“Nietzsche, um irmão que irrita – a título de confissão” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

A todos os titãs, pequenos ou grandes, originais ou piratas, demasiado humanos, para o bem ou para o mal; não: para além do bem e do mal…

Eu entendo Cioran; não de Cioran; e acho – quero crer – que também entendo Nietzsche. Não (tanto) por sua obra (sofro de baixo QI, deficiência cognitiva), mas por algo outro em relação às ideias filosóficas (sobre as quais nada entendo): refiro-me às suas (respectivas) vivências, experiências de vida, trajetórias existenciais, as quais nos são dadas a conhecer graças às biografias, anedotas, relatos de “causos” – sendo que tudo isso comunica amiúde muito mais do que a teoria, a obra, o reflexo no espelho. Isto vale para Nietzsche como vale para Cioran – autores que, a julgar por suas respectivas obras, seriam irreconhecíveis para quem os conhecessem (ou conheceram de fato) pessoalmente.

Entendo os nietzschianos, e também os anti. Esse gênio – Nietzsche – que, infelizmente, seria apropriado pela extrema direita e pelo nazismo (graças à sua pérfida irmã asquerosa e antissemita), e que hoje, para o nosso suspiro aliviado, acomoda-se mais bem entre os perdidos e deslocados… Que prova mais cabal de que Nietzsche não serve à direita (e ao cristianismo que a faz respirar, por meio de aparelhos) do que o fato de que Olavo de Carvalho e seus discípulos o repudiam? Nietzsche opera por marteladas, doa a quem doer; se a carapuça serve, dói.

Assim como muitos espíritos religiosos não conseguem entender, não conseguem inteligir nada que não parta do seu Deus e da sua Revelação relativa, eu diria, do contrário, que nada me é inteligível se não passar por Nietzsche.

Também entendo os anti-cioranianos; se eu não fosse “cioraniano”, odiaria Cioran! Não vejo opção do terceiro incluído. Por que Nietzsche e Cioran são autores do tipo “ame ou odeie”? Toda criação autêntica, original, passional, orgânica, tende a criar intrigas, dualismos, extremos, torcidas organizadas, assim como Corinthians e Palmeiras. Mas Cioran não é o meu objeto, o meu protagonista de hoje.

O meu interesse maior aqui é o senhor Nietzsche, o psicólogo, o aristocrata Nietzsche. Eis um encômio. Não me importam tanto epítetos e representações míticas como Zaratustra, Dioniso, etc.; interessa-me sobretudo o homem, o senhor Nietzsche, cujo nome é Nietzsche; Nietzsche, o homem de carne e osso (para falar como Unamuno), o pensador alemão, filho de pastor, aquele que nasceu, viveu, adoeceu, sofreu, convalesceu, odiou, amou, duvidou, negou, afirmou, criou, destruiu, morreu. Nietzsche, o Ilustre Póstumo.

Nietzsche é o gigante, o monstro, o “deus” ou “demônio” cuja sobra eclipsa, em cujos ombros não se permanece sem uma náusea que penetra a alma e a medula. Nietzsche fora mais longe do que todos e tudo; após Nietzsche, o que fazer? O que dizer? O que inventar? Nietzsche nos deixa estéreis, sem imaginação nenhuma, ou com muita…

Confesso que tinha certo ranço em relação ao senhor Nietzsche (de onde veio isso, não sei nem quero saber); um ranço bobo, idiota, infundado, do qual agora me arrependo. Aleluia, senhor! Perdoe-me pelas minhas ofensas! Não me ajoelho diante de ti porque sei que não gostarias disso, e tens razão. Não se trata de veneração religiosa, mas existencial e filosófica. Obrigado, senhor Nietzsche, pela “glória” alcançada (nenhuma ironia, apenas ambivalência da “glória”).

O que aconteceu? Por que tomei consciência, dei-me conta, cai na real à respeito do prodígio-Nietzsche? Uma causa fortuita. Após ler tantos comentadores (todos eles muito bons), além dos textos do próprio senhor Nietzsche, um dia por acaso fui ao encontro de uma biografia crítica sua, escrita pelo filósofo norte-americano Will Durant. Não importa tanto como uma existência se originou e terminou; importa mais como a existência é narrada. Obrigado, Will Durant! E obrigado, Clément Rosset, cujo Nietzsche é o meu favorito.

Harold Bloom disse que somos todos um sonho na cabeça de Shakespeare. Eu gostaria de usurpá-lo, com todo respeito, e dizer que somos um sonho na cabeça de Nietzsche; sonho acordado, desenganado, desiludido, trágico – ainda assim, sonho.

Nietzsche, um irmão que irrita. Aquele que nunca dá motivo para que nos irritemos, mas que, contudo, irrita sempre (ou quase sempre). Por que irrita? Por que é bom demais; porque é contundente, incisivo, louco e lúcido, inspirado, puro, doente, ingênuo no melhor sentido do termo… porque é Nietzsche, oras! É monstro. E monstros não passam desapercebidos, nunca falham em incomodar…

Sem entender nada de Filosofia, fico lendo esses versos e essas linhas do senhor Nietzsche, e me basta a musicalidade, o tom, a vibração, para gostar e – acreditar – que o entendo (entender Nietzsche, não de Nietzsche). E, enquanto escrevo, sou interrompido por um alvoroço à distância: parece-me que alguém se aproxima, nas trevas da noite; vem de longe, mas sua presença é tão impactante que já se faz notar; vejo um louco divino se aproximar; vem dançando, fazendo piruetas, falando em línguas, tornando-se… Aproxime-se, senhor, pois quero intoxicar-me de tua loucura; nem te conheço direito, mas já te amo ardentemente!