kriterion

KRITERION – Revista de Filosofia

Departamento de Filosofia da UFMG

Kriterion vol. 57, no. 133 – Belo Horizonte, Jan./Apr. 2016

APRESENTAÇÃO

Este número da Kriterion é dedicado ao tema Filosofia e budismo. A proposta inicial desta publicação nasceu em um colóquio sobre as duas verdades, saṃvṛti-satya (verdade convencional) e paramārtha-satya(verdade suprema), nos Versos fundamentais sobre o caminho do meio(mūla-madhyamaka-kārikā = MMK) de Nāgārjuna, realizada em sete de dezembro de 2011 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, Brasil. Após o primeiro encontro, o tema voltou também a ser debatido em outros eventos já fora do âmbito da FAFICH, bem como em reuniões da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia. Nessas oportunidades, encontramos interessados não só nessa temática em particular, mas também no diálogo entre Filosofia e budismo. Nesta proposta inicial, incluía-se também a intenção de publicar um livro com as contribuições feitas durante o evento de 2011, bem como a tradução para o português dos textos em sânscrito e mandarim do capítulo XXIV dos Versos fundamentais sobre o caminho do meio de Nāgārjuna.

A evolução das conversas sobre publicação avançou na direção de editar um volume temático na Kriterion que pudesse abrigar não só as contribuições feitas em 2011, mas também aquelas outras que abrigassem o intercâmbio entre Filosofia e budismo. A proposta foi aceita pela direção da revista e, então, começaram contatos com colegas brasileiros e estrangeiros para contribuir para este volume. Com isso, portanto, veio a lume este volume com o qual pretendemos contribuir para o diálogo entre o pensamento ocidental e o oriental em sua versão budista. Agradeço, portanto, tanto à direção da Kriterion, por admitir em suas prestigiosas páginas a discussão de temas filosóficos envolvendo o budismo, quanto aos colegas brasileiros e estrangeiros, por ajudarem na produção deste trabalho.

O volume temático da Kriterion sobre Filosofia e budismo contém quatorze artigos e duas traduções para o português do sânscrito e mandarim do capítulo XXIV das MMK, feitas por Dilip Loundo, Giuseppe Ferraro (tradução do sânscrito: ārya-satya-parīkṣā. Exame crítico das [quatro] nobres verdades) e Joaquim Monteiro (tradução do mandarim: (), Sobre as quatro nobres verdades).

As traduções são material indispensável para a inteligibilidade da questão envolvendo as duas verdades e seus desdobramentos subsequentes. Elas fornecem, assim, à comunidade filosófica de língua portuguesa um material precioso de estudo e reflexão, porém, estão disponíveis somente na versão impressa.

Os artigos aqui reunidos, por seu turno, lidam com os seguintes tópicos: 1) as duas verdades: verdade convencional e verdade suprema; 2) as quatro nobres verdades; 3) temas da tradição budista; e 4) diálogos entre o pensamento budista e o pensamento ocidental.

Ad 1) As duas verdades: verdade convencional e verdade suprema

Neste tópico, estão agrupados os artigos que lidam com a questão das duas verdades em Nāgārjuna, específica e diretamente, ou que a ela se referem como fonte de desdobramentos posteriores.

Dilip Loundo, “The ‘Two Truths’ Doctrine (satyadvaya) and the Nature of upāya in Nāgārjuna”

Tendo como tema a temática das duas verdades – uma diferenciação que não se limita ao contexto do budismo, mas se estende pelo ambiente filósofico pan-indiano -, Dilip Loundo propõe-se a mostrar que linguagem e lógica (fincadas na convencionalidade) assumem o caráter de um instrumento hábil, apropriado e funcional (upāya) para levar a cabo o nirvāṇa em vez de ser investida da tarefa de descrever a essência da realidade. A palavra de Buda (buddha-vacana) é, portanto, o meio habilitado para nos livrar dos erros, dos apegos a eles conexos e do sofrimento decorrente desse conhecimento deficiente e de ações a ele consentâneas.

Giuseppe Ferraro, “As duas verdades de Nāgārjuna nos comentários de Bhāvaviveka e Candrakīrti”

Ferraro propõe-se a investigar a questão das duas verdades tomando como base os comentários de Bhāvaviveka e Candrakīrti considerados por ele como “o critério mais confiável para dirimir as controvérsias relativas às MMK”. Chamando a atenção para o fato de que a verdade convencional é própria do indivíduo assujeitado aos preconceitos da vida ordinária, ao passo que a verdade suprema é aquela dos iluminados, Ferraro argumenta em favor da impossibilidade de expressar em termos convencionais a verdade suprema (tattva, MMK, XVIII, 9), mas, ao mesmo tempo, sublinha, em acordo com MMK, XXIV, 10, a necessária mediação pedagógica da convencionalidade para a realização da verdade suprema. Com isso, ressalta o trabalho didático de Buda e mestres posteriores no sentido de adequar, da melhor forma possível, a mensagem budista ao público disposto a acolhê-la.

Lucas Nascimento Machado, “Verdade e vazio em Nāgārjuna: o capítulo XXIV dos Mūlamadhyamakakārikā”

O autor engaja-se em uma interpretação do pensamento de Nāgārjuna, “comparando-a com as interpretações semântica e pedagógica propostas, respectivamente, por Garfield e Siderits, por um lado, e Ferraro, por outro”. E aqui vale a pena acompanhar o diálogo entre os dois. Diferentemente da interpretação de Ferraro, apoiada em Bhāvaviveka e Candrakīrti, Machado recorre a Tson Khapa como um dos clássicos comentadores da filosofia de Nāgārjuna. Um dos pontos do conflito de interpretação entre Machado e Ferraro – e resta a dúvida em saber se a divergência entre eles deve ser reconduzida aos diferentes intérpretes da tradição comentarial com os quais ambos contam em suas respectivas interpretações – encontra-se na compreensão do que são verdade convencional e verdade suprema e de sua relação. Concentrando-me no primeiro tópico – verdade convencional e verdade suprema -, Ferraro procura demonstrar que tanto o discurso apoiado na natureza intrínseca, essência ou substância (svabhāva) quanto aquele que se orienta pela vacuidade (śūnyatā) ou cooriginação dependente (pratītya-samutpāda) pertencem ao âmbito da convencionalidade, ao passo que Machado, por sua vez, distribui entre verdade convencional e verdade suprema o discurso apoiado na natureza intrínseca e aquele que se orienta pela vacuidade, respectivamente. A ausência de uma análise sobre tattva (MMK, XVIII, 9) e sobre o comentário de Candrakīrti ao sentido de saṃvṛti no texto de Machado deixa transparecer essa divergência de forma muito evidente, já que tattva diz respeito a algo que não se deixa captar com recurso a termos como substância e vacuidade, ambas vinculadas a indivíduos que ainda partilham a verdade convencional sobre as coisas (loka-saṃvṛti-satya), embora o façam de maneira diferente.

Joaquim Antônio Bernardes Carneiro Monteiro, “As ‘duas verdades’ na perspectiva do Satya-siddhi-śāstra: um contraste com a visão de Nāgārjuna

Joaquim Monteiro retoma a questão das duas verdades a partir das traduções de Kumārajīva (343-413), responsável por introduzir a literatura Madhyamaka no universo intelectual chinês. Nesse sentido, ele abrange um contexto filosófico diferente e mais amplo daquele levado em consideração nos artigos de Dilip Loundo, Giuseppe Ferraro e Lucas Machado. Kumārajīva traduziu três tipos de tratados associados a essa temática.

O primeiro tipo consiste nos “três tratados” que deram origem à escola do mesmo nome: o “Tratado do caminho do meio” (, a obra central de Nāgārjuna), o “Tratado dos doze portais” (), ambos atribuídos a Nāgārjuna e o “Tratado das cem estâncias” () atribuído a Āryadeva. Existem dúvidas a respeito da autenticidade do “Tratado dos doze portais”, mas esses três tratados parecem expressar um ponto de vista comum na escola Madhyamaka na Índia da época. O segundo tipo consiste no “Tratado da perfeição da sabedoria” (), texto atribuído a Nāgārjuna. Como esta atribuição tem sido seriamente posta em dúvida pela moderna critica literária, é possível que se trate de um texto compilado na China a partir de fontes indianas. Existe por fim o “Tratado da realização da verdade” ou Satya-siddhi-śāstra (). Esse Tratado é atribuído a Harivarman.

Joaquim Monteiro considera “que a versão dominante da teoria das ‘duas verdades’ no Satya-siddhi-śāstra é aquela que se estabelece na continuidade com o pensamento da escola Sarvāstivāda” ao assumir o “caráter mutuamente exclusivo da relação entre prajñā (sabedoria) e avidyā (nesciência), mas nega ao mesmo tempo a teoria da existência dos dharmas pelos três tempos e o caráter definitivo dos agregados, considerados como objetos de análise”. O Satya-siddhi-śāstra tem dois modelos de teoria das duas verdades: “O primeiro deles implica uma relação lógica mutuamente exclusiva entre prajñā e avidyā e está associado à concepção do ‘vazio do ātman’. O segundo deles implica o desaparecimento dos cinco agregados enquanto objetos de análise e está relacionado com o ‘vazio dos dharmas'”. Enquanto o primeiro modelo assume “função hegemônica”, o segundo, por sua vez, tem a função de um “conceito limite” orientada para “impedir a fixação dos cinco agregados enquanto objetos definitivos de análise”. Nessa última função, a verdade última não é a experiência de algo inefável, de algo além do ser e não ser.

Ad 2) As quatro nobres verdades

Neste tópico, lidamos com o tema clássico do budismo: as nobres verdades e os estágios de sua realização.

Clodomir B. de Andrade, “O caminho e as suas etapas: as quatro nobres verdades (catvaryāryasatyaṇi), o nobre óctuplo caminho (āryāṣṭāṇgikamarga) e os estágios dos buscadores”

Clodomir Andrade descreve as quatro nobres verdades como a identificação de um problema e sua solução, bem como avança para tratar dos estágios dos buscadores da verdade, apontando para algumas diferenças entre o budismo de base e o mahāyāna. A questão das quatro verdades, por sua vez, articula-se com aquela da verdade convencional e verdade suprema, tratada no tópico acima referido, já que essa última propõe-se a nos fazer refletir sobre o movimento que leva do sofrimento em direção a sua superação.

Ad 3) Temas da tradição budista

Neste tópico, são referidos objetos de investigação que pertencem ao universo multifacetado da tradição budista não contemplados nos dois tópicos anteriores, tais como um texto concebido como maṇḍala, no ambiente da tradição budista nepalesa, a ideia de relação em Nāgārjuna, o desenvolvimento da lógica indiana a partir dos longos discursos e, por fim, reflexões sobre o sentido do filosofar a partir de uma perspectiva budista.

Cibele E. V. Aldrovandi, “Texto como maṇḍala: a estratigrafia discursiva no Guṇakāraṇḍavyūhasūtra”

Nesse artigo, somos transportados para a tradição budista nepalesa. A autora “apresenta e discute alguns resultados de uma pesquisa sobre um manuscrito sânscrito budista”, “contendo o [ĀryāvalokiteśvaraGuṇakāraṇḍavyūhasūtra – ‘Sūtra da explicação do conjunto das qualidades [do Nobre Avalokiteśvara]’ -, um original nepalês produzido em folha de palmeira durante o início do século XIX”.

Guṇakāraṇḍavyūhasūtra, GVK, é um “maṇḍala textual… com um esquema tridimensional para a configuração discursiva do GKV“, produzindo, desse modo, uma monumentalização narrativa, sendo a primeira camada, denominada prototexto, o Kāraṇḍavyūhasūtra [KV], original indiano e principal fonte do GKV pertencente ao Mahāyāna do século IV-V d.C. Segundo a autora, a

estrutura narrativa do GKV […] foi composta de modo concêntrico, ou seja, em termos formais, apresenta uma sucessão de diálogos que emolduram o fio condutor da narrativa. Embora a estrutura das molduras internas varie em cada capítulo, em termos temporais, a cronologia é criada e, ao mesmo tempo, legitimada pela linhagem dos personagens pseudo-históricos ou míticos citados, por vezes de modo recorrente, ao longo de cada capítulo.

Krishna Del Toso, “A sketch on Nāgārjuna’s perspectives on ‘relation'”

O autor propõe-se a investigar a ideia de relação, encontrada nas fontes pāli e sistematizada teoricamente de acordo com três padrões: 1. (onto)lógico; 2. existencial estritamente subordinativo; 3. existencial não estritamente subordinativo. A relação entre avidyā (nesciência) e saṃskāras (impulsos pré-formativos) é uma ilustração desse último padrão: “quando avidyā é confirmada em seu papel pelos saṃskāra, então, eles são reforçados pela avidyā, a qual, por sua vez, é confirmada novamente por eles”. Embora restrito à investigação desse par, esse padrão relacional também pode, segundo o autor, explicar os outros elos da cooriginação dependente (pratītya-samutpāda), cuja inteligibilidade é chave para compreender a origem do sofrimento, bem como sua cessação, além de contribuir para o entendimento da apropriação da cooriginação dependente por parte de Nāgārjuna. Em um aprofundamento desse tema em Nāgārjuna, seria o caso de investigar como essa ideia de relação poderia também ajudar na compreensão da relação entre verdade convencional e verdade suprema.

Ramkrishna Bhattacharya, “Development of Logic in India: Significance of ‘The Duologue between Pāyāsi and Kassapa’ (Long Discourses)”

Bhattacharya investiga o tópico da lógica, mais especificamente a origem do desenvolvimento da lógica na Índia. A importância dela como um instrumento que legitima aquilo que é defendido pelo budismo é evidente, por exemplo, nos artigos que lidam com a questão das duas verdades e na discussão sobre o outro mundo (para-loka) no artigo sobre Nāgārjuna e Schelling.

O autor chama a atenção para o fato de que o duólogo do rei/governador Pāyāsi (Discursos Longos), formulado com o intuito de afirmar a existência de outro mundo após a morte (para-loka), não tem apenas o caráter de ser fonte da corrente do protomaterialismo na época de Buda, mas também um indicador do desenvolvimento da lógica na Índia. Nesse duólogo, lança-se mão da percepção e do raciocínio por analogia como instrumento de cognição, diferentemente, segundo o autor, das quatro principais escolas budistas (Yogācāra, Madhyamaka, Sautrāntika e Vaibhāṣika) que admitem apenas percepção e inferência. A versão bramânica da legenda desse duólogo, por sua vez, aceita ainda o testemunho verbal. Assim sendo, o duólogo em suas várias versões é indicador do desenvolvimento dos instrumentos de cognição no contexto do pensamento indiano: percepção, raciocínio por analogia e testemunho verbal.

Ana Paula Martins Gouveia, “O filosofar budista: breves reflexões sobre o fazer filosófico e as suas motivações”

A autora pretende sublinhar alguns aspectos dos estudos do budismo, tal como praticados no Brasil. Eles foram “negligenciados ou tratados de forma pouco condizente com a proposta com que este filosofar foi inicialmente concebido”. Nesse sentido, vale ressaltar o fato de que a proposta do budismo não se esgota no simples ato de filosofar fechado em si mesmo, mas visa transformar a vida do(a) praticante. Além disso, entre outros pontos, chama a atenção para as consequências éticas oriundas do estudo, da reflexão crítica e da meditação. Por fim, ressalta que a prática meditativa está intimamente conectada com o exercício da racionalidade lógico-argumentativa, formando um conjunto cooperativo em que lógica e meditação se apoiam reciprocamente. Portanto, trata-se de um modelo de cooperação que se distancia tanto daquele que aposta na lógica com a exclusão da meditação – como é o caso, frequentemente, em ambientes acadêmicos -, quanto daquele outro que finca pé na meditação desvinculada da lógica e do exercício sistemático da racionalidade discursiva que têm lugar na ciência e na filosofia – como é o caso em certas comunidades de praticantes de meditação.

Ad 4) Diálogos entre o pensamento budista e o pensamento ocidental

Aqui são tratados aqueles temas que dizem respeito ao diálogo entre o budismo como filosofia e alguns pensadores ocidentais que direta ou indiretamente entraram em diálogo com ele.

Agustín Jacinto Z., “Leibiniz y la filosofía de la religión en Nishida Kitarô”

O artigo explora a apropriação do pensamento de Leibniz por Nishida Kitarô. Limitando-me a alguns elementos dessa complexa apropriação, o mundo é resultado de mônadas em interação (a) criativa – porque se trata da produção contínua de algo novo; (b) autoexpressiva – porque o indivíduo se expressa, bem como o todo se expressa no indivíduo; (c) histórica – porque o presente absoluto é também o presente histórico; e (d) negativa – porque a negação de um outro é simultaneamente a afirmação de si mesmo. Essa rede de interações constitui o basho e sua origem é Deus. Daqui o passo é dado em direção à filosofia da religião. Pois o indivíduo, a mônada humana, ao penetrar em si mesmo(a), encontra Deus como autodeterminação do presente absoluto. O mergulhar no mais interior é projetar-se no mais exterior de si mesmo: a autoidentidade do contraditório. Desse modo, a religião aparece no horizonte do ser humano quando ele percebe a si mesmo e vem à tona aquela autoidentidade.

Gabriel Salvi Philipson, “Um circunvolver da noção de nada”

O autor circunscreve a ideia de nada absoluto cunhada e desenvolvida pela Escola de Kyoto: Nishida, Ueda e Tsujimura. Esse propósito é levado a cabo mediante o diálogo com alguns representantes da filosofia ocidental: Hegel, Eckhart, Heideger e Nietzsche. Vale ressaltar as reflexões do autor: (1) em torno do caráter medial da linguagem japonesa como expressão do nada absoluto como verbo e não como substantivo e sujeito; (2) a diferença entre o pensar portador da linguagem (a verdade do ser) e a origem do pensar (a verdade do zen) – retomando, ao que parece, no contexto japonês, a diferença entre verdade convencional e verdade suprema; e (3) a substancialização do sujeito, tão cara a uma porção considerável do pensar ocidental, e sua dessubstancialização, tão incisivamente sublinhada pelo budismo: questão debatida no diálogo entre Nāgārjuna e Schelling.

Luiz Rohden e Leonardo Marques Kussler, “Dialética, experiência e intuição: entre hermenêutica filosófica e filosofia budista”

O artigo de Rohden e Kussler leva a cabo o diálogo entre Gadamer e o budismo zen da tradição da escola de Kyoto na pessoa de Nishida.

O diálogo é levado adiante em quatro momentos: 1) quadro geral indicando o estado da questão da hermenêutica gadameriana relativo ao pensamento oriental; 2) semelhanças sobre o modo de proceder de ambas, sua metodologia dialética; 3) a noção fundamental de experiência e as proximidades que permeiam as perspectivas de ambas as tradições; e, por fim, 4) a hipótese de um saber intuitivo enquanto experiência e ação intuitivas.

Nesse artigo, ressalte-se o fato de que 1) “tanto em Nishida quanto em Gadamer há uma necessidade de manter a oposicionalidade, o que corresponde a aprofundar-se no contraditório“, pois, como vimos nos artigos que lidam com o saṃvṛti-satya, o terreno da verdade convencional é aquele das oposições e conflitos de interpretação; 2) o exercício da compreensão hermenêutica visa instaurar um sentido para o sujeito, em uma ação não meramente racional, passional, mas fundamentalmente intuitiva.

Em Gadamer, essa ação é o movimento dialético-hermenêutico e é, de certa forma, um modo de “autocompreender-se e autorreconhecer-se, alcançando uma fusão de horizontes, análogo ao sentido de plenificação do que Platão chamou de Bem”. Em Nishida, por sua vez, “a compreensão é instituída por meio de uma experiência pura [junsui heiken], uma experiência que não é mediada pela linguagem escrita, por conhecimentos prévios”. A experiência pura acontece “quando alguém diretamente experiencia seu próprio estado de consciência”, ou seja, quando “ainda não há um sujeito ou um objeto, e o conhecimento e seu objeto estão completamente unificados”. Nesse sentido, aproximam-se, em suas propostas, a experiência pura e a hermenêutica. E ambas, desse modo, deixam transparecer o eco de tattva (MMK, XVIII, 9), na medida em que falam de fusão de horizontes e de uma experiência pré-diferenciada entre sujeito e objeto.

Leonardo Alves Vieira, “Nāgārjuna and Schelling: Outlines of a Dialogue on Self, World, and Viewpoints”

Meu texto guarda, por um lado, uma certa proximidade com o de Rohden e Kussler, pois, sem advogar evidentemente identidade entre Schelling, Nāgārjuna, Nishida e Gadamer, também trata de uma experiência anterior à oposição entre sujeito e objeto, tal como sedimentada na verdade suprema de Nāgārjuna e na verdade tética de Schelling; e, por outro lado, avizinha-se do tópico sobre verdade suprema e verdade convencional, já que investiga o par equivalente de Schelling na figura da verdade tética e da verdade sintética.

Em sua crítica ao dogmatismo, filosofia que apoia seu discurso em um objeto substancial absoluto, feita com base no criticismo levado à perfeição, o qual desenvolve seu discurso orientado por um sujeito substancial absoluto, Schelling refere-se indiscriminadamente, com exceção da referência a Lao-Tze, a pensadores orientais, enquanto estes são formalmente ilustrações de uma posição dogmática na filosofia.

Guiado por esse fio condutor, produzi um diálogo entre Schelling e Nāgārjuna com o intuito, entre outros, de avaliar a tese de Schelling. A conclusão é diferente daquela de Schelling, pois a recusa do dogmatismo em favor do criticismo por parte de Schelling não o afastou de um pensamento ainda atrelado à ideia de substância, essência ou natureza intrínseca (svabhāva), criticada por Nāgārjuna em suas versões subjetiva e objetiva. A volta para dentro de um Si substancial, um Eu absoluto, enquanto uma posição filosófica que quer libertar-se do dogmatismo, não é menos problemática em termos de superação do sofrimento (dukkha, pāli; duḥkha, sânscrito) do que aquela que busca seu ponto de apoio em um objeto absoluto fora do Eu, um Deus moral, embora ela possa ser vantajosa para livrar-se do entusiasmo fanático (Schwärmerei), abraçado pelo dogmatismo na interpretação de Schelling. Portanto, a emancipação do entusiasmo fanático na figura de um Eu absoluto ainda está prisioneira das garras de um pensar ainda açoitado pela ideia de substância e essência, pelo menos se contraposta ao pensamento do filósofo budista indiano. Ao final, são feitas algumas reflexões sobre um caminhar para além de Schelling e Nāgārjuna.

Bruno Lo Turco, “Buddhism and Modernity: in the Margin of Donald S. Lopes Jr.’s ‘Buddhism and Science'”

Lo Turco, por sua vez, examina o diálogo entre budismo e ciência e o esforço de legitimação do budismo por meio da ciência. Ele rejeita os três modelos interpretativos da relação entre budismo e ciência: conflito, compatibilidade e complementaridade. Em vez disso, propõe a tese segundo a qual eles constituem diferentes jogos de linguagem: a ciência produz projetos inovativos e funcionais de cooperação, ao passo que a religião é mais adepta para florescer na esfera pessoal. Ao mesmo tempo, ele reitera que isto não significa lançar o budismo, em particular, e a religião, em geral, no campo da irracionalidade, enquanto a ciência ocuparia solitariamente a esfera da racionalidade, mas reitera a especificidade de seus jogos linguísticos. Além do mais, avança Lo Turco, a articulação entre budismo e ciência já ocorre de uma maneira pré-organizada, a saber, no domínio do indivíduo, sem a necessidade de recorrer a arcabouços institucionais e organizados.

Por fim, quero agradecer a colaboração de Giuseppe Ferraro no trabalho de organização deste volume temático.

Leonardo Alves Vieira
Editor do volume temático sobre Filosofia e budismo.