Filosofia trágica como crítica das ideologias (Clément Rosset)

Meu partido é um coração partido.

Cazuza

Uma única fórmula basta para caracterizar o pensamento trágico: a impossibilidade de crer que possa haver crença. E, na origem desse descrédito na crença, que acarreta para o pensamento toda uma série de consequências desastrosas que constituem o conjunto da “filosofia trágica”, ela invoca um argumento bem simples: toda crença, posta à prova, é incapaz de precisar aquilo em que ela crê; ela é pois sempre, rigorosamente falando, uma crença em nada; ora, crer em nada equivale a nada crer. O homem pode então crer em tudo o que bem entender, ele não poderá nunca se impedir de saber silenciosamente que aquilo no que ele crê é — nada. A intuição fundamental do pensamento trágico está aqui: a incapacidade dos homens, não em se desembaraçar de sua ideologia (isto sendo apenas a consequência de um mal mais radical), mas em constituir uma ideologia. Às mais imaginativas, às mais otimistas das crenças faltará sempre um objeto que permitiria ao ideólogo aderir verdadeiramente à sua crença, ao pensador trágico estimar que o crente crê naquilo que ele diz crer.

Clément Rosset, Lógica do pior

QUE SE ENTENDE, realmente, por pensar? Que é passar do “impensado” ao pensamento? A essa questão uma única resposta: passar ao pensamento é falar, escrever, formular. Um exemplo característico dessa passagem é a redação de uma obra filosófica. Dir-se-á que antes de ser formulada a obra filosófica — a Ética de Spinoza — era “impensada”? Evidentemente não. Então, será preciso dizer que ela estava pensada antes de ser escrita; pois o esquema “teórico” não oferece outra alternativa. Mas esta segunda hipótese não é mais aceitável que a primeira. A representação da redação como uma passagem de um estado pensado em silêncio a um estado pensado em voz alta é um fantasma de mau escritor e de mau filósofo: a experiência ensina que toda obra de tal modo pronta antes de sua realização é uma obra morta. O que constitui o pensamento é bem a passagem à expressão. Mas isto não significa de modo algum que antes desse acesso à fala o pensamento era “impensado”, inconsciente. Antes que fossem escritos a Ética ou a Genealogia da moral, os pontos-de-vista de Spinoza sobre o racionalismo cartesiano e de Nietzsche sobre o niilismo não eram puros “brancos”, puros “impensados”. Do mesmo modo, a representação da luta de classes, do desejo sexual interdito, do ressentimento, existe decerto no burguês, no neurótico, no teólogo: não em estado de “impensado”, mas de “infalado”.

Desta assimilação sumária entre silêncio e inconsciente resulta, em muitos pensadores de uma nova geração que se queria antiideológica na trilha de Marx, Nietzsche e Freud, uma concepção superficial do objeto mesmo de seu cuidado maior: a ideologia. Por ter confundido o impensado e o infalado, reduziu-se o econômico, o psicológico, o erótico a impensado ao qual se tratava somente de dar, segundo a velha intenção do sempre inevitável Hegel, “as luzes da consciência”. Ora, nem em Marx, nem em Nietzsche, nem em Freud, tratou-se alguma vez de tais luzes. Tratava-se de fazer falar (de tornar economicamente ou psicologicamente útil), não de fazer pensar. Considerando assim que o silêncio na fala do ideólogo refletia um silêncio em sua consciência, os aprendizes antiideólogos aceitaram uma concepção um pouco demasiado otimista da empresa antiideológica: basta doravante “fazer ver” os brancos, constranger o ideólogo ao espetáculo das “censuras” que banham seu discurso. Não é somente Hegel, é a sabedoria de Platão que se evoca aqui em socorro, para maior prejuízo do pensamento daqueles que se trai assim pretendendo servi-los por uma “teorização”: abandonai vossa ignorância, e vos tornareis justos e bons. Ah, se apenas se soubesse! Se o capitalista soubesse que ele explora uma certa classe social!  Se o padre soubesse que ele prega aos homens, não o amor, mas a vingança! Se o neurótico soubesse que ele não se perdoa por ter tal desejo incestuoso! Mas eis que: eles não sabem. Digamos-lhe pois sua verdade: ele saberão. E de fato ela foi dita, notadamente desde uma vintena de anos. Ora, nenhuma mudança se produziu, nem na luta de classes, nem na evolução das ideias religiosas, nem nas manifestações sociais do interdito sexual. Que se passou então? A resposta é nítida: nada se passou. Mas por que nada se passou? Eles não compreenderam? Sim, mas aparentemente sem benefício. Se eles não mudaram, é que não lhes foi ensinado nada: tudo o que lhes foi dito, eles já sabiam. Era preciso ensiná-los a falar. Isto um ou outro psicanalista conseguiu com um ou outro paciente. Mas o discurso antiideológico é, propriamente, sem poder. E precisamente: porque ele próprio é ideológico. Ideológico, porque se forja uma concepção superficial, otimista e racionalizante da ideologia: porque crê, assim como todos os ideólogos dos quais zombou Marx, na onipotência, na “oniverdade” das ideias. Porque ele não faz distinção entre o inconsciente e o infalado, e daí supõe que basta conceder a ideia a alguém para, a um só tempo, dar-lhe a palavra. Mas ideias tão simples quanto aquelas da exploração das classes pobres pelas classes ricas, da onipotência do ressentimento e das pulsões sexuais, essas ideias são apresentadas desde sempre naquilo que se batizou frivolamente de “o impensado” dos homens: concedendo-lhe essas ideias como alimento, não se fez senão repetir um saber já adquirido. E é nisso que se permaneceu ideólogo. Querendo, com a ajuda do discurso antiideológico, assinalar o vazio, o branco, o oco do discurso ideológico,  mascarou-se a verdade do discurso ideológico que é precisamente ser vazio, branco, oco — e pensar-se em silêncio como tal. Nesse sentido o discurso antiideológico é, em seu princípio mesmo, exatamente tão vão quanto a ideologia que pretende derrubar: uma vez reconhecido que a ideologia recobre um nada, a inconsequência maior é querer apagar esse nada. Nada pode apagar um nada. O que caracteriza assim finalmente o discurso antiideológico é, paradoxalmente, um levar a sério a ideologia. Toma-se o homem ao pé da letra: se ele diz que, é que não sabe que etc. Esse levar a sério a ideologia é característico da ideologia; ou melhor, ele é a ideologia mesma. Sob a aparência de “pensar rigorosamente” o pensamento de Marx, de Nietzsche, de Freud, ele ressuscita, palavra por palavra, a ideologia de Platão e Hegel.

O homem é muito mais desconfiado do que figuram tais empresas antiideológicas. A desconfiança é, tanto e ao mesmo título que o bom senso, uma componente universal e inerradicável do pensamento humano. A precipitação, ou o otimismo dos filósofos, é frequentemente de subestimar-lhe a potência. Victor Brochard, em seu  estudo, outrora exaltado por Nietzsche, sobre os Céticos gregos, já tinha sublinhado o fato: o ceticismo não representa, como tentam fazer crer numerosos filósofos, a voz de alguns pensadores raros e estranhos, de pessimismo exacerbado, mas primeiramente e antes que tudo a voz popular, aquela do senso comum.

Esta apreciação do caráter ideológico de certos discursos antiideológicos leva diretamente a uma consideração essencial. Ela permite apreender a fonte comum de onde derivam, mas também onde se separam, todas as formas de pensamento trágico e de pensamento não trágico. Essa fonte comum é o problema da natureza do olhar alçado pelo homem sobre suas ideias — problema específico da “ideologia” numa moderna terminologia. Fica entendido que, de todo modo, o que caracteriza a ideologia é a sua inexistência: a ideologia fala de não-seres (como a justiça, a riqueza, os valores, o direito, Deus, a finalidade); para retomar uma palavra de Romeu em Shakespeare, ela “fala de nadas”. É a partir do reconhecimento desse nada que divergem duas direções filosóficas que não se reencontrarão jamais, caracterizadas por uma diferença no modo de olhar. Ou bem se considera que o homem não sabe que ele fala de nadas — donde a possibilidade de um discurso antiideológico (que, caso a hipótese fosse falsa, verteria necessariamente, viu-se, na ideologia); donde também, de maneira mais geral, a possibilidade de toda filosofia não trágica, ou seja de quase todas as filosofias (no sentido de que o exercício do pensamento se encontra, graças a esta hipótese, munido de um programa: poder-se-á sempre se ocupar em desiludir os homens). Ou bem, considera-se que o homem sabe que ele fala de nadas, em favor de um saber trágico que não é da ordem nem do falado nem do “impensado”: ele sabe tudo isto, mesmo se não lhe nunca falar desse saber. Ora, o ponto de partida do pensamento trágico é precisamente a intuição da verdade desta segunda hipótese: ela atribui como instintual ao homem a posse de um saber silencioso que incide sobre o nada de sua fala. Donde o caráter vão de toda empresa antiideológica, e também, num certo sentido, de toda filosofia: a educação do homem, nesse ponto fundamental, já tendo sido feita. Tal é o princípio diferencial que separa na origem pensamento trágico e pensamento não trágico: a atribuição, ou a não-atribuição, de um saber que transborda largamente sobre aquilo que é dito ou escrito — a tomada ou não a sério da ideologia. Uma única fórmula basta para caracterizar o pensamento trágico: a impossibilidade de crer que possa haver crença. E, na origem desse descrédito na crença, que acarreta para o pensamento toda uma série de consequências desastrosas que constituem o conjunto da “filosofia trágica”, ela invoca um argumento bem simples: toda crença, posta à prova, é incapaz de precisar aquilo em que ela crê; ela é pois sempre, rigorosamente falando, uma crença em nada; ora, crer em nada equivale a nada crer. O homem pode então crer em tudo o que bem entender, ele não poderá nunca se impedir de saber silenciosamente que aquilo no que ele crê é — nada. A intuição fundamental do pensamento trágico está aqui: a incapacidade dos homens, não em se desembaraçar de sua ideologia (isto sendo apenas a consequência de um mal mais radical), mas em constituir uma ideologia. Às mais imaginativas, às mais otimistas das crenças faltará sempre um objeto que permitiria ao ideólogo aderir verdadeiramente à sua crença, ao pensador trágico estimar que o crente crê naquilo que ele diz crer.

ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.