“Os deuses ocultaram o que faz viver os homens.” (Hesíodo)

UMA DAS MARCAS mais seguras da alegria é, para empregar um qualitativo com ressonâncias desagradáveis sob vários aspectos, seu caráter totalitário. O regime da alegria é o do tudo ou nada: não há alegria senão total ou nula (e acrescentarei, antecipando o que virá a seguir, que só há alegria a um só tempo total e de certo modo nula). Certamente, o homem alegre alegra-se com isso ou com aquilo em particular; mas ao interrogá-lo mais, descobre-se rapidamente que alegra-se, também, com outro isso e com outro aquilo, e ainda com essa e aquela outra coisa, e assim por diante ao infinito. Seu regozijo não é particular, mas geral: ele fica “alegre com todas as alegrias”, omnibus laetitiis laetum, como diz um amante em êxtase, numa peça, parcialmente citada por Cícero, do dramaturgo latino Trabea. Dito penetrante, ainda que se ignore tudo do contexto em que se situa. O que ele sugere pode ser enunciado mais ou menos assim: há na alegria um mecanismo aprovador que tende a ir além do objeto particular que a suscitou, para afetar indiferentemente qualquer objeto e chegar a uma afirmação do caráter jubiloso da existência em geral. Assim, a alegria aparece como uma espécie de quitação cega concedida a toda e qualquer coisa, como uma aprovação incondicional de toda força de existência presente, passada ou por vir. […]

Não há nenhum bem no mundo que um exame lúcido não faça aparecer, em definitivo, como derrisório e indigno de atenção, mesmo que seja simplesmente por sua constituição frágil, quero dizer, por sua posição a um só tempo efêmera e minúscula na infinidade do tempo e do espaço. O estranho é que, entretanto, a alegria permanece, embora suspensa em nada e privada de qualquer base. E é esse o extraordinário privilégio da alegria: essa aptidão para perseverar quando sua causa é ouvida e condenada, essa arte quase feminina de não se reder a razão alguma, de ignorar alegremente tanto a adversidade mais manifesta quanto a contradição mais flagrante. Pois a alegria, tal qual a feminilidade, permanece indiferente a qualquer objeção. Uma faculdade de persistência permite à alegria sobreviver à sua própria condenação à morte e continuar a exibir-se como se nada houvesse, um pouco à maneira daqueles vermes que, embora partidos em dois ou quatro, continuam a remexer-se e a prosseguir rumo a seu cego objetivo, ou daquele mandarim maravilhoso, musicado por Bela Bartok, que nenhuma punhalada consegue abater. Essa insistência da alegria revela uma desproporção, radical e característica, entre todo regozijo profundo e o objeto particular que o ocasiona ou, mais precisamente, serve-lhe de pretexto. Assim, a alegria sempre constitui uma espécie de “a mais”, ou seja, um efeito suplementar e desproporcionado à sua própria causa, que vê a multiplicar pelo infinito essa ou aquela satisfação relativa a um motivo determinado. E é esse “a mais” que, precisamente, o homem alegre é incapaz de explicar e mesmo de exprimir. Pois, do mesmo modo e pelas mesmas razões que a hipótese do Um, tal como Platão a disseca no Parmênides, a alegria é uma hipótese inexprimível: sendo forçoso dizer sobre ela, a um só tempo, tudo — o que é impossível (e contraditório no caso do Um) — e nada, o que leva a situar a alegria à margem, quando não à parte de qualquer coisa existente e dizível (exatamente como o Um, de acordo com a primeira hipótese do Parmênides, que se encontra separado do ser). Perdida entre o demais e pouco demais, a aprovação da vida permanece sempre indizível. Toda tentativa visando exprimi-la dissolve-se, necessariamente, em um balbucio mais ou menos audível e ininteligível.

Imediatamente se notará — e esta é a primeira das três objeções às quais gostaria de responder antes de continuar — que esse tipo de “vago n’alma” da alegria, assim definida, corresponde literalmente a seu exato contrário: o vago n’alma romântico, que tende à melancolia e à tristeza. Não bastaria protestar aqui que são duas disposições de espírito diferentes e diametralmente opostas, pois a semelhança formal é tão evidente que chama a atenção: exatamente como o homem alegre é incapaz de dizer o motivo de sua alegria e a natureza daquilo que o enleva, o melancólico não sabe precisar o motivo de sua tristeza nem a natureza daquilo que lhe falta, exceto que sua melancolia, repetindo Baudelaire, é sem fundo e o que lhe falta não figura no registro das coisas existentes. Mas se o mundo em seu conjunto é tão indescritível quanto o conjunto das coisas situadas fora do mundo, anywhere out of the world, como diz Baudelaire, ele não deixa também de se diferenciar por uma característica maior, que é, naturalmente, sua existência. Daí a diferença fundamental entre o vago romântico e o vago alegre: o primeiro falha da descrição do que não é, o segundo ao passar em revista o que é. Em outros termos, a alegria tem sempre contas a acertar com o real, enquanto que a tristeza debate-se sem descanso — e é essa sua própria infelicidade — com o irreal. Montherland ilustra muito bem essa verdade quando escreve, em Pitié pour les femmes: “Veja você, só há uma maneira de amar as mulheres, com amor. (…) Todo o resto, amizade, estima, simpatia intelectual, sem amor é um fantasma, e um fantasma cruel, pois os cruéis são os fantasmas: com as realidades pode-se sempre arrumar.”

ROSSET, Clément, Alegria: a força maior. Trad. de Eloisa Araújo Ribeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.