“Psicopatologia do fanatismo” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a Terra.”

CIORAN, História e utopia

QUAL É A TENDÊNCIA humana mais fundamental e natural? A tendência ao fanatismo.

O ser humano pode ser justamente definido como o animal fanático por excelência, o profeta e o terrorista do reino animal. É a “heresia da natureza” (Cioran).

Tudo nele leva ao fanatismo: sua verticalidade, sua complexidade, sua racionalidade, sua afetividade…

Salvo raros casos, fracassos, monstros, abortos da natureza, o homem se inclinará a graus mais ou menos críticos de dogmatismo e fanatismo. Ele crê! Crê que crê! Existe algo! Eu existo! Meu ideal! Minha missão! Um “frenesi de lunáticos”, como diria Cioran.

O ser humano é um animal tão mais perigoso quanto é um pobre diabo, um animal doente, frágil, acuado, medroso. Sim, o medo, o sentimento fundamental, que se desdobra em uma infinidade de expressões, com diferentes causas, a partir de uma raiz dolorosa: o medo da morte (este que faz mesmo o mais sábio dos homens parecer uma criancinha atormentada por fantasmas).

Todos os medos, o Medo.

O mais adulto dos homens é “criança brincando, de criança o reinado” (Heráclito); se a Natureza for competente, não falhará em tornar-se um fanático pueril, que mal se percebe fanático, um destruidor ingênuo e inconsequente…

O velho e atávico fanatismo — religioso — foi herdado pelas ideologias, partidos e agentes políticos. O fanatismo moderno é ideológico, mais do que religioso; eis o resultado da evolução da espécie e de seu progresso espiritual: a modernidade do fanatismo. Mas o ideológico é, essencialmente, religioso — ainda que secular, humanista, “filantrópico”. Não nos animemos ingenuamente: o homem nunca deixará de ser um animal religioso, metafísico, dogmático, carente de certezas e convicções que logo tratará de impor aos demais. O fanatismo religioso está em alta, no Brasil e no mundo (Deus pode morrer, mas o fanatismo sobrevive com ou sem pretextos teológicos).

É preciso alcançar um meio-termo, um caminho do meio, um ponto arquimediano entre o “ser” e o “não-ser”, o “eu” e o “não-eu”, a “realidade” e a “irrealidade”, a “razão” e a “loucura”. Louca sabedoria; sábia loucura.

Mas não nos enganemos: a Dúvida não é garantia de nada. Cioran mesmo se definiu, ironicamente, como um “fanático da Dúvida”. Aparentemente, não temos escapatória de nossa sombra fanática, que nos persegue onde quer que vamos… Como alcançar a justa medida? A lucidez? Como ser “normal”?

Fanáticos sendo fanáticos (após uma boa lavagem cerebral)

“Se Nietzsche, Proust, Baudelaire ou Rimbaud sobrevivem às flutuações da moda, devem isso à gratuidade de sua crueldade, à sua cirurgia demoníaca, à generosidade de seu fel. O que faz durar uma obra, o que a impede de envelhecer é sua ferocidade. Afirmação gratuita? Considere o prestígio do Evangelho, livro agressivo, livro venenoso entre todos.” (Silogismos da amargura)

(O que faz um cristão achar que a sua religião é melhor, mais “pura” do que outras — digamos, o Islã? Todas as religiões são igualmente verdadeiras e falsas, igualmente boas e igualmente podres; todos os deuses existem e todos os deuses são invencionices de macaco pensante. Religiões devem ser julgadas não por suas peculiaridades, mas enquanto religiões; são como arma de fogo: não faz nada sozinha, depende do usuário; pode proteger e salvar vidas, como pode matar e exterminar; estabelecer a paz ou instaurar o caos. E pensar que tem gente que busca religiões para fugir de si mesmo, para “ser bom”. Cãezinhos adestrados: a religião, como as redes sociais, só faz potencializar aquilo que se tem de melhor. Ou de pior.)

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