“Better I were distract:
So should my thoughts be sever’d from my griefs.”

Exclamação que arranca de Gloster a loucura do rei Lear… Para separar-nos de nossos desgostos, nosso último recurso é o delírio; submetidos a seus desvios, não reencontramos mais nossas aflições: paralelos a nossas dores e à margem de nossas tristezas, divagamos em uma treva salutar. Quando se execra esta sarna chamada vida, e se está farto das comichões da duração, a firmeza do louco no meio de todos os seus abatimentos torna-se uma tentação e um modelo: que uma sorte clemente nos dispense de nossa razão! Não há saída enquanto o intelecto permaneça atento aos movimentos do coração, enquanto não se desabitue deles! Aspiro às noites do idiota, a seus sofrimentos minerais, à felicidade de gemer com indiferença, como se fossem gemidos de outro, a um calvário onde se é estranho a si mesmo, onde os próprios gritos vêm de outra parte, a um inferno anônimo onde se dança e se ri destruindo-se. Viver e morrer na terceira pessoa…, exilar-me em mim mesmo, dissociar-me de meu nome, para sempre distraído do que fui…, alcançar, finalmente – já que a vida só é suportável a esse preço –, a sabedoria da demência…

CIORAN, E.M., “Em honra da loucura”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.