“Carta a um amigo distante (sobre dois tipos de sociedade)” (E.M. Cioran)

OS SENTIMENTOS que o Ocidente me inspira não são menos confusos do que os que sinto pelo meu país, pela Hungria, ou por nossa grande vizinha, cuja indiscreta proximidade tanto você como eu apreciamos. O bem e o mal excessivos que penso dela, as impressões que me sugere quando reflito sobre seu destino, como expressá-los sem cair na inverossimilhança? Não pretendo, de modo algum, que você mude de opinião sobre ela, quero apenas que saiba o que ela representa para mim e que lugar ocupa em minhas obsessões. Quanto mais penso nela, mais acho que se formou, através dos séculos, não como se forma uma nação, mas um universo, pois os momentos de sua evolução participam menos da história que de uma cosmogonia sombria, aterradora. Esses czares com aparência de divindades taradas, gigantes solicitados pela santidade e pelo crime, mergulhados na prece e no pavor, estavam, como o estão esses tiranos recentes que os substituíram, mais próximos de uma vitalidade geológica que da anemia humana, déspotas que perpetuam em nossos tempos a seiva e a corrupção originais, superando todos nós por suas inesgotáveis reservas de caos. Coroados ou não, lhes importava, lhes importa, saltar por cima da civilização, engoli-la se necessário; a operação estava inscrita em sua natureza, já que desde sempre têm a mesma obsessão: estender sua supremacia sobre nossos sonhos e nossas revoltas, constituir um império tão vasto quanto nossas decepções ou nossos temores. Uma nação assim, reclamada nos confins do globo tanto por seus pensamentos como por seus atos, não se mede através de padrões correntes, nem se explica em termos ordinários, em linguagem inteligível: seria necessário o jargão dos gnósticos, enriquecido pelo da paralisia geral. Sem dúvida, como diz Rilke, ela faz fronteira com Deus; infelizmente, também faz com nosso país, e logo, em um futuro mais ou menos próximo, com muitos outros, não ouso dizer com todos, apesar das advertências precisas que um pressentimento maligno me faz. Onde quer que estejamos, ela já nos toca, se não geograficamente, pelo menos interiormente. Estou mais disposto do que qualquer um a reconhecer minhas dívidas para com ela: sem seus escritores, jamais teria tomado consciência de minhas chagas e do dever que tinha de entregar-me a elas. Sem ela, e sem eles, teria desperdiçado meus transes, frustrado minha desordem. Esta inclinação que me leva a emitir um juízo imparcial sobre ela e a testemunhar-lhe minha gratidão, temo que não seja, neste momento, de seu agrado. Calo, então, esses elogios fora de propósito, os sufoco para condená-los a expandir-se em meu interior.

Na época em que gostávamos de comparar nossos acordos e desacordos, você já me censurava essa mania de julgar sem prevenção e de interessar-me vivamente por aquilo que detesto, de só ter sentimentos duplos, necessariamente falsos, que você atribuía à minha incapacidade de sentir uma paixão verdadeira, ao mesmo tempo em que insistia no prazer que tiro disso. Seu diagnóstico não era inexato: mas você se equivocava, entretanto, no que se refere ao prazer. Acha que é muito agradável ser idólatra e vítima do pró e do contra, um arrebatado dividido em seus arrebatamentos, um delirante preocupado com a objetividade? Isso implica sofrimento: os instintos protestam, e é apesar deles e contra eles que se progride em direção à irresolução absoluta, estado que mal se distingue daquele que a linguagem dos extáticos chama “o último ponto do aniquilamento”. Para conhecer eu mesmo o fundo de meu pensamento sobre a menor coisa, para me pronunciar sobre um problema ou uma ninharia, tenho que contradizer o vício maior de meu espírito, essa propensão a abraçar todas as causas e a dissociar-me delas ao mesmo tempo, como um vírus onipresente, dividido entre a cobiça e a saciedade, agente nefasto e benigno, tão impaciente quanto embotado, indeciso entre os flagelos, incapaz de adotar um e especializar-se nele, passando de um para outro sem discriminação nem eficácia, remendão sem igual, portador e esbanjador de incurabilidade, traidor de todos os males, dos do próximo e dos seus próprios.

Não ter nunca a oportunidade de tomar partido, de decidir-me ou de definir-me: não há desejo que tenha com mais frequência. Mas nem sempre dominamos nossos humores, essas atitudes em germe, esses esboços de teoria. Visceralmente inclinados à estruturação de sistemas, nós os construímos sem descanso, sobretudo em política, domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem. Tendo perdido o gosto pelos seres, esforço-me em vão por adquirir o gosto pelas coisas; limitado forçosamente pelo intervalo que os separa, exercito-me e esgoto-me à sua sombra. Sombras também essas nações cuja sorte me intriga, menos por elas mesmas que pelo pretexto que me oferecem de vingar-me do que não tem nem contorno nem forma, de entidades e de símbolos. O homem desocupado que ama a violência salvaguarda seu savoir-vivre confinando-se em um inferno abstrato. Deixando de lado o indivíduo, ele se liberta dos nomes e dos rostos, responsabiliza o impreciso, o geral, e, orientando para o impalpável sua sede de extermínio, concebe um gênero novo: o panfleto sem objetivo.

Agarrado a ideias momentâneas e a simulacros de sonhos, reflito por acidente ou por histeria e não por prurido de rigor, e me vejo, no meio dos civilizados, como um intruso, um troglodita apaixonado pela caducidade, mergulhado em preces subversivas, vítima de um pânico que não emana de uma visão do mundo, mas das crispações da carne e das trevas do sangue. Impermeável às solicitações da claridade e da contaminação latinas, sinto a Ásia mover-se em minhas veias: sou o último descendente de alguma tribo inconfessável?, ou o porta-voz de uma raça outrora turbulenta e hoje muda? Às vezes tenho a tentação de inventar, para mim, uma outra genealogia, de mudar de ancestrais, de escolhê-los entre aqueles que, em sua época, souberam difundir o luto através das nações, ao contrário dos meus, dos nossos, apagados e machucados, atulhados de misérias, amalgamados ao lodo e gemendo sob o anátema dos séculos. Sim, em minhas crises de fatuidade, julgo-me o epígono de uma horda ilustre por suas depredações, um turaniano de coração, o herdeiro legítimo das estepes, o último mongol…

Não quero concluir sem pô-lo de novo em guarda contra o entusiasmo ou o ciúme que lhe inspiram minhas “vantagens”, e mais precisamente a de poder consolar-me em uma cidade cuja lembrança o obseda sem dúvida, apesar de seu enraizamento em nossa pátria evaporada. Esta cidade, que eu não trocaria por nenhuma outra no mundo, é, pela mesma razão, a fonte de minhas desgraças. Como tudo o que não é ela se equivale a meus olhos, muitas vezes lamento que a guerra a tenha poupado e que não tenha perecido como tantas outras cidades. Destruída, ela teria me livrado da felicidade de viver nela, teria podido passar meus dias em qualquer outro lugar, nos confins de qualquer continente. Jamais lhe perdoarei ter-me ligado ao espaço, nem ser – por causa dela – de algum lugar. Dito isto, não esqueço em nenhum instante que de seus habitantes quatro quintos, já observava Chamfort, “morrem de desgosto”. Acrescentaria ainda, para que você saiba, que o resto, os raros privilegiados como eu, não se comportam diferentemente, e que até invejam a grande maioria pela vantagem que tem de saber de que morrer.

CIORAN, E.M., “Carta a um amigo distante (sobre dois tipos de sociedade)”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

MAIS: Entrevista de Cioran a Georges Walter (comentários sobre Constantin Noica), em francês.