SÓ EXISTEM DOIS críticos de cinema na França que sabem falar de filmes: Louis Skorecki e Patrick Besson. O primeiro, extra-terrestre por ser anti-diluviano, o segundo, profundo por ser jocoso. Os dois compreenderam que o grande segredo da arte é não se dar o trabalho (Homero, Montaigne, Hawks). É também a lição que retive de Cioran: “Alguns aforismos fracassados são mais do que suficientes para estes pobres franceses.” Como todos os segredos, ninguém vai se apressar para esquecê-lo. Em contrapartida, apressar-se-á em adquirir, caso ainda não se a possua, as Œuvres complètes do filósofo chinês Ye-Men-Fou. Ou, na falta deste, Ping-Pong, de Jerome Charyn.

Ele conta que, em 1972, Nixon saudou Mao, “esse velho semi-deus frágil que mal conseguia ficar de pé”, dizendo-lhe que seus escritos tinham mudado o mundo. “Eu não cheguei a mudá-lo”, respondeu o Grande Timoneiro. “O máximo que consegui mudar foi alguns lugares de Pequim.” Pensava ele na estação na qual havia instalado por volta de quatrocentas mesas de ping-pong? E a isso que escreveu: ” Considere a bola [balle] de ping-pong como a cabeça do seu inimigo capitalista.”

O ping-pong só interessa se é uma questão de vida e morte. Como as relações amorosas. Acontece em dois tempos: servir e matar. Só se serve para matar, primeiro axioma de uma metafísica do ping-pong. Segundo axioma; mata-se tanto melhor quanto mais se é indiferente. Terceiro axioma: o ping-pong tem a vantagem em relação às artes e à filosofia de estabelecer uma hierarquia que repousa unicamente sobre a qualidade do seu jogo. Mas onde começa o jogo e onde termina? E, quando se escreve, as palavras também devem ter o efeito de uma bola [balle, em francês, também bala de revólver]. São poucos os que sabem dar-lhe este feito. Sem dúvida porque escrevem mais para agradar do que para matar. Os escritores ganhariam mais se escrevessem menos e jogassem mais o ping-pong.

JACCARD, Roland, “Métaphysique du ping-pong”, Cioran et compagnie. Paris: PUF, 2005.

Tradução: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes