pediu ele à sua irmã, “que, quando eu morrer, somente meus amigos ficarão à volta do meu caixão e não a multidão de curiosos. Não deixe que nenhum sacerdote ou qualquer pessoa profira falsidades junto ao meu túmulo, quando eu não puder mais me defender, e deixe-me descer à cova como um pagão honesto.” Mas ele se recuperou e esse heróico funeral teve que ser adiado. Dessa doença veio seu amor à saúde e ao sol, à vida, ao riso, à dança e à “música do sul”, de Carmen; dessa doença veio-lhe também uma vontade mais firme, nascida do combate contra a morte, um espírito de conformidade que sentira a doçura da vida mesmo na amargura e na dor; e dela, ainda, veio um esforço enternecedor de alcançar a aequanimitas de Espinosa, a aceitação alegra das limitações naturais e do destino humano. “Minha fórmula de grandeza é Amor fati: … não apenas suportar com coragem as necessidades, mas fazê-lo com amor.” Isso, porém, é mais fácil de dizer do que de fazer.

Os títulos de seus livros seguintes — Aurora (1881) e A gaia ciência (1882) — refletem uma convalescença grata; temos aqui um tom mais bondoso e uma linguagem mais suave do que nos livros que se sucedem. Passou um ano tranquilo, vivendo modestamente da pensão que a universidade lhe dera. O orgulhoso filósofo pôde até degelar-se e viu-se subitamente apaixonado. Mas Lou Salomé não o amava, os olhos dele eram penetrantes e profundos demais para transmitir tranquilidade. Paul Ree era menos perigoso e representou o Dr. Pagello contracenando com o De Musset de Nietzsche. Nietzsche fugiu desesperado, compondo pelo caminho aforismos contra as mulheres. Ele, na realidade, era ingênuo, entusiasmado, romântico e terno. Sua luta contra a ternura era uma tentativa de exorcismar uma virtude que lhe causaria uma enorme decepção e uma ferida de que nunca se curou.

Ele agora não conseguia encontra uma solidão suficiente: “é difícil conviver com os homens porque o silêncio é difícil.” Foi da Itália para o cimo dos Alpes, em Sils-Maria no Alto Engandine — sem ter amor a nenhum homem nem a nenhuma mulher e rezando para que o homem fosse sobrepujado. E lá, naqueles cumes solitários, veio-lhe a inspiração de seu mais importante livro.

Sentei-me lá a aguardar — a aguardar nada,
Apreciando, além do bem e do mal, ora
A luz, ora a sombra; Havia apenas
O dia, o lago, o sol alto, o tempo sem fim.
Então, meu amigo, de repente um passou a ser dois
E Zaratustra passou por mim.

E, sua “alma subiu e transbordou em todas as margens”. Havia encontrado um novo mestre — Zoroastro; um novo deus — o Super-homem; e uma nova religião — a repetição eterna: ele não podia deixar de entoar um canto — a filosofia transformou-se em poesia sob o ardor de sua inspiração. “Eu poderia entoar um canto e o entoarei, ainda que esteja sozinho numa casa vazia e tenha que cantá-lo para os meus próprios ouvidos.” (Que tremenda solidão está contida nesta frase!) “Ó Vós grande estrela! — qual seria a vossa felicidade se não fosse por aqueles para quem brilhais? …Eis aí! Estou fatigado da minha sabedoria, tal como a abelha que junto mel demais; preciso de mãos que se estendam para ela.” Escreveu então Assim falou Zaratustra (1883) e terminou-o naquela “hora santa em que Ricardo Wagner entregou o espírito em Veneza”. Essa obra foi sua magnífica resposta a Parsifal, mas o criador de Parsifal estava morto.

Esse trabalho era sua obra-prima e ele o sabia. “Esta obra está isolada”, escreveu sobre ela, mais tarde. “Não mencionemos os poetas. Talvez nada se produziu com uma tal superabundância de força… Se todo o espírito e toda a bondade de cada grande alma fossem reunidos, não poderiam criar nem uma só das dissertações de Zaratustra.” Um leve exagero! Mas é, com certeza, um dos grandes livros do século XIX. No entanto Nietzsche teve que lutar muito, até vê-lo impresso; a primeira parte ficou atrasada porque as máquinas do editor estavam ocupadas com uma encomenda de 500.000 livros de hinos e depois com uma torrente de panfletos anti-semitas. O editor recusou-se a imprimir a última parte por ser totalmente sem valor do ponto de vista comercial e o autor teve de pagar a impressão de seu próprio bolso. Venderam-se quarenta exemplares do livro, sete foram dados de presente e um dos que o recebeu enviou seus agradecimentos, mas ninguém o elogiou. Nunca um homem esteve tão sozinho.

DURANT, Will, A filosofia de Nietzsche, in col. “Os Grandes Filósofos”. Trad. de Maria Theresa Miranda. São Paulo: Ediouro, s/d